Religião

13/11/2020 | domtotal.com

A mesa eucarística como marco da hospitalidade

A meta da mesa, a partir da hospitalidade, é a comunhão na diversidade

No episódio dos dois discípulos a caminho de Emaús, Jesus também se manifesta como um peregrino a ser acolhido
No episódio dos dois discípulos a caminho de Emaús, Jesus também se manifesta como um peregrino a ser acolhido (Free Bible Images/Lumo Project)

César Thiago do Carmo Alves*

Na perícope dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35) acontece a hospitalidade do caminho, da Palavra e da refeição. Na triste caminhada que os discípulos percorriam em direção à Emaús, ocorre o encontro com o Senhor. O Viajante aproximou-se e percorreu o caminho com os dois discípulos que estavam carregados de tristeza e desânimo. Jesus, ao explicar a Palavra, foi despertando neles a esperança. Ao longo do caminho, diante das amargas desilusões, o Mestre se faz nosso companheiro para melhor compreensão dos desígnios de Deus. A viagem se tornou mais leve e plena de significado. Jesus explica as Sagradas Escrituras, eles convidam o Mestre para se hospedar em sua casa, e, é no partir o pão, que os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem o Ressuscitado. Cinco momentos são relevantes: 1) Jesus caminha com os discípulos; 2) explica as Sagradas Escrituras; 3) hospitalidade 4) parte o pão; e 5) os discípulos são tomados de coragem para voltar à Jerusalém e anunciar que estiveram com o Senhor no caminho para Emaús.

Leia também:

O texto de Emaús é, indubitavelmente, um ícone para poder se refletir a respeito da mesa cristã como marco da hospitalidade, sinal eucarístico. A mesa é o lugar da partilha e do convívio. Estar juntos nela significa, em última análise, acolher a outra pessoa como irmã. É reconhecer que tudo está interligado. Ninguém pode e deve ficar fora da mesa. Por outro lado, nenhum cristão tem o direito de excluir um irmão ou uma irmã dela. Todos são chamados para participar escatologicamente do banquete do Cordeiro. O Senhor acolhe cada pessoa na sua singularidade e individualidade. Não faz acepção de pessoas. Quer que todos estejam irmanados na fraternidade/sororidade universal.

Se a mesa cristã eucarística é marco da hospitalidade, como podemos pensar a questão da chamada hospitalidade eucarística que está sendo levantada na Alemanha, que consiste na participação recíproca na celebração eucarística/ceia entre católicos e protestantes? Os bispos alemães têm levado a sério essa ideia. Infelizmente, de forma pouco refletida, sem estabelecer muito debate a respeito do assunto com o episcopado alemão e também com os luteranos, a Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo Ladaria, de imediato se opôs a essa possibilidade. Desse modo, não avançou e tão pouco levou até às últimas consequências o que o Concílio Vaticano II (1962-1965) orientou em relação ao ecumenismo no decreto Unitatis redintegratio, promulgado em 21 de novembro de 1964. Ainda por alguns pontos divergentes no que tange a perspectiva teológica do sacramento da eucaristia, tem-se uma inviabilidade total da participação recíproca. Isso ao invés de criar maior comunhão, simplesmente divide ainda mais o corpo de Cristo. Não seria impossível que as duas confissões religiosas sentem-se à mesa e elaborasse um documento como foi feita em 1999, a Declaração conjunta sobre a justificação assinada por luteranos e católicos. Vale dizer que esse era sem dúvidas um dos pontos espinhosos desde a perspectiva teológica que separavam as duas igrejas.

E, ainda, se a mesa cristã eucarística é o marco da hospitalidade, como a cena de Emaús revela, como pensar a exclusão de tantos grupos dessa mesma mesa? Aqui se pensa na realidade das pessoas recasadas. Quando em 2015 celebrou-se o sínodo das famílias, esse era um dos temas quentes a serem debatidos. Apareceu no Instrumentum laboris. Não faltaram católicos que, em nome da "sã doutrina" (mais doente do que tudo!) esbravejavam, acusando o próprio sínodo de herético caso orientasse na direção da possibilidade dos recasados se aproximarem da mesa eucarística. Uma verdadeira histeria.

A hospitalidade deve ser pura, sem interesse, sem juízos e verdadeira. A mesa eucarística é o lugar em que todos podem se assentar. Quem está de fora deve ser convidado pelos que estão sentados. Sempre há lugar para mais um, para que juntos partilhem do mesmo pão e bebam do mesmo cálice. A meta da mesa, a partir da hospitalidade, é a comunhão na diversidade. Enquanto peregrinos, escutando o Senhor que revela as Escrituras, assumindo as responsabilidades na história, participando da mesma mesa, partilhado as dores e as alegrias do caminho, ruma-se à mesa do baquete definitivo onde todos serão plenamente irmãos e irmãs, pois o Senhor não exclui, mas inclui.  

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias