Coronavírus

24/10/2020 | domtotal.com

'A pandemia escancarou a obscena desigualdade do Brasil', diz Renato Meirelles

Pesquisador afirma que a solidariedade é a principal marca da pandemia nas periferias

Enquanto governo se assustava com 'os invisíveis', vizinhos, amigos e ONGs agiam para dar de comer a quem precisa
Enquanto governo se assustava com 'os invisíveis', vizinhos, amigos e ONGs agiam para dar de comer a quem precisa (CUFA)

João Vitor Santos
IHU On-line

Parece chover no molhado, mas para Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, é preciso que se repita: "a pandemia escancarou a obscena desigualdade brasileira e os seus efeitos trágicos na vida da população mais vulnerável numa situação de emergência sanitária". Já passados os maiores picos de mortes e contágios, é preciso olhar para frente e apreender outros movimentos dessa pandemia que devem reverberar em desemprego, mais crise e aumento das desigualdades. "A única certeza é que nada será como antes, o que já é uma grande coisa. Afinal, foi o 'antigo normal' que nos trouxe até aqui e o cenário, convenhamos, é desolador", aponta Renato, na entrevista concedida por e-mail à reportagem.

O pesquisador, que já vinha acompanhando as transformações das periferias brasileiras, mergulhou em mais pesquisas durante a crise pandêmica e, sobre o futuro, avalia: "a questão que se coloca é muito clara: ou a sociedade aprende a dividir melhor as oportunidades ou pagaremos caro pelo nosso abismo social". Para ele, muitas pessoas saem transformadas dessa experiência, vide os exemplos de ações solidárias. No entanto, chama a atenção para o fato de que a maior solidariedade se dá entre os iguais, ou seja, entre quem vive em meio às desigualdades da vida nas periferias. "A noção de comunidade nesses territórios sempre esteve presente. 'Se um vizinho tem comida, ninguém passa fome'. Essa foi uma das frases que os nossos pesquisadores mais ouviram durante o trabalho", destaca.

Segundo Renato, "proporcionalmente, os pobres doaram mais do que as classes A e B, os 25% mais ricos do Brasil". "Como se isso não bastasse, nossas pesquisas mostraram que 1/3 das classes A e B requisitaram o auxílio emergencial e 69% dessas pessoas conseguiram obtê-lo", acrescenta. Para ele, enquanto o governo se surpreendia com o número de pessoas invisibilizadas, sem documentos e acessos a serviços básicos, ONGs e a própria comunidade garantiam um mínimo de comida na mesa. "O país não explodiu porque aconteceu uma coisa inédita: a iniciativa privada se uniu às ONGs que atuam junto à população mais vulnerável, e doações – em dinheiro, em dinheiro de plástico, em alimentos, em produtos de limpeza etc. – chegaram rapidamente a quem mais precisava", dispara. 

Renato Meirelles (Instituto Locomotiva)Renato Meirelles (Instituto Locomotiva)

Renato Meirelles é publicitário, presidente do Instituto Locomotiva, que é centrado em pesquisas nas camadas mais pobres da população, e fundador do Data Favela. Especialista em consumo e opinião pública do país, foi dos primeiros a esquadrinhar o comportamento do consumidor emergente brasileiro, atendendo às maiores empresas do Brasil. Em 2012, compôs a comissão que estudou a nova classe média brasileira, na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

 Confira a entrevista.

O senhor trabalhou em cerca de 30 pesquisas sobre os impactos da pandemia na realidade brasileira. Com base nesses estudos, o que imagina que a experiência da pandemia vai legar ao Brasil?

Um dos levantamentos que fizemos mostrou que a maior parte dos brasileiros não sabe para onde vamos caminhar passada a pandemia. A única certeza é que nada será como antes, o que já é uma grande coisa. Afinal, foi o "antigo normal" que nos trouxe até aqui e o cenário, convenhamos, é desolador.

A verdade é que a pandemia escancarou a obscena desigualdade brasileira e os seus efeitos trágicos na vida da população mais vulnerável numa situação de emergência sanitária. A questão que se coloca é muito clara: ou a sociedade aprende a dividir melhor as oportunidades ou pagaremos caro pelo nosso abismo social.

O que mais lhe chamou atenção nas pesquisas?

Que as favelas e as periferias deram um exemplo de solidariedade ao país. Proporcionalmente, os pobres doaram mais do que as classes A e B, os 25% mais ricos do Brasil. Como se isso não bastasse, nossas pesquisas mostraram que 1/3 das classes A e B requisitaram o auxílio emergencial e 69% dessas pessoas conseguiram obtê-lo. Não há dúvida de que a crise econômica atingiu a todos, mas somente um comportamento extremamente individualista da classe mais abastada – comportamento que se acentuou nos últimos tempos – explica tal atitude.

A Covid-19 entrou no Brasil pela classe média, e até pelas classes altas, mas se disseminou nas periferias. Como isso apareceu nas suas pesquisas?

