Religião

04/11/2020 | domtotal.com

Jesuítas do Brasil se somam a campanha por padre preso na defesa de indígenas

Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental publica carta de apoio a padre Stan, perseguido por seu apostolado

Padre Stan Swamy é perseguido por sua defesa dos direitos humanos e direitos indígenas
Padre Stan Swamy é perseguido por sua defesa dos direitos humanos e direitos indígenas (Reprodução)

Gilmar Pereira

A Companhia de Jesus, ordem dos padres e irmãos jesuítas, tem se mobilizado em todo o mundo pela libertação de um dos seus membros, o padre Stan Swamy (83), preso no dia 8 de outubro por sua defesa dos povos indígenas e dos direitos humanos. A Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil se soma à campanha internacional por sua soltura.

Autoridades indianas alegam que o padre teria participado da comemoração da batalha de Koregaon Bhima e que teria ligação com grupos maoístas. A manifestação em questão, ocorrida em 31 de dezembro de 2017, celebra um marco na história dos dalits (intocáveis), grupo social marginalizado na Índia, quando há 200 anos venceram o grupo dominante dos brahmanes. A iniciativa de organizações que apoiam os dalits reuniu cerca de 35 mil pessoas, mas vários grupos extremistas hindus entenderam-na como provocação, o que gerou violência, resultando em um morto, vários feridos e diversas pessoas presas.

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O padre Stan nega ter estado na manifestação, bem como ligações a grupos maoístas. Ele se considera perseguido por suas críticas às várias políticas do governo e por sua luta em favor dos adivasis pelo direito à terra. Sua atuação junto a grupos marginalizados já soma mais de 50 anos, registrando abusos de poder. A gota d'água para o governo foi uma ação pública apresentada por Stan contra o Estado em nome de três mil indígenas adivasis presos.

Jesuítas do mundo todo têm manifestado seu apoio ao padre Stan como campanha a fim de pressionar o primeiro ministro indiano, Narendra Modi, pela sua libertação. Modi é conhecido pela sua proximidade a radicais hindus. A ação dos jesuítas é coerente com sua missão de "serviço da fé e promoção da justiça" e reflete sua atuação no mundo todo.

"Para nós, o padre Stan Swamy é, sem dúvida, um exemplo de fidelidade radical à grande causa da defesa e proteção dos direitos indígenas ao redor do mundo", diz um nota da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil, publicada através do seu Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (Olma), que também se soma a campanha internacional.

A entidade, que conglomera inúmeras instituições jesuítas, entende que a defesa do padre Stan é simbólica, pois guarda semelhanças com a realidade brasileira. "A defesa dos povos originários também é uma das áreas temáticas de atenção de nossa Rede de Justiça Socioambiental. E também no Brasil, aqueles que se propõe a defender os direitos dos povos, por vezes, são vítima de perseguições e ameaças. São os povos tradicionais da Amazônia e demais regiões do país que, historicamente reduzidos a um número muito pequeno de sobreviventes, os 256 povos indígenas do Brasil, representando 160 línguas, têm grande consciência da importância do apoio internacional", diz a nota.

Dois dias antes de sua prisão, em um vídeo, padre Stan falou das razões da perseguição pela qual passa. "O que está acontecendo comigo não é um caso isolado. Todos temos consciência de que muitos ativistas, advogados, escritores, jornalistas, líderes estudantis, poetas, intelectuais e outros, que defendem os direitos dos adivasis, dos dalits e dos marginalizados e expressam a sua discordância com as autoridades políticas do país, estão debaixo de mira e sendo colocados na prisão".

Uma petição online pela libertação do padre já recolhe milhares de assinaturas. Por iniciativa da Conferência Jesuíta da Ásia do Sul, foi realizado no dia 12 de outubro, um dia nacional de solidariedade por Stan. Outras ações ainda estão previstas como forma de manifestação e oração em diversas partes do mundo.

Leia a íntegra a carta do Olma:

Carta de solidariedade para com o padre Stan Swamy, um símbolo indiano dos jesuítas comprometidos com a causa dos povos indígenas ao redor do mundo

Declaração do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida – Olma, Província dos Jesuítas do Brasil.

A Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil, através do Olma, manifesta-se declarando sua total solidariedade ao padre Stan Swamy, padre jesuíta indiano de 83 anos, pertencente à Província Jesuíta de Jamshedpur, por tudo que vem sofrendo de perseguições e prisão devido a sua fidelidade ao compromisso na defesa e proteção dos direitos humanos do povo indiano.

Para nós, o padre Stan Swamy é, sem dúvida, um exemplo de fidelidade radical à grande causa da defesa e proteção dos direitos indígenas ao redor do mundo. Agradecemos em particular pelo seu testemunho e profético estímulo a todas as pessoas, homens e mulheres, jesuítas e demais colaboradores que hoje se encontram empenhados neste grande serviço evangélico pela dignidade humana.

A defesa dos povos originários também é uma das áreas temáticas de atenção de nossa Rede de Justiça Socioambiental. E também no Brasil,  aqueles que se propõe a defender os direitos dos povos, por vezes, são vítima de perseguições e ameaças. São os povos tradicionais da Amazônia e demais regiões do país que, historicamente reduzidos a um número muito pequeno de sobreviventes, os 256 povos indígenas do Brasil, representando 160 línguas, têm grande consciência da importância do apoio internacional.

Assim, entendemos a importância de juntar a nossa voz à voz destes povos e, também, de todos as pessoas, homens e mulheres, jesuítas e outros que colaborem no serviço profético desta grande causa na defesa e proteção dos direitos e da dignidade dos povos indígenas (os adivasis, na Índia).

Do Brasil, solicitamos que o padre Stan Swamy possa viver sua plena liberdade em segurança e que o primeiro ministro Narendra Modi seja sensibilizado com as justas declarações e justificativas afirmadas por inúmeros organismos nacionais e internacionais de direitos humanos, considerando as circunstâncias atuais globais em face da pandemia Covid-19, a idade e o estado de saúde dele. Ao mesmo tempo, agradecemos-lhe o seu importante testemunho de vida e missão.

A humanidade precisa de cada vez mais pessoas como o padre Stan Swamy SJ.

Brasil, Brasília – DF, 03 de novembro de 2020

Por Olma assinam:

  • Centro Alternativo de Cultura de Belém do Pará (CAC)
  • Centro Burnier Fé e Justiça (CJB)
  • Centro Cultural de Brasília (CCB)
  • Centro de Estudos e Ação Social de Salvador (CEAS)
  • Centro de Promoção de Agentes de Transformação (CEPAT)
  • Centro MAGIS Amazônia
  • Escola Superior de Direito Dom Helder Câmara (ESDDHC)
  • Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
  • Fundação Fé e Alegria Brasil (FyA)
  • Instituto Humanitas da Universidade Católica de Pernambuco (Humanitas – UNICAP)
  • Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Católica de Pernambuco (NEABI-UNICAP)
  • Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (NEABI-UNISINOS)
  • Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (NIMA- PUC Rio).
  • Observatório do Vale do Rio dos Sinos – Instituto Humanitas (Observa Sinos-UNISINOS)
  • Observatório Transdisciplinar das Religiões de Recife
  • Preferência Apostólica Amazônia (PAAM)
  • Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES)
  • Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR)
  • Serviço Jesuíta Panamazônico (SJPAM)


Sete Margens/ Dom Total/ Olma



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