Religião

30/10/2020 | domtotal.com

Consolai-vos!

Como Igreja, 'seguimos até o fim' o nosso irmão ou irmã que faleceu, recomendando a Deus sua acolhida e confortando na fé os que choram sua partida

Os ritos fúnebres exercem um crucial papel consolador, de modo especial na liturgia cristã, onde o conforto oferecido pela Palavra de Deus e pelas palavras dos irmãos e irmãs que a ecoam
Os ritos fúnebres exercem um crucial papel consolador, de modo especial na liturgia cristã, onde o conforto oferecido pela Palavra de Deus e pelas palavras dos irmãos e irmãs que a ecoam (Priscilla Du Preez / Unsplash)

Daniel Reis*

A dor infligida pela morte é indizível. Tentar descrevê-la é sempre um esforço insuficiente, incompleto e limitado, pois trata-se de uma experiência complexa: visceral e espiritual, porque rasga o peito, rouba o fôlego e fere a alma. Por mais que seja previsível, em razão de uma enfermidade grave ou idade avançada, ou mesmo pela certeza comum de que um dia ela chegará para todos, a morte sempre é repentina, fato que potencializa a dor integral que ela deflagra.

Para amenizar esta dor, ao longo da história as diversas sociedades e culturas desenvolveram ritos fúnebres, oportunizando a homenagem e o respeito à memória dos falecidos, bem como o exercício da solidariedade e compaixão para com aqueles mais atingidos pela separação abrupta causada pelo óbito de alguém querido. De variadas formas, sóbria ou extravagante, e em diversos climas, de luto ou de festa, fato é que a humanidade sempre encontrou um meio para celebrar a morte.

No cristianismo católico, Exéquias é o nome atribuído aos ritos fúnebres, tendo sido uma expressão apenas transliterada, mas não traduzida, que significa, etimologicamente, "seguir atrás" ou "seguir até o fim". À luz da ressurreição de Jesus, celebramos a morte do cristão como porta de entrada para a Vida Eterna, na esperança de que unidos a Cristo pelo Batismo e suas implicações, com Ele entremos, um dia, na morada de Deus, nosso Pai.

Com a celebração das Exéquias, tomamos a consoladora consciência de que também nós estamos a caminho da eternidade, ou seja, que "seguimos atrás" daqueles que nos precedem no Reino definitivo, para que um dia nos encontremos todos juntos na plenitude da glória divina. 

Como Igreja, "seguimos até o fim" o nosso irmão ou irmã que faleceu, recomendando a Deus sua acolhida e confortando na fé os que choram sua partida. Esta celebração, portanto, mais que um mero evento social ou tradicional, é o lugar para o exercício da compaixão, da misericórdia, da solidariedade e da caridade, traduzidas na consolação para os que sofrem.

Além da liturgia exequial, celebrada nos velórios e cemitérios, em toda missa, memória por excelência da vitória pascal de Jesus sobre a morte, a Igreja recorda os seus filhos e filhas "que morreram na esperança da ressurreição" (cf. Oração Eucarística II). 

De modo especial, no fim do Ano Litúrgico, à data fixa de 2 de novembro, é reservada uma celebração eucarística para a assim denominada Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, onde à luz da Palavra de Deus refletimos sobre o significado da morte cristã e nos imbuímos da esperança na Vida Eterna, o que acaba por nos consolar em relação às nossas angústias existenciais e em relação às nossas dores de saudades por aqueles que lá já se encontram.

Sem menosprezar, mas pelo contrário, respeitando e dando espaço à excruciante dor da morte, os ritos fúnebres exercem um crucial papel consolador, de modo especial na liturgia cristã, onde o conforto oferecido pela Palavra de Deus e pelas palavras dos irmãos e irmãs que a ecoam, faz com que o sofrimento dos enlutados seja amenizado e coloca em prática a belíssima exortação do apóstolo Paulo:

"Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância quanto aos que adormeceram, para que não fiqueis tristes como os outros, que não têm esperança. Com efeito, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos igualmente que Deus, por meio de Jesus, reunirá consigo os que adormeceram. (...) Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras". (1Ts 4, 13-14.18)

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*Daniel Reis é leigo, graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia, pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro e assessor do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).



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