As pesquisas colocaram por terra uma fake news muito difundida logo no começo da pandemia: a de que o novo coronavírus era democrático, matava igualmente pobres e ricos. Uma coisa é fazer isolamento social com geladeira cheia, trabalhando em casa, com renda garantida. Outra é fazer parte de uma família que divide o mesmo cômodo, muitas vezes sem água encanada, tendo de vender o almoço para pagar a janta. Como fazer isolamento social, como se manter a salvo da Covid-19 numa situação assim?

O que diferencia a pandemia vivida na favela da vivida no asfalto?

A resposta está na nossa desigualdade.

Em que medida a pandemia ressignificou a ideia de comunidade, tão presente nas periferias e favelas brasileiras?

Não ressignificou porque, como dito na pergunta, a noção de comunidade nesses territórios sempre esteve presente. "Se um vizinho tem comida, ninguém passa fome". Essa foi uma das frases que os nossos pesquisadores mais ouviram durante o trabalho de campo nas favelas. A lógica da reciprocidade ali é muito arraigada.

O senhor defende que a experiência da pandemia funciona como um acelerador de tendências, especialmente no mundo digital. Mas como essa escalada do mundo virtual é apreendida e utilizada nas periferias?

O brasileiro foi digitalizado a fórceps na pandemia. Como costumo repetir, experimentamos cinco anos em cinco meses. Houve, por exemplo, um processo brutal de digitalização do consumo e da educação.

Os mais pobres se encaixaram nesse processo na medida das suas possibilidades, que são precárias em comparação aos mais ricos. Mais uma vez, a desigualdade se fez presente. Na educação, principalmente, houve, há e haverá uma perda grande. A escola pública, assim como o seu aluno, não estão devidamente equipados e preparados para um ensino remoto efetivo.

Que narrativa as periferias fazem do auxílio emergencial concedido pelo governo federal? Como avalia essa narrativa?

Gostaria de chamar a atenção para dois aspectos que têm a ver com a apropriação da narrativa do auxílio emergencial. Logo no começo da pandemia, quando o governo federal, por uma série de problemas, não conseguia fazer o dinheiro chegar às famílias, o país não explodiu porque aconteceu uma coisa inédita: a iniciativa privada se uniu às ONGs que atuam junto à população mais vulnerável, e doações – em dinheiro, em dinheiro de plástico, em alimentos, em produtos de limpeza etc. – chegaram rapidamente a quem mais precisava.

Enquanto o governo se espantava com os "invisíveis", essa união de empresários e ONGs deu um show de solidariedade e eficiência. Mostrou como se faz. E tem sido assim até agora, porque doações continuam a chegar nas comunidades de todo o país.

O outro aspecto tem a ver com a popularidade do presidente, que foi vitaminada com o auxílio emergencial e que, da mesma forma, pode ser influenciada com a diminuição do valor do auxílio e com o seu fim. Veremos o que vai acontecer.

 Iniciativas como favelasemcorona.com buscam saídas para o enfrentamento da pandemia nas periferias à revelia das ações do poder estatalIniciativas como favelasemcorona.com buscam saídas para o enfrentamento da pandemia nas periferias à revelia das ações do poder estatalDepois da experiência da pandemia, é possível ver caminhos para a instituição de uma renda básica universal no Brasil? E que caminho seria esse?

Está mais claro do que nunca que é preciso diminuir a desigualdade. Esse processo passa por um programa de renda, mas não só. É preciso universalizar o acesso à educação, à saúde, ao saneamento básico. Enfim, é preciso equalizar, de verdade, as oportunidades para todos.

Como a periferia tem visto e participado do debate político? Qual o cenário para as eleições municipais deste ano?

Para o grosso dos eleitores, mais do que direita ou esquerda, conservador ou progressista, importa, acima de tudo, um governo que funcione, um governante, um representante que resolva. Isso é especialmente verdadeiro para as eleições municipais, que dizem respeito principalmente ao dia a dia do eleitor, às questões de zeladoria da sua cidade.

As classes C e D passaram a ser muito sondadas a partir da primeira década dos anos 2000. Que transformações têm percebido nessa fatia da população brasileira desde então?

Estamos falando de boa parte da população brasileira que, na década passada – principalmente a classe C – foi a mola propulsora da economia, até a crise se instalar, a partir de 2014. Ainda assim, e apesar de toda a depressão econômica, trata-se de uma massa de pessoas com um formidável poder de consumo – só a classe C movimenta R$ 1,6 trilhão – e de perfil bastante heterogêneo. O ponto em comum é a consciência do seu poder de escolha e de denúncia. Isso vale para tudo, de produtos a políticos.

Que Brasil pós-pandemia o senhor vislumbra?

Como respondi logo no começo da nossa conversa, nada será como antes. Agora, o futuro está em construção. Certas mudanças, porém, estão claras. A partir do confinamento, os brasileiros passaram a resgatar valores que andavam esquecidos. Boa parte da população sai da pandemia mais solidária, generosa e próxima da família. Já é um bom começo.

Publicado originalmente por IHU On-line.


IHU On-Line



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