Religião

13/11/2020 | domtotal.com

A hospitalidade como testemunho do Reino de Deus

Acolher o outro como outro exige de nós um movimento de esvaziamento do próprio eu

A hospitalidade é resposta ética ao outro e expressão de fé que acolhe a Deus que passa e se passa no rosto do outro
A hospitalidade é resposta ética ao outro e expressão de fé que acolhe a Deus que passa e se passa no rosto do outro (Milo Bauman/Unsplash)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Acolher o estrangeiro, respeitar o diferente, acolher o Outro como outro sem reduzi-lo ao