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06/11/2020 | domtotal.com

Com vocês, Camilleri

Um grande autor ainda desconhecido no Brasil

Cena da 12ª temporada de 'Il commissario Montalbano', com Luca Zingaretti no papel principal
Cena da 12ª temporada de 'Il commissario Montalbano', com Luca Zingaretti no papel principal (Divulgação/ RAI)

Fernando Fabbrini*

Se você gosta de mistérios, investigações, crimes e artimanhas mirabolantes, ponha Andrea Camilleri na sua lista de livros. Falecido ano passado, aos 93 anos, ele construiu a jornada de um dos mais importantes romancistas italianos da atualidade. Tão bom o autor que foram criadas várias páginas nas redes sociais onde seus fãs, como eu, trocam impressões sobre as aventuras do comissário Salvo Montalbano, o personagem mais famoso de seus romances.

Montalbano é realmente uma figura. Trata-se de um policial informal e brilhante, um tanto mal-humorado, e que comanda uma equipe atrapalhada numa pequena cidade fictícia da Sicília, de nome Vigàta. Lá acontece de tudo – roubos, crimes passionais, sequestros, assassinatos, confusões com a máfia. O comissário é solteirão, sistemático, cheio de manias, cometendo barbeiragens ao volante de um Fiat Tipo caindo aos pedaços. Tem medo da velhice, da aposentadoria e odeia a burocracia à qual é submetido pelos seus superiores – gente insuportável.

Salvo tem um grande amor; Lívia; bela, sensual – e temperamental como ele. Cada um mora em sua própria casa, em cidades vizinhas, e sonham se casar. Mas têm medo da rotina e das prováveis brigas, já que os humores de ambos são bem italianos: apaixonados, independentes e imprevisíveis. Os episódios de Lívia e Salvo "discutindo a relação" são geniais; mostram o talento de Camilleri se divertindo com as sutilezas das almas masculinas e femininas dos dias de hoje. 

Quando fica de saco cheio – dos chefes, dos bandidos, da máfia, das politicagens e até de Lívia – Salvo Montalbano compensa os aborrecimentos à mesa, curtindo pratos maravilhosos do sul da Itália tão bem descritos por Camilleri, que era um glutão. O comissário também tem o hábito de nadar pelado à noite, na praia defronte à sua casa, para relaxar. As aventuras de Montalbano e sua equipe fizeram tanto sucesso que viraram série de TV.

Para quem quiser curtir as peripécias do comissário, sugiro alguns títulos publicados no Brasil: A paciência da aranha, A forma da água, O medo de Montalbano, Guinada na vida, O ladrão de merendas, Excursão a Tíndari, A voz do violino, Lua de papel, Um mês com Montalbano.

Andrea Camilleri também era um frasista extraordinário, com tiradas espirituosas que provocavam risadas de seus interlocutores. Dono de um coração cheio de ternura e romantismo, não disfarçava, entretanto, um impiedoso sarcasmo. Sobre seu sucesso literário, era modesto: "escrevo apenas para devolver às pessoas um pouco de tudo aquilo que já li e que aprendi na vida."

Antes de partir, isolado em sua casa em Santa Fiora, cidadezinha toscana da província de Grosseto (onde também se situa Pitigliano, terra dos Fabbrinis), publicou uma bela reflexão sobre a vida que chegava ao fim. Separei este trecho: "quando a gente nasce, recebe um carnê com tudo: a beleza da juventude, os prazeres, as habilidades, as dores, as doenças, a velhice e a morte. Não podemos recusar nada, está tudo incluído no carnê; vamos gastando os tickets um a um, até acabar. Ou aceitamos essa condição da vida com serenidade ou viramos uns coglione (algo próximo ao nosso "babaca").

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo'

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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