Economia

29/10/2020 | domtotal.com

Observatório da UFMG revela que 36% dos motoristas de aplicativos se afastaram das ruas

Análises mostram que houve perda significativa de rendimento para esses trabalhadores, além do aumento da exposição ao risco de contrair a doença

Pandemia teve grande impacto sobre a mobilidade e a economia dos aplicativos de transporte
Pandemia teve grande impacto sobre a mobilidade e a economia dos aplicativos de transporte (Marcello Casal Jr. | Agência Brasil)

Nos últimos anos, houve aumento expressivo de pessoas que trabalham como motoristas, por meio de aplicativos digitais. A pandemia do novo coronavírus impactou fortemente o trabalho desses profissionais, uma vez que as medidas de distanciamento social reduziram significativamente a mobilidade da população. Em nota técnica, o Observatório Social da Covid-19 da UFMG detalhou o impacto da pandemia sobre a rotina dos motoristas de aplicativo com base em diferentes fontes de informação. O trabalho é assinado pelo professor Marden Campos, do Departamento de Sociologia da UFMG e coordenador do Observatório, e pela estudante de graduação e bolsista Ludmila Beatriz. 

As análises mostram que houve perda significativa de rendimento para esses trabalhadores, além do aumento da exposição ao risco de contrair a doença. “Nosso cotidiano tem sido permeado cada vez mais por aplicativos que operam pela internet. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que passam a realizar suas atividades profissionais em aplicativos de plataformas empresariais. Estima-se que atualmente haja em torno de 50 milhões de trabalhadores digitais (gig workers) em todo o mundo. Um dos exemplos mais emblemáticos desse tipo de trabalho são os chamados ‘motoristas de aplicativo’”, contextualiza a nota técnica.

No Brasil, eles atuam majoritariamente pelas plataformas Uber e 99 App. Fundada em 2009, na Califórnia, a Uber chegou ao Brasil em 2014 e afirma ter mais de 600 mil motoristas cadastrados no país. Já a 99 App foi fundada em 2012 no Brasil e acabou adquirida no ano passado pela chinesa DiDi Chuxing. A empresa informa ter número de motoristas próximo ao da principal concorrente.

Sem renda e mais expostos

Essas plataformas reorganizaram os deslocamentos e têm-se tornado cada vez mais uma opção de renda para centenas de milhares de trabalhadores. “Contudo, a deflagração da pandemia do novo coronavírus e as medidas de distanciamento social impactaram fortemente o trabalho dos motoristas de aplicativo, ao reduzirem fortemente os níveis de mobilidade diária da população. Muitos motoristas perderam parte significativa ou mesmo a totalidade de seus rendimentos, enquanto muitos expuseram-se perigosamente ao risco de contrair a covid-19”, diz a nota.

A equipe do Observatório Social da Covid-19 analisou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19 (Pnad-covid), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na tentativa de mensurar o impacto da pandemia sobre os motoristas de aplicativo do país. Também foram analisados dados de Pnads anteriores, para captar tendências da atividade nos últimos anos. Segundo a Pnad 2011, havia 614 mil condutores de veículos para transporte particular que trabalhavam por conta própria no Brasil, número que se manteve praticamente estável até 2015, quando estavam registrados 643 mil trabalhadores na mesma condição. 

Nos anos seguintes, com a chegada dos aplicativos de transporte, houve enorme crescimento do número de trabalhadores do setor. Na Pnad-Contínua de 2019, havia 1,145 milhão de condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas que trabalhavam por conta própria, indicando aumento de mais de 500 mil trabalhadores no período. Na Pnad-covid referente a abril de 2020, foram contabilizados 1,124 milhão de trabalhadores por conta própria na categoria motorista de aplicativo, de táxi, de van, de mototáxi ou de ônibus.

