Religião

23/10/2020 | domtotal.com

Por que Francisco não se pronunciou sobre o Chile?

Após os incêndios que destruíram duas igrejas da capital, Santiago, no último domingo (18), católicos protestam indignados com a suposta omissão de Francisco

Depois do incêndio de duas igrejas no Chile, internautas brasileiros cobram um parecer de Francisco
Depois do incêndio de duas igrejas no Chile, internautas brasileiros cobram um parecer de Francisco (AFP)

Mirticeli Medeiros*

Sem dúvida, esta foi a pergunta mais replicada nas redes sociais nos últimos dias. Pessoas acostumadas com a frenesi das redes sociais, exigindo do papa um parecer (isso mesmo, exigindo!). Como se o pontífice mantivesse as notificações do celular ativadas e estivesse pronto para subir uma hashtag de breaking news em caso de necessidade. Colocaram-no contra a parede, na tentativa de obter uma resposta de tão baixa complexidade quanto um post de 280 caracteres do Twitter. "O importante é que ele fale", dizem.

Principalmente no Brasil, as pessoas têm certa dificuldade de relacionar a figura do pastor - no caso, o líder religioso - à de chefe de Estado do Vaticano. As duas funções se complementam, e não podem estar dissociadas quando o papa faz um pronunciamento, principalmente quando o conteúdo faz referência a uma realidade local, a um Estado soberano.

Na Europa, não foi feito nenhum protesto contra a suposta omissão do papa. E nem é porque não estejam por dentro do que se passa no Chile. A diferença é que eles têm uma visão "mais global" a respeito dessas prerrogativas do papado. Compreendem melhor como se move o representante dos cristãos. O papa é "hóspede ilustre" do território italiano, mora no quintal deles.

O silêncio, a depender da situação, corresponde ao modus operandi da diplomacia pontifícia. Diante de um cenário de convulsão social, o papa se cala. Porém, pode atuar nos bastidores, como no caso da Venezuela. Francisco recebeu Michelle Bachelet, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, no Vaticano, em agosto deste ano, e depois entendemos porque, num primeiro momento, a pauta do encontro não foi revelada. Eles conversaram sobre o caos social vivido no país governado por Nicolás Maduro.

Além disso, Bachelet, que é chilena, é bastante próxima de Francisco. Por causa disso, não duvido que o papa a tenha consultado em algum momento. Ninguém melhor que ela para aconselhar o papa sobre a situação do seu país de origem.

Em 2016, Francisco sequer tocou no assunto do impeachment da presidente Dilma, por exemplo. Nem citou as manifestações dos anos anteriores. Pediu que rezassem pelo país, como sempre faz. Até desistiu de vir ao Brasil em 2017 por causa do clima de instabilidade que vivíamos, apesar de o Vaticano atribuir o cancelamento da viagem à agenda apertada de Francisco. Isso para mostrar que a instituição não deve pensar só nos católicos, mas também nas relações diplomáticas que mantém com os destinatários da sua mensagem.

Todo cuidado é pouco. Quem não se lembra de Bento XVI e sua famosa fala sobre Maomé, na Universidade de Regensburg, na Alemanha, em 2006? Uma freira chegou a ser assassinada depois disso. Atribuem a autoria do crime a radicais islâmicos que protestavam contra o discurso do papa. Tanto que a religiosa foi declarada mártir por Papa Francisco em 2018.

Não só a gravidade do evento define o que o papa deve ou não dizer, mas todo o contexto que o envolve. E o posicionamento do sumo pontífice deve, necessariamente, ser costurado pela Secretaria de Estado. É esse organismo que está a par de todos os pormenores do processo, colabora com o papa nisso.

Quando foi avisado do 11 de setembro, em 2001, João Paulo II prontamente enviou um telegrama ao presidente do país, Georg W. Bush. Mas esperou a catequese do dia seguinte para se manifestar sobre o acontecimento. Isso porque tanto na audiência geral da quartas-feira quanto na oração do Angelus de domingo, o santo padre reserva uma parte do sermão para citar tragédias, catástrofes e outros eventos de grande repercussão. Não é que o papa, do nada, entrará em cadeia nacional para denunciar alguma coisa. Os protocolos existem para ser seguidos.

Na última campanha virtual, não vi ninguém questionando o silêncio de Pio XII, por exemplo. Algumas linhas de interpretação histórica sugerem que ele assumiu essa postura para evitar represálias de Adolf Hitler contra os católicos. O papa italiano também viu igrejas sendo destruídas pelos nazistas. E o Führer ameaçou, inclusive, sequestrá-lo.

A situação do Chile não se compara à da Alemanha, certamente. Porém, é necessário compreender os curtos circuitos que existem entre catolicismo e o povo chileno. E tudo começa na era Pinochet. Até hoje, a Igreja Católica é acusada de ter feito vista grossa para os crimes do ditador. Desde então, o anticlericalismo foi se tornando cada vez mais intenso. Para completar, o país foi palco de um dos maiores escândalos de pedofilia da história, o que minou ainda mais a credibilidade da instituição. A situação era tão dramática que, diante da pressão do Vaticano, os bispos do país pediram demissão em bloco, em 2018.

As atuais manifestações, desde que pacíficas, são vistas com bons olhos pelos bispos locais. Os prelados, que repudiam os atos de violência e a ação dos black blocs, alertaram para a possibilidade de que alguns tentem deslegitimar as justas reivindicações da população. De quebra, a acusação de que um militar da marinha esteve envolvido no atentado às duas igrejas, no último domingo (18) intriga a todos. Como não há clareza sobre culpados e os chilenos aguardam a votação do plebiscito sobre nova Constituição, que será realizado no próximo domingo (25), é compreensível a cautela de Francisco.

O problema é que, na selva da desinformação, qualquer conteúdo objetivo acaba sendo ofuscado pelas paixões partidárias. Por mais que se apresentem provas e dados contundentes, é mais importante, para alguns, seguir com a militância nas redes. E nessa campanha de lacração, arrumar um bode expiatório é sempre necessário. Como no imaginário de muitos o papa é o "comunista", o católico tuiteiro se sente com autoridade moral para cobrá-lo. Cenário triste e real.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras



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