Coronavírus

30/10/2020 | domtotal.com

Pesquisa descobre nova variante do coronavírus que se espalha rapidamente pela Europa

Medidas de controle e contenção do patógeno em fronteiras não estão sendo suficientes para barrar uma nova disseminação da covid-19

Não se sabe se nova variante pode estar associada à rapidez atual de disseminação da doença.
Não se sabe se nova variante pode estar associada à rapidez atual de disseminação da doença. Foto (Vincenzo Pinto/AFP)
Ursula Von Der Leyen e Charles Michel participam de entrevista coletiva em Bruxelas após a reunião
Ursula Von Der Leyen e Charles Michel participam de entrevista coletiva em Bruxelas após a reunião Foto (Olivier Hoslet/AFP)

Cientistas europeus descobriram uma nova variante do SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19, que vem se espalhando rapidamente pela Europa desde junho e já é responsável pela maioria dos casos observados na segunda onda de infecções em alguns países do continente.

Um estudo feito por pesquisadores das Universidades de Basel (Suíça) e de Valência (Espanha) e divulgado na quarta-feira (28), na plataforma MedRxiv, revela que a variante foi originalmente identificada em junho no país ibérico, passando, no mês seguinte a representar 40% de todos os casos na Espanha. Hoje, ela já é responsável por 80% dos registros em território espanhol. A disseminação teria se iniciado em um evento de agricultores no nordeste espanhol.

Nos outros países europeus, a nova variante, batizada de 20A.EU1, representava, em setembro, de 40% a 70% de todas as infecções registradas na Suíça, Irlanda e Reino Unido. Ela também era prevalente na Noruega, Holanda, França e Letônia. A nova sequência do vírus já foi identificada em 12 nações europeias, além de Hong Kong e Nova Zelândia.

Os pesquisadores ressaltam que uma das mutações encontradas no material genético da nova variante do vírus que o diferencia das versões anteriores ocorre na proteína spike, usada pelo patógeno para invadir as células humanas. Apesar disso, ainda não se sabe se essa característica torna a nova variante mais transmissível do que as demais nem se a mutação pode estar associada à rapidez atual de disseminação da doença.

“Não está claro se esta variante está se espalhando por causa de uma vantagem de transmissão do vírus ou se a alta incidência na Espanha seguida de disseminação por meio de turistas é suficiente para explicar o rápido aumento em vários países”, destacam os autores no artigo.

Os cientistas alertam que, embora não haja ainda detalhes sobre maior risco associado à variante, é preciso avaliar se medidas de controle e contenção do patógeno em fronteiras estão sendo suficientes para barrar uma nova disseminação da covid. Eles acreditam que a propagação do vírus está associada ao afrouxamento das medidas de distanciamento social e de controle de entrada de visitantes. “Apesar de não haver evidências que essa variante seja mais perigosa, sua disseminação pode fornecer informações sobre a eficácia de políticas de viagens adotadas pelos países europeus durante o verão”, afirma comunicado da Universidade de Basel sobre o estudo.

Repercussão

A microbiologista Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, afirma que a pesquisa demonstra a necessidade de acompanhamento de possíveis mutações do novo coronavírus, mas destaca que ainda há mais lacunas do que respostas sobre a ação de diferentes variantes.

“Para ter certeza de que tem maior transmissibilidade ou qualquer impacto clínico, seriam necessários estudos mais detalhados. Por enquanto, o que o trabalho mostra, e muito bem, é a necessidade de um sistema de monitoramento e sequenciamento para acompanharmos a evolução do vírus. Mas não tem como concluir ainda se as mutações observadas estão relacionadas com maior transmissão ou sintomas”, diz.

Para o infectologista Celso Granato, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor médico do Grupo Fleury, os dados do estudo ainda não permitem concluir se a predominância de uma nova variante em alguns países pode afetar em diagnóstico, tratamento ou até em vacinas que estão sendo desenvolvidas contra a doença.

“É um alerta importante, mas ainda não temos essas respostas. Pode ser que essa variante seja responsável pelo aumento rápido de casos visto agora, mas pode ser que seja mais uma questão epidemiológica”, afirma ele, referindo-se à possibilidade de o vírus estar se propagando com mais velocidade por causa do fim das quarentenas na maioria dos países durante o verão europeu.

220 milhões de euros

A União Europeia irá destinar um pacote no valor de 220 milhões de euros (quase R$ 1,5 bilhão) para o traslado de pacientes com Covid-19 entre países do bloco, anunciou nesta quinta-feira a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O anúncio foi feito após uma videoconferência informal com os líderes dos 27 países membros da UE para discutir a resposta do bloco à segunda onda da pandemia. A medida visa a reduzir a pressão sobre os sistemas hospitalares mais saturados.

Segundo Ursula, para facilitar os traslados, os países membros da UE deverão aumentar os níveis de troca de dados "exatos e em tempo real", para permitir uma "coordenação mais eficaz" das operações. Embora os países do bloco e seus sistemas hospitalares tenham a experiência do ocorrido em março e abril, a segunda onda da doença atingiu com força os europeus.

A chefe de governo alemã, Angela Merkel, afirmou aos outros líderes que "um enfoque europeu coordenado é de grande importância para combater a pandemia. Especialmente para a Alemanha, como país localizado no centro da Europa, é importante que as fronteiras permaneçam abertas, que haja um ciclo econômico que funcione e que lutemos juntos contra a pandemia."

Ursula Von der Leyen, que também é epidemiologista, indicou que a realização em massa de testes seria fundamental para superar a crise, e pediu aos países da UE que adotem padrões conjuntos para os testes rápidos.

A intenção de Ursula e do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, é que a videoconferência de países líderes se torne um fórum regular de consultas, para que as nações europeias coordenem sua resposta nos próximos meses.


AFP



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