Menos horas nas ruas

Segundo a equipe do Observatório Social, a Pnad-covid mostra claramente o impacto da pandemia sobre os motoristas de aplicativo. No primeiro mês das medidas de distanciamento social, 36% desses trabalhadores estavam afastados do trabalho, ou seja, mais de um terço dos motoristas perdeu sua fonte de renda. Apenas ambulantes, cabeleireiros, manicures, cozinheiros, garçons e professores apresentaram percentuais mais elevados de trabalhadores afastados em abril.

Entre aqueles motoristas que continuaram nas ruas, a média de horas trabalhadas por semana, que era de 45 horas, caiu para 20 horas em média. Trabalhadores de outras ocupações tiveram uma redução de 39 para 27 horas semanais de trabalho com a pandemia.

“Podemos perceber que, mesmo antes da pandemia, o rendimento dos motoristas de aplicativo era inferior à média de mercado, ainda que eles trabalhassem seis horas a mais em média do que os outros trabalhadores. Segundo as Pnads, houve perda de 12% do rendimento dos trabalhadores desse setor entre 2015 e 2020, fenômeno agravado pela pandemia. Em abril de 2020, o rendimento médio dos motoristas equivalia a menos de 80% da renda média do trabalho no país”, registram os pesquisadores.

O Observatório Social da Covid-19 também constatou que apenas 8% dos motoristas tinham outra ocupação, o que indica a dependência da categoria em relação aos aplicativos de mobilidade. Em relação ao vínculo com a previdência social, apenas 32% deles afirmaram contribuir para o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) no período. Dezoito por cento tinham nível superior completo.

Duas realidades

O projeto de pesquisa Novas sociabilidades na era digital, desenvolvido no Departamento de Sociologia da UFMG, tem acompanhado um grupo de motoristas de aplicativo em Belo Horizonte e traz mais detalhes dos impactos da pandemia sobre a atividade. O monitoramento mostra que os profissionais entrevistados depararam com duas situações distintas no início na pandemia. Quem dispunha de outras fontes de rendimento ou alguém na família que conseguia manter a renda domiciliar parou imediatamente de trabalhar assim que foram decretadas as medidas de distanciamento social na cidade, na semana do dia 18 de março. Profissionais enquadrados no grupo de risco da doença ou que se sentiram ameaçados pela pandemia também pararam de trabalhar imediatamente. Segundo os pesquisadores, uma entrevistada chegou a relatar que teve várias crises de ansiedade que a impediam de sair de casa. 

Outro grupo de motoristas afirmou que não podia cruzar os braços, pois dependia do trabalho com o aplicativo para sobreviver. Acrescentaram, assim, outra camada de risco ao seu dia a dia, já marcado pelos recorrentes relatos de incerteza financeira e violência.

Ainda segundo o levantamento, os motoristas afirmam que foi necessário trabalhar mais horas para tentar auferir uma renda mais próxima possível do que recebiam antes da pandemia. Os dados mais recentes do acompanhamento dos motoristas, referentes a outubro, revelam que muitos deles voltaram a trabalhar. Os rendimentos ainda dependem dos decretos sobre funcionamento do comércio e assim devem permanecer enquanto durar a pandemia.

“Em síntese, tanto os dados das pesquisas domiciliares como o projeto de pesquisa desenvolvido na UFMG mostram as principais facetas do trabalho digital: sua enorme vulnerabilidade em relação a aspectos conjunturais, vivendo [os profissionais] uma situação em que se sobrepõem diversos níveis de insegurança, tanto em relação aos rendimentos quanto à segurança e, recentemente, quanto aos perigos de adoecimento. A contínua precarização das condições de trabalho que vem ocorrendo ao redor do mundo todo e que tem sido acelerada pelo trabalho em plataformas digitais parece ter ganhado um novo impulso com a pandemia do novo coronavírus”, concluem os pesquisadores. 

Apesar disso, eles observam que o trabalho nas plataformas digitais, impulsionado pelas crises econômicas, continuará atraindo cada vez mais profissionais alijados de outros setores.


UFMG



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