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27/10/2020 | domtotal.com

Quando as ruas gritam

Pontes com o mundo atual em Os 7 de Chicago

Racismo institucional é exposto em possível candidato ao Oscar
Racismo institucional é exposto em possível candidato ao Oscar (Netflix/Divulgação)

Antes de mais nada, é necessário falar de minha admiração pelo trabalho de Aaron Sorkin, responsável por roteiro e direção de Os 7 de Chicago. Ter criado The west wing e escrito A rede social (o filme de David Fincher que lhe valeu o Oscar de melhor roteiro adaptado em 2011) já teria sido o suficiente para uma merecida aposentadoria por bons serviços prestados.

Mas o homem segue na luta, colocando em cheque as instituições dos Estados Unidos, como tem feito desde o início da carreira. A Casa Branca, o Congresso e os mecanismos internos do presidencialismo (em Meu querido presidente, Jogos do poder e The west wing); a televisão (com as séries Sports night, Studio 60 on the Sunset Strip e a pouco valorizada The newsroom). Não satisfeito, ainda tirou do pedestal quem melhor representou o sonho americano (com suas duas facetas inerentes, a de loser e a de vencedor): o senhor Apple em pessoa, Steve Jobs. 

Dessa vez, Sorkin retoma um de seus cenários favoritos, o tribunal. Seu primeiro roteiro foi uma adaptação da peça Questão de honra, de sua autoria, que rendeu o memorável filme de Rob Reiner. É antológica a cena em que um irritante Tom Cruise exige que Jack Nicholson no banco das testemunhas diga a verdade e ele grita de volta: "você não aguenta a verdade!" 

Para o personagem de Nicholson, eventuais desvios dos militares justificariam qualquer ação mais radical, uma vez que apenas a tutela das forças armadas garantiria a liberdade da população. Por incrível que pareça, a vida insiste em imitar a arte e uma parcela do nosso generalato vem incorporando este discurso absurdo no Brasil bolsonariano em que vivemos. Quando o exército se traveste de milícia, a história nunca acaba bem.

No auge da guerra do Vietnã, oito líderes de movimentos políticos foram levados a júri sob a acusação de incitar as revoltas populares durante a convenção do Partido Democrata de 1968 em Chicago. A polícia desceu o sarrafo nos manifestantes e mais de quatrocentas pessoas acabaram no hospital. Após a vitória de Nixon na eleição presidencial daquele ano, o ativismo pelos direitos humanos deixou de obter a escuta que havia encontrado  durante os governos de Kennedy e Lyndon Johnson e passou a ser fortemente criminalizado.         

Sacha Baron Cohen, encarnando Abbie Hoffman, um dos líderes do movimento da contracultura naquele momento, repete o seguinte vaticínio: "este é um julgamento político". O óbvio nem sempre é o que conseguimos ou queremos enxergar e apenas os excessos de um juiz tantã, racista e parcial foram capazes de desnudar perante a opinião pública a verdadeira farsa que foi todo o processo. Como planejado, os réus receberam o veredicto de culpados na primeira instância e julgamentos políticos continuam acontecendo até hoje.

O timing do lançamento do filme é seu maior mérito. As ruas dos EUA estão tomadas pelo movimento Black lives matter, como naquele turbulento final dos anos 60, quando os protestos contra a guerra eram o grito libertário a ecoar pelo país. O assassinato de George Floyd pelos policiais de Minneapolis, estopim das manifestações em 2020, descende diretamente da mordaça que o juiz mandou colocar no pantera negra e também réu Bobby Seale.  

Ao se defender de uma insinuação de racismo por parte da defesa, o meritíssimo (interpretado pelo veterano Frank Langella) alega nunca ter sido chamado de racista, com cara de contrariado - como se isso anulasse sua verdadeira natureza. Em mais uma das pontes que o filme faz com nossa atualidade, a fala do juiz remete ao ato falho de Trump no último debate presidencial ao se declarar "a pessoa menos racista no recinto".

Algumas coisas no filme são apresentadas de maneira diversa do ocorrido, o que não chega a atrapalhar o filme, mas nos leva a questionar certas escolhas. O desfecho do julgamento tem apelo dramático forte, mesmo embaralhando a cronologia dos fatos reais, porém, o script que a própria história deixou como legado era melhor ainda.

O advogado dos réus, William Kunstler (representado lindamente por Mark Rylance), fechou a defesa com o seguinte discurso:

"Quando uma nova verdade surge sobre a terra, ou uma grande ideia necessária para a humanidade nasce, de onde isso vem? Não da polícia, ou dos promotores públicos, ou dos juízes, ou advogados, ou dos doutores. Isso vem dos desprezados e proscritos, vem talvez das cadeias e prisões. Vem de homens que ousaram ser rebeldes e pensar - e sua fé tem sido a fé dos rebeldes... Pensem naqueles covardes e complacentes que nunca levantaram a voz contra o poder instituído. Se apenas estes tivessem existido, vocês, senhoras e senhores do júri... Seriam escravos. Vocês devem tudo o que possuem e a esperança a estes bravos rebeldes que ousaram pensar, falar e agir."

Espanta que o trecho tenha acabado fora do filme, porque combina com a maneira idealista de enxergar o mundo do diretor roteirista. Poderia ser um discurso escrito pelo personagem de Rob Lowe para o presidente Bartlet, de The west wing.

Na verdade, Sorkin é um grande roteirista, além de imbatível criador de diálogos, porém, como diretor, revela-se apenas razoável. Os 7 de Chicago deve ser assistido em sessão dupla com o estupendo Esquadrão blood, de Spike Lee. Vistos lado a lado, complementam-se por lançar luz sobre um período turbulento da história estadunidense - mas, sobretudo, mostram a diferença entre um autor e aquele que simplesmente filma uma história. 

OS 7 DE CHICAGO: disponível na Netflix.

 *Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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