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24/10/2020 | domtotal.com

'Enigma do infinito' e chama da matemática

Obra de Jacques Fux ilustrada por Raquel Matsushita entrelaça matemática e literatura para jovens leitores

Trabalho de Raquel Matsushita brinca com formas para ilustrar enigmas geométricos
Trabalho de Raquel Matsushita brinca com formas para ilustrar enigmas geométricos (Positivo/Divulgação)

Tadeu Sarmento*

Em A retórica da ficção (clássico estudo sobre as relações entre retórica e a arte do romance, publicado em 1961), o professor e crítico literário estadunidense Wayne C. Booth argumenta o seguinte: para criar narrativas, o escritor elabora, ao mesmo tempo, uma imagem de si mesmo ("o autor implicado") e outra imagem de seu leitor ("o leitor implicado"). Neste sentido, o ato da leitura se constituiria naquele instante feliz em que leitor e persona implicados encontram-se na mesma página para assinar um contrato vantajoso para ambos, companheiros da trajetória transformada em livro.

Nas páginas do Enigma do infinito, estreia do escritor mineiro Jacques Fux no terreno da, convencionalmente chamada, literatura infanto-juvenil, a imagem projetada pelo autor é a de uma espécie de narrador à Malba Tahan, pronto a seduzir seu interessado e sagaz leitor por uma reta perfeita em que matemática e literatura se entrelaçam, e nomes como Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges, Miguel de Cervantes, Bertrand Russell, Lewis Carroll, Georges Perec, Allan Poe, Turing, Arthur C. Clarke e muitos outros pululam com a mesma naturalidade com que o autor troca a chave do assunto.

Dividido em 11 partes, o livro começa na Torre de Babel e termina em sua Biblioteca. Até completar este trajeto, Fux demonstra amplos conhecimentos matemáticos e literários, particularmente em lógica, teoria dos conjuntos e paradoxos, de posse dos quais defende a curiosa tese de que, com a confusão das línguas, consequência direta da tentativa dos homens de construir uma torre alta o suficiente para alcançar o céu, a matemática se tornou a única linguagem universal, capaz de ser compreendida por todos (a mathesis universalis tão sonhada por Descartes).

É esta compreensão que Fux persegue ao repassar, de uma maneira divertida e sem didatismos, conteúdos matemáticos em forma de brincadeiras, fazendo largo uso de palíndromos, paradoxos, teoria dos conjuntos, lógica carrolliana, lipogramas, criptografias, e muito mais, na clara intenção de demonstrar que, debaixo dos cálculos mecânicos e das equações complicadas, subjaz a essência mesma da matemática: conhecer o mundo através do jogo. É o jogo como leitura que Fux oferece em troca do nosso tempo. Do tempo do leitor.

Outro ganho do livro é a ideia de que a matemática se encontra alicerçada em estruturas que correspondem a estruturas da linguagem (uma das obsessões de Wittgenstein), além da sugestão, essencial para a formação das crianças, de que o conhecimento é um tesouro partilhado, sendo o reconhecimento dessa dívida que temos com a tradição o próprio pagamento em si, e condição essencial de qualquer avanço no campo intelectual.

Notem que o "leitor implicado" que Fux exige teria que ser sofisticado demais, dado os conteúdos eruditos com os quais o escritor trabalha, caso as vantagens do contrato de leitura não incluíssem o manejo simples e objetivo de códigos elaborados, além de um aprazível senso de humor que pincela todo o livro; senso de humor que, em Fux, basicamente é um senso de simetria.

Foi Walter Benjamin quem disse: "A criança aceita sem problema qualquer assunto sério, desde que expresso com honestidade e espontaneidade". E Michel Tournier, quando afirmou que não escrevia para as crianças, mas, antes, tendo em vista um ideal de brevidade, de clareza e de proximidade ao concreto, fez notar que essa divisão entre leitores adultos e não-adultos deve ser uma gradação, nunca uma simplificação de conteúdo, efetuada por quem subestima determinadas faixas de idade. Ao se recusar a facilitar o conteúdo em nome de uma pretensa superioridade intelectual, Fux constrói um livro onde, como bem disse André Comte-Sponville, o contrário do simples não é o complexo, mas o falso. Para tanto, Fux oferece um narrador sem afetação, que convida seu leitor para uma experiência única de conhecimento.

É comum ouvir dizer que crianças não gostam de matemática, mas talvez elas não gostem daquilo que não lhes desperte curiosidade. É a curiosidade sobre um mundo que pode ser conhecido através de jogos lógicos que Jacques Fux desperta em quem o lê. Escrever para crianças, parafraseando Montaigne, não é preencher um vazio, mas acender um fogo. Basta folhear as páginas de O Enigma do infinito para notar as faíscas.

Inscrito com o nome os 11 trabalhos de Borges, o livro foi finalista do prestigiado Barco a Vapor de 2019. Nesta semana, o livro recebeu dois reconhecimentos importantes. O primeiro foi o prestigiado selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2020 (FNLIJ). E o segundo foi a indicação como finalista do Prêmio Jabuti 2020, na categoria Projeto Gráfico, pelo primoroso trabalho gráfico e as ilustrações de Raquel Matsushita, que tornam o livro uma obra de arte à parte.

O ENIGMA DO INFINITO
De Jacques Fux
Ilustrações de Raquel Matsushita
Editora Positivo
64 páginas
R$ 63,90


Dom Total

*Tadeu Sarmento é escritor, autor de E se deus for um de nós? (Confraria do Vento), Associação Robert Walser para sósias anônimos (Cepe), entre outros.



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