Cultura Cinema

26/10/2020 | domtotal.com

'O problema de nascer' incomoda pela relação dúbia de personagem com seu 'pai'

Ficção científica recebeu críticas por ser uma espécie de 'Lolita distópica'

Para diretora, longa trata essencialmente de uma questão delicada: o fato de como as pessoas estão se tornando cada vez mais virtuais em seus relacionamentos
Para diretora, longa trata essencialmente de uma questão delicada: o fato de como as pessoas estão se tornando cada vez mais virtuais em seus relacionamentos (Divulgação/O problema de nascer)

O início de O problema de nascer, filme da austríaca Sandra Wollner que é um dos destaques da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, logo se revela enganador – em uma casa futurista no meio do campo, um homem (Dominik Warta) vive com uma menina chamada Elli (Lena Watson), que o trata por pai. Tardes na piscina, noites com música clássica, o clima é bucólico, mas logo surge o incômodo, com os carinhos íntimos praticados pelo pai e a pose sexy da menina ao vestir uma roupa nova.

Em poucos minutos, o espectador descobre que Elli não é humana, mas uma androide construída como uma réplica da filha daquele homem, desaparecida anos antes. A descoberta é sutil e vem nos detalhes: primeiro, o som típico de computador que emana da menina; depois, sua face quase imutável – Elli é interpretada por uma atriz mirim de 10 anos, disfarçada com máscaras faciais de silicone e perucas, para evitar que sua identidade seja revelada.

Em seu conto de ficção científica distópico, Sandra Wollner aposta na confiança que a humanidade deposita na tecnologia para combater a solidão estrutural da existência moderna. O problema é que a relação fetichista a la Lolita de pai e "filha" causou furor em diversas mostras pelo mundo.

O Festival Internacional de Cinema de Melbourne, por exemplo, tirou o título de sua programação por acreditar que o longa "normaliza o interesse sexual nas crianças". Mesmo assim, O problema de nascer estreou no Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro, quando ganhou um prêmio na seção Encontros dedicada a obras de conteúdo mais arrojado. A condecoração, no entanto, não evitou determinada críticas na imprensa, que o taxaram de um "filme de pedofilia androide".

O que mais incomodou determinada parcela da audiência foi a primeira metade do filme, quando Elli vive uma relação dúbia com seu pai. Mas as incertezas pontuam o filme, pois não se sabe se aquele pai é o criador do androide ou apenas o proprietário, um homem infeliz que busca minimizar a dor da perda da filha real.

A função de consolo da menina máquina é reforçada quando Elli parte em uma inesperada viagem sem rumo (provocando nova dor de perda em seu "pai") até chegar à casa de uma senhora, levada pelo filho. Ali, o androide ganha novas feições, personalizado de acordo com as necessidades emocionais daquela mulher, que sente a falta de um filho. Novamente, a relação entre máquina e humano não é plenamente realizada.

O roteiro sugere semelhanças com longas como AI - Inteligência artificial (2001), que Steven Spielberg dirigiu a partir do conto de Brian Aldiss; ou Ex_Machina: Instinto artificial, escrito e dirigido por Alex Garland, em 2014.

Em uma entrevista à revista Variety, concedida logo depois da exibição do longa em Berlim, Sandra afastou qualquer influência. "Foi Roderick Warich, meu coautor, quem teve a ideia de fazer um filme sobre um androide infantil e achei muito interessante e intrigante contar a história do ponto de vista desse androide que não se importa, que não quer nada além do que está programado para querer", afirmou. "Para mim, o filme é mais sobre a 'virtualidade' de nossas próprias conversas, da nossa realidade e que como estamos por conta própria, após sofrermos perdas."

Para a cineasta, seu longa trata essencialmente de uma questão delicada: o fato de como as pessoas estão se tornando cada vez mais virtuais em seus relacionamentos, o que acentua, na verdade o isolamento em que todos já vivem.

Além da solidão, o filme trata ainda da incapacidade do ser humano em lidar com a morte – ainda que, em diversas civilizações, o fato seja festejado e não lamentado.

A dor do pai de Elli e da mãe que lamenta a falta de seu caçula é provocada pela incapacidade de se lidar com o vazio deixado por essas ausências. E, ainda mais triste, nem as máquinas conseguem reparar as perdas inevitáveis.


Agência Estado



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!