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28/10/2020 | domtotal.com

Ventos da mudança

Avanços políticos e sociais tanto do Chile quanto da Bolívia trazem esperança

Avanços políticos e sociais tanto do Chile quanto da Bolívia trazem esperança
Avanços políticos e sociais tanto do Chile quanto da Bolívia trazem esperança (AFP)

Reinaldo Lobo*

Nos Andes voa o condor e, agora, voam também os ventos da democracia e da esperança. A partir dali, podem surgir grandes mudanças em toda a América Latina, onde há povos sedentos por sua autonomia e desenvolvimento.

O Chile e a Bolívia estão enfrentando o consenso golpista que começa em Washington, passa pelos palácios presidenciais latino-americanos e continua nos Exércitos locais.

É a maior reviravolta social e política em ambos os países, cada uma do seu jeito, desde que se empossou nos EUA o presidente da ultra direita norte-americana, Donald Trump, há quatro anos.

No Chile, país de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, mas também de Pinochet e Sebastian Piñera, houve uma das piores ditaduras latino-americanas nas décadas de 70 e 80, período em que o país serviu - e ainda serve - de cobaia para a experiência neoliberal norte-americana no continente.

O regime anti-povo de Pinochet, apoiado pelas Forças Armadas mais violentas, treinadas antes da II Guerra Mundial pelos oficiais alemães pró nazistas (até há pouco, os soldados chilenos marchavam a "passo de ganso", ritmo ensinado pela Wermacht alemã) matou um número difícil de calcular - seguramente mais de vinte mil opositores -, pois muitos "sumiram" na Operação Cone Sul entre Chile, Brasil e Argentina.

Na Bolívia, onde mataram Che Guevara sob a ditadura de René Barrientos, depois veio o ditador neoliberal Hugo Banzer, orientado pelo mesmo guru, Jeffrey Sachs (Chicago Boy), participante do experimento chileno de Pinochet junto com personagens como o atual ministro da Economia brasileiro, José Guedes, também ex-aluno da famosa Escola de Chicago, templo da desestatização e da retirada dos direitos sociais no Continente.

As forças conservadoras dentro do Chile e da Bolívia têm feito de tudo para manter a sociedade sob o mando de suas classes dominantes através da mesma fórmula neoliberal, aplicada e fracassada nos últimos 40 anos em cerca de 160 países sob o consenso de Washington.

Essa fórmula deveria garantir tanto governos eleitos quanto Ditaduras. Demoraram mais tempo a ser abandonadas em regimes ditatoriais, como a ditadura chilena, em razão da violência da repressão sobre as classes trabalhadoras. Aliás, só funciona algum tempo sob regime discricionário, ainda que se intitule (neo) liberal.

As sucessivas rebeliões populares chilenas em regime democrático são um comentário do povo sobre os resultados dessa política. A promessa de uma nova Constituição, eleita livremente, no lugar da carta de Pinochet foi um recuo em face da pressão popular por parte do governo Piñera, um dos políticos mais ligados ao passado ditatorial.

Piñera quer ser a "ultra-direita civilizada", jura não desejar matar ninguém e ficou um pouco envergonhado com sua aliança precoce com Bolsonaro. Daí, sua manobra de aceitar a constituinte popular. Tenta entregar os anéis para não entregar dedos, braços e pernas. Faz parte, porém, do grupo que assassinou Salvador Allende em 1973, no golpe, então, mais violento da América Latina.

Os levantes chilenos têm como tema explícito "enfrentar a desigualdade". A luta não é só por democracia, já conquistada, mas eliminar os restos da ditadura Pinochet e promover uma reforma na estrutura do Estado que permita distribuição de renda.

Na Bolívia é um pouco diferente. Existem questões raciais e, por muito tempo, os indígenas foram excluídos pela minoria branca, de ascendência espanhola, dos frutos da sociedade e da própria política.

O neoliberalismo dos tempos das ditaduras Barrientos e Banzer só acentuou essa exclusão. A eleição do governo Evo Morales tentou reverter essa situação com bastante sucesso: os nativos de várias etnias entraram para a democracia e a economia, além de terem proteção do Estado e direitos sociais. Morales, ele próprio indígena e cocaleiro, foi uma espécie de Lula carismático reeleito várias vezes.

O golpe de Estado apoiado abertamente pelo Departamento de Estado dos EUA - com um adido militar norte-americano sendo premiado pelo seu êxito com dinheiro por uma multinacional -, destruiu temporariamente a democracia, além de obrigar Evo Morales, seu vice e alguns ministros a um exílio na Argentina.

A eleição de Luís Arce, ex-ministro da Economia que levou de volta ao governo o partido de Morales, significou uma reconquista da democracia plena, golpeada pela ala conservadora do congresso boliviano.

Esses avanços políticos e sociais tanto do Chile quanto da Bolívia, países cujos povos têm laços não só de amizade, mas de destino comum latino-americano conosco, trazem uma esperança de enfrentarmos aqui também os Chicago?s boys do ministro Guedes, que já foi empregado do próprio Pinochet.

Mais um fio de esperança e de inspiração para nos livrarmos do pior governo que o Brasil já teve nas últimas décadas. Sonhamos conseguir de novo a plena democracia, quer os nossos militares e os EUA queiram ou não.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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