Cultura

03/11/2020 | domtotal.com

Sessão aberta no Ibirapuera encerra a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Cineastra Abel Ferrara apresenta dois filmes na Mostra: 'Siberia' e 'Sportin' life'

Área externa do Auditório Ibirapuera durante a sessão ao ar livre do filme 'Ladrões de cinema', de Fernando Coni Campos
Área externa do Auditório Ibirapuera durante a sessão ao ar livre do filme 'Ladrões de cinema', de Fernando Coni Campos (Mario Miranda Filho/Agência Foto)

A 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo termina nesta quarta-feira (4) com uma sessão presencial no Parque do Ibirapuera. Serão anunciados os vencedores dos prêmios do júri oficial, do público e da crítica. Como sempre haverá a repescagem e, portanto, o cinéfilo disporá de mais alguns dias para assistir a títulos que marcaram a edição.

Nesse ano tão atípico, por causa da pandemia, a Mostra foi quase toda remota. O cinema brasileiro cravou quatro filmes, mais duas coproduções internacionais, na seleção do público que pautará a escolha do júri. Está chegando a hora de saber quem levará o troféu Bandeira Paulista de 2020.

Beto Brant e Renato Ciasca produzem e César Meneghetti dirige o documentário Glauber, claro. O filme evoca os anos em que Glauber Rocha (1939-1981) viveu na Itália, entre 1970 e 76. Em 1975, ele apresentou seu penúltimo filme, Claro. Depois disso, ainda fez A idade da terra e indignou-se quando o filme perdeu o Leão de Ouro em Veneza.

Glauber, claro é 10. Não apenas ilustra o método de Glauber por meio de atores e técnicos que participaram daquela filmagem, como ilumina o próprio cinema italiano da época. Marco Bellocchio, Pier Paolo Pasolini (assassinado em 1975), Bernardo Bertolucci, Carmelo Bene. É toda uma época que aparece na tela, recriando um momento em que a política dava as cartas no cinema de autor e artistas como Glauber usavam a câmera para contestar o imperialismo.

Os anos libertários. Sexo, drogas. Um ator conta que o que menos importava era o filme. O que valia era a experiência, todos na mesma pegada de crítica ao poder econômico e política.

Abel Ferrara em dose dupla

Abel Ferrara conversa com a reportagem pelo telefone, de Roma. O repórter lembra antigas entrevistas – em Cannes e Veneza – quando ele, do nada, levantava e corria ao banheiro, do qual voltava acelerado. "Se as drogas e a bebida não me destruíram, não há de ser esse vírus que vai me matar." Agora pai de família consciente, ele segue todos os protocolos de segurança numa Itália novamente assolada pelo coronavírus. "Uso máscara, lavo as mãos. Estou me cuidando – o problema são os outros. O confinamento dói. Não nasci para viver isolado. Música, cinema, tudo o que gosto fica melhor com interação."

Ferrara, aos 69 anos, integra o grupo de risco. Quer saber se o repórter também está se cuidando. Ele apresenta dois filmes na 44ª Mostra de Cinema. Em fevereiro, levou Siberia ao Festival de Berlim – sua nova parceria com Willem Dafoe. E foi lá que começou a nascer o outro longa na programação da Mostra – Sportin' life. Um diário da Covid, Ferrara e seus amigos músicos o amigo Dafoe, a lembrança dos filmes. O que é o cinema, afinal? Para Ferrara, sempre foi comprometimento. Ele não filma por filmar. Tem de ter motivação. Anos atrás fez outro diário, Alive in France. Tem se dado bem na Europa. "Aqui eles têm uma consciência mais aguda do cinema como arte. Na América você vale pelo seu último filme. Se fez sucesso, tudo bem. Se não, todo mundo te rejeita."

Siberia é a sexta colaboração de Ferrara com Dafoe em mais de 20 anos. "Ele não é um ator tradicional. Veio do teatro experimental, está sempre pronto para ousar, e surpreender. É um daqueles atores que sempre conseguem surpreender a gente." Dafoe faz um norte-americano exilado na paisagem gelada da Sibéria. Tem um bar, atende no balcão. O filme viaja na cabeça desse homem. Ao mesmo tempo, Siberia é um filme de paisagem. "Sim, a neve é personagem", concorda ele. Dafoe – o personagem V é atormentado por seus fracassos. Tem uma cena forte de sexo que deflagra a mágoa de um antigo casamento. O filme tem ataque de urso, cães que puxam trenós. Caninos Brancos? Ferrara conseguiu fazer o seu Jack London.

"Não pensava dessa maneira, mas li muito Jack London e ele estava em algum lugar adormecido no meu inconsciente. A paisagem trouxe-o de volta." Não só a paisagem, a própria rudeza do relato. Como autor de histórias muitas vezes violentas, Ferrara sempre questionou códigos de gêneros. Masculinidade, virilidade. Gângsteres, policiais, muitos críticos consideram Ferrara um Martin Scorsese mais selvagem. Seus (anti)heróis vivem na desordem social, no limite da autodestruição, mas buscando a redenção – como o próprio Ferrara? "Não sei como consegui sobreviver a tanta loucura. É um milagre. E quando você fica velho ganha respeito pelo simples fato de haver sobrevivido", reflete.

Nova-iorquino do Bronx, Ferrara mudou-se para a Itália após o 11 de Setembro. Numa entrevista anterior, em Cannes, já revelara para o repórter sua atração pelo budismo. Não era bem uma conversão. "Esses caras, Cristo, Buda, Maomé, tinham só a palavra e com ela mudaram o mundo."

Sportin’ life começou a nascer em Berlim, em fevereiro, e estreou no Festival de Veneza em setembro. Um diário em vídeo. Meses na vida de Ferrara – no mundo pré e pós-Covid. Ele filma a mulher (Cristina), a filha (Anna), os amigos (Dafoe e Joe Delia).

Conversam, cantam, evocam filmes como The addiction e Pasolini, mas o mundo invade as imagens e Ferrara integra o caso George Floyd e o Black Lives Matter. Muita coisa ocorreu nesse ano atípico. "Os EUA ficaram impossíveis para se viver sob Trump", diz. Contra essa (des)ordem, Ferrara segue filmando.


Agência Estado



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