Mundo

11/11/2020 | domtotal.com

Políticas delirantes

O possível vira provável e o provável vira certeza, na ótica fanática dos adeptos da realidade paralela

Aqui no nosso Brasil temos a cópia mais ou menos fiel de Trump na figura do ex-militar Jair Bolsonaro, que vive numa realidade paralela delirante dos anos 60, com uma política econômica dos anos 80
Aqui no nosso Brasil temos a cópia mais ou menos fiel de Trump na figura do ex-militar Jair Bolsonaro, que vive numa realidade paralela delirante dos anos 60, com uma política econômica dos anos 80 (Alan Santos/PR)

Reinaldo Lobo*

Uma grande parte da humanidade respira aliviada com a derrota de Donald Trump. Os negros norte-americanos, por exemplo, acreditam poder sair às ruas hoje sem tanto medo de um policial apertar-lhes o pescoço e sufocá-los até à morte. No mundo todo, houve festas e comemorações com champanhe pela queda de um governante proto-fascista que estava à frente da maior máquina de guerra do planeta.

Por que tanto medo de Trump? A resposta não se resume às suas opiniões radicais de ultradireita, mas também se refere ao fato de que ele criou, via fake news e twitter, uma espantosa realidade paralela, fruto de suas paranoias, racismo de "supremacista branco" e seus vários delírios.

Agora, é como se a realidade tivesse mudado. E mudou mesmo. A segunda realidade criada por ele através das redes sociais e até declarações públicas colocava o mundo em estado de alerta diante de uma China monstruosa e agressiva disposta a destruir o "american way of life", de uma Coréia do Norte pronta para disparar mísseis nucleares sobre o Arkansas, de uma América Latina a corroer a pureza racial dos EUA e a lotar de imigrantes as fronteiras da América.

Pela realidade virtual de Trump haveria uma nova Guerra Fria, desta vez com a China, e seria preciso uma política de "detènte" antes da ação bélica, vista quase como inevitável no futuro.

Durante a Guerra Fria EUAxURSS no passado ainda recente, o editor C.L. Sulzberger, do The New York Times, escreveu um artigo interessante sobre a paranoia e o medo de um ataque russo que tomavam conta dos EUA. Nele, descreveu a diferença entre realismo e paranoia política. Os realistas, dizia, achavam POSSÍVEL um confronto militar entre russos e norte-americanos. Os paranoicos julgavam PROVÁVEL e os muito perseguidos viam como CERTO e necessário um conflito nuclear em escala mundial.

Hoje, não seria difícil classificar como paranoides Trump e alguns congêneres no mundo, como Bolsonaro, mas o elemento mais preocupante é o clima catastrofista que criam com suas realidades paralelas. Uma grande parte da população norte-americana votou em Trump e alguns analistas dizem que ele só não ganhou por duas razões: a sua atitude negacionista diante do Covid-19 e os negros, que despejaram maciçamente seus votos na chapa Biden-Kalama Harris.

Seja qual for a razão, é verdade que Trump bateu na trave. Isso é resultado do universo delirante que determina o comportamento de boa parte da classe média branca norte-americana. O fantasma do comunismo – regime que não vigora mais no mundo como algo efetivo – ainda empolga o eleitorado dos EUA, como se ainda fosse um perigo real e imediato.

A propaganda da campanha de Trump acenava com o "perigo comunista" de... Biden e, mais ainda de Kalama Harris, negra que seria a herdeira de Barack Obama, esse perigoso comunista que queria instalar um SUS na saúde pública norte-americana e pretendia favorecer a população pobre cobrando impostos dos 1% mais ricos da sociedade.

O possível vira provável e o provável vira certeza, na ótica fanática dos adeptos da realidade paralela.

Esquecem que a China é um dos países mais capitalistas do mundo, que Barack Obama só tem a cor da pele e um nome engraçado em comum com a deputada conservadora Kalama Harris, e que que a Coréia do Norte deixou de ser ameaça quando o próprio Trump foi até lá a convite de Kim Jong-Un e deu-lhe um "cala a boca" de alguns milhões de dólares. Descobriu-se que a Coréia do Norte é um tigre de papel moeda. 

Aqui no nosso Brasil temos a cópia mais ou menos fiel de Trump na figura do ex-militar Jair Bolsonaro, que vive numa realidade paralela delirante dos anos 60, com uma política econômica dos anos 80 (a mesma aplicada por Pinochet no Chile e Margareth Thatcher na Inglaterra).

Sua ojeriza ao comunismo é meio falsa, já que sabe há muito tempo que o comunismo acabou, mas faz questão de apregoar que há uma guerra contra o "marxismo cultural" que impregnaria o cancioneiro popular desde a "bossa nova", assim como as artes e a cultura em geral. Discípulo de um pseudo-filósofo, inimigo do currículo Lattes e da USP – o astrólogo delirante Olavo de Carvalho, que ouviu falar em Gramsci e não entendeu –, nosso capitão das Fake News, do genocídio e da negação da pandemia criou uma clima de urgência e temor na sociedade brasileira que será difícil de curar.

Até está deixando herdeiros mais palatáveis pelo sistema, como um seu ex-aliado, Sérgio Moro, e um populista de televisão, Luciano Huck, agora com o timbre do velho e quase extinto PSDB.

Muitos têm a esperança de defenestrar Bolsonaro nas próximas eleições presidenciais, mas o clima de realidade paralela criado por ele permanece, talvez até dando vitória a um desses herdeiros de "centro", cujas políticas econômicas seriam as mesmas, a entrega da soberania nacional seria a mesma e a luta "contra corrupção" seria a mesma, pautada, então, pela Rede Globo.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!