Religião

30/10/2020 | domtotal.com

Na oração, nossa comunhão com os que participam da santidade de Deus

Fazer memória é proclamar que a morte não é a última palavra na vida do ser humano. A Igreja, ao orar pelos mortos, celebra a vida

A morte permanece sempre um mistério profundo. Para o cristão, no entanto, é oportunidade do abraço definitivo com o Pai
A morte permanece sempre um mistério profundo. Para o cristão, no entanto, é oportunidade do abraço definitivo com o Pai (Marquise Kamanke / Unsplash)

Lorena Alves Silveira*

Não é de hoje que o Povo de Deus se refere à santidade como um atributo divino por excelência, sua incomparável dignidade. Unidos aos serafins da visão de Isaías, não cessamos de proclamar "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos, a terra toda está cheia de sua glória" (Is 6, 3). 

Em sua imensa generosidade, o Senhor nos convida constantemente à comunhão com Ele, no desejo de participarmos da plenitude da sua vida santa. "Agora, se realmente ouvirdes minha voz e guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade entre todos os povos; porque toda terra é minha, e vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19, 5-6).

Nas comunidades primitivas os cristãos eram chamados de santos, isso porque o compromisso com Jesus estabelecia a participação na sua vida, na sua santidade. O apóstolo Paulo, por exemplo, dirige algumas de suas cartas aos "santos que moram em Éfeso" (Ef 1, 1), "a todos os santos no Cristo Jesus que estão em Filipos" (Fl 1, 1), "aos irmãos em Cristo, santos e fiéis, que estão em Colossas" (Cl 1, 2). 

Com o passar do tempo, essa palavra foi adquirindo outros significados, e atualmente é muito usada como sinônimo de não ter pecados. A Igreja passou a chamar de santos os que já experimentaram a morte e estão em comunhão mais plena com Deus, não mais suscetíveis às fraquezas humanas. Muitos são canonizados e estão presentes na devoção do nosso povo, como sinal de vida que ilumina a nossa caminhada no seguimento de Jesus. Isso não significa, contudo, que não são reconhecidos os sinais de santidade que já existem em nosso viver.

"Eu sou a videira, vós sois os ramos" (Jo 5, 15), disse Jesus. Isso significa que, além de nos possibilitar a participação na sua vida, o Senhor também mantém os ramos unidos entre si. Por isso, professamos a nossa fé dizendo "creio na comunhão dos santos". 

Quanto mais o cristão se une a Cristo, mais se faz irmão dos demais, se compromete com a vida comunitária, se faz solidário. E essa comunhão entre os membros do Povo de Deus não está limitada aos que estão vivos. Afinal, a ação de Jesus ultrapassa a morte: todos, vivos e mortos, estão na mesma comunhão - comunhão de amor e fidelidade. 

A comunhão dos santos indica que estamos todos imersos na vida de Deus, vivemos em seu amor, fazemos parte da mesma videira. Realidade tão forte e verdadeira, que não é interrompida pela morte, muito pelo contrário. Por ela, nos unimos mais plenamente ao Senhor.

Em razão disso, a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos próxima à Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. São expressões intimamente ligadas. Recordarmo-nos da comunhão com os falecidos através destes dias dedicados à oração por eles. Muito mais do que rezar por almas, é fazer memória de pessoas que "são o testemunho de confiante esperança, enraizada na certeza de que a morte não é a última palavra sobre o destino do ser humano, porque o homem está destinado a uma vida sem limites, que tem a sua raiz e a sua realização em Deus", nos recorda o papa Francisco.

Em toda celebração eucarística rezamos pelos nossos irmãos e irmãs falecidos, mantemos sua memória e, em Cristo, fazemos comunhão com eles e elas. Manter a memória de nossos antepassados é algo muito importante, ainda mais se esta é celebrada na fé. Fazer memória é proclamar que a morte não é a última palavra na vida do ser humano, já que, por ela, mantemos esses irmãos e irmãs vivos em nossas lembranças, orações, afetos. A Igreja, ao orar pelos mortos, celebra a vida.

A oração é uma forma de querer bem. Ao rezar pelos nossos parentes e amigos que já se foram, estamos desejando que vivam na alegria eterna em Deus. Mas não só isso: a oração pode nos levar além. Ela é capaz de nos ensinar a agradecer, dar graças a Deus pelo tempo que vivemos com essas pessoas, mesmo que este tempo tenha sido mais curto do que gostaríamos. 

Através da oração também podemos nos reconciliar com aqueles que morreram, superar situações indigestas, realidades dolorosas, aprender a perdoar, pedir perdão a Deus pelo que eles não fizeram de bom. Além disso, esta oração nos ajuda a ser melhores com aqueles que estão vivos.

O papa Francisco também nos convida a uma oração que não é egoísta, que nos recorda dos pobres, dos oprimidos. Diz ele "rezar com o coração e com os fatos"; fazer memória, fazer comunhão com os mortos sem nome, que morreram pela fome, pela guerra, pobreza, violência. Mortos pela Covid, que se foram repentinamente. Rezar por eles é também olhar para a finitude da nossa existência e assumir um compromisso com a vida. Comprometermo-nos concretamente com o amor, a solidariedade. Não perder tempo, amar!

A morte permanece sempre um mistério profundo. Para o cristão, no entanto, é oportunidade do abraço definitivo com o Pai. Assim, rezamos "?" Deus, fizeste o vosso Filho único vencer a morte e subir ao céu. Concedei a vossos filhos e filhas superar a mortalidade desta vida e contemplar eternamente a vós, Criador e Redentor de todos" (Oração do Dia ?" Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos). Que assim seja!

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Lorena Alves Silveira é graduanda em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Cursa Especialização em Liturgia Cristã, pela mesma Faculdade. Faz parte da equipe de Coordenação do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia, da Arquidiocese de Belo Horizonte



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