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31/10/2020 | domtotal.com

Humor e diálogos literários

Em 'Cem encontros ilustrados', Dirce Waltrick traz erudição à piada

A professora, escritora e tradutora Dirce Waltrick do Amarante criar surpresas ao leitor em seus contos
A professora, escritora e tradutora Dirce Waltrick do Amarante criar surpresas ao leitor em seus contos (Angela Amarante/Divulgação)

Jacques Fux*

Em seu texto "Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante", do livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, David Foster Wallace nos fala sobre bons contos: "Porque os bons contos e as boas piadas têm obviamente muita coisa em comum. Ambos dependem de algo que os teóricos da comunicação às vezes chamam de exformação, que é uma certa quantidade de informação imprescindível omitida, porém evocada na comunicação de modo a provocar uma espécie de explosão de conexões associativas no receptor".

"Deve ser por isso que o efeito tanto dos contos quanto das piadas muitas vezes parece repentino e percussivo, como a abertura de uma válvula emperrada há muito tempo. Não foi de graça que Kafka se referiu à literatura como "uma machadinha com a qual rachamos os mares congelados dentro de nós". Tampouco é acidente que o êxito técnico de um grande conto seja muitas vezes chamado de compressão - pois tanto a pressão quanto a liberação já se encontram dentro do leitor. O que Kafka parece ser capaz de fazer melhor do que praticamente qualquer outro é orquestrar o aumento dessa pressão de modo que ela se torne intolerável no instante preciso em que é liberada."

Um bom conto, assim como uma boa piada, não pode e não deve ser explicado - spoilers não são definitivamente bem-vindos. Porém, e se o leitor não estiver familiarizado com a brincadeira do texto, sobretudo nesse momento contemporâneo brasileiro em que as trevas e a ignorância política, antivacinal e pandêmica estão em alta?

Em certa escala e em um outro momento histórico, essa foi a crítica que Foster Wallace fez a alguns de seus alunos, nesse mesmo texto citado: "E é isso, acredito, que torna a espirituosidade de Kafka inacessível a jovens que nossa cultura treinou para ver piadas como entretenimento e entretenimento como conforto". Essa é a proposta-convite do belíssimo livro de Dirce Waltrick do Amarante: nos convidar a navegar pelas piadas, chistes e humor de uma literatura séria, robusta, porém com leveza e alegria.

Cem encontros ilustrados é um livro de contos em que a escritora, professora e tradutora (de ninguém menos que Gertrude Stein, ao lado da também magistral e originalíssima escritora Luci Collin) nos presenteia em tempos tão sombrios. Sua piada ou graça é infinita (brincando com as traduções do Foster Wallace para o brasileiro e "portugalês"): "Não conheci James Joyce pessoalmente, mas conheci sua filha Lucia. Ela era ainda jovem e fui visitá-la num sanatório perto de Londres. Ela estava deitada, com os olhos abertos, olhando o teto: 'I have never seen a star in the sky', ela disse, 'Do you know why? No clouds but no stars as well' (o inglês dela não era muito bom, nem o meu, pelo menos foi o que a minha amiga Luci me disse). 'É assim mesmo', eu disse. Ela ficou em silêncio e aproveitei para me apresentar como estudiosa e tradutora da obra do seu pai. Na verdade, o que eu queria é que ela me contasse dos anos de Finnegans wake. Mal terminei de dizer wake, ela berrou: 'That crazy book! I have nothing to do with that! Nothing!'."

Dirce, a narradora, nos dá as mãos e nos leva para um jogo de citações, momentos, encontros e piadas infinitas. Ela divide quarto com Sylvia Plath - e tem seu poema roubado por ela; entrevista a Virgínia Woolf, deixando-a sem palavras, que viriam a aparecer apenas, anos depois, em um de seus contos; viaja para a Rússia para ministrar uma oficina literária e tem um aluno bastante pragmático e borgeano, brinca com Beckett, Céline, Roussel, Edgar Allan Poe, Carroll, Joyce, Musil, Kafka e até tem a orelha do seu livro escrita por Mary Shelley.

Dirce, autora, nos mostra e nos prova que literatura de qualidade pode ser também descompromissada, apolítica e sem lugar de fala e falo. Ela nos convida a sorrir. A passear pelos bosques das ficções conhecendo a intimidade fictícia dos autores e textos, e criando uma rede hipertextual borgeana de livros, tratados e vestígios de outras épocas, palavras e momentos.

Para tanto, para sermos capazes de alcançarmos essa exformação que Foster Wallace nos fala, e assim aproveitar e desfrutar todos os chistes e invenções, temos que conhecer cada vez mais. Dirce nos convida a não nos confortarmos com essas trevas e ignorância as quais estamos sendo assolados. A literatura, sim, salva - e não somente a engajada, hermética e política.   

CEM ENCONTROS ILUSTRADOS
De Dirce Waltrick do Amarante
Iluminuras
96 páginas
R$ 38 (livro) e R$ 19 (e-book)


Dom Total

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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