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29/10/2020 | domtotal.com

Virgem Maria, que bela canção!

'Como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar'

A poesia cantada em 'Romaria' é realmente uma oração. A música se tornou o hino dos romeiros de Aparecida do Norte, a capital nacional da fé
A poesia cantada em 'Romaria' é realmente uma oração. A música se tornou o hino dos romeiros de Aparecida do Norte, a capital nacional da fé (Rovena Rosa/ABr)

Afonso Barroso*

Uma das melhores coisas que já vi na televisão, e que me recuso a esquecer, foi a matéria que o veterano repórter José Hamilton Ribeiro fez tendo como tema a música Romaria, de Renato Teixeira. Foi apresentada no programa Globo Rural e pode ser vista no Youtube.  

As composições desse autor paulista que tem cara de Mato Grosso e jeito de Minas são em geral sofisticadas, embora mantendo as raízes caipiras do interior da alma e do país. No caso de Romaria, Renato Teixeira usou a mais pura licença poética e simplesmente criou vocábulos e conceitos. Ninguém sabe ou não sabia, por exemplo, o que é desavento, mas no contexto da música essa palavra tem um significado forte, de desencanto, desalento. O repórter, tão veterano como inteligente, explorou tudo que tinha direito ao entrevistar Renato e colher dele explicações sobre como a poesia e a melodia nasceram e cresceram de forma tão harmônica e fascinante. Tornou-se o hino dos romeiros de Aparecida do Norte, a capital nacional da fé.

A poesia cantada em Romaria é realmente uma oração. Começa na primeira pessoa, o caipira montado num cavalo e falando de si mesmo, "do destino de um só, perdido em pensamentos". Isso é bonito que dói. Fala do sonho de pó, a poeira da estrada. Fala da gibeira, a algibeira do caipira, costurada pra guardar o amargo da vida, "o jiló de uma vida cumprida (ou comprida) a sol", ou sob o sol.

A reportagem lembra Taubaté, a terra de Renato e de Monteiro Lobato. Fala de Pirapora do Bom Jesus, cidadezinha do interiorzão de São Paulo, lugar também carregado de religiosidade. E entra aí uma espécie de aliteração: "Sou caipira Pirapora Nossa Senhora de Aparecida". As palavras aí se encadeiam e se misturam, deslocando-se de Pirapora até o santuário de Aparecida do Norte, onde Nossa Senhora espera os romeiros caipiras e devotos.

E Renato vai explicando ao curioso repórter o significado das expressões que usa na letra da música, como "o meu pai foi peão, minha mãe solidão", para contar que o verso encarna o roceiro que sai para o trabalho e deixa a mulher sozinha, encarregada de cuidar dos filhos e da casa, cozinhar, lavar e passar. Em outro verso, usa inspiração bem mineira quando diz "Ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida". A mina é de Minas Gerais, assim como o trem, que tanto pode ser a locomotiva com seus vagões ou uma coisa qualquer, de acordo com o dialeto mineirês.

Na reportagem, Renato é levado até Aparecida, onde canta com a multidão de romeiros. Todos sabem os versos de Romaria. E no final explica como terminou a letra: "Como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar". Conta que não achou uma expressão para concluir o último verso e resolveu repetir três vezes meu olhar. Afinal, o que o romeiro mais usa como oração silenciosa é o olhar de súplica que dirige a Nossa Senhora quando faz os seus pedidos e agradecimentos. O olhar diz mais do que qualquer coisa, explica Renato.

A reportagem termina num encontro emocionante de Renato Teixeira com Maria Rita, que canta com ele a música levada ao sucesso e à fama na voz da mãe Elis Regina.

Com mais de cem gravações, cantada pelos mais diferentes intérpretes, Romaria é uma das mais belas canções da música brasileira. E tem uma história adornada pela mais pura poesia que a música popular pode conter e cantar.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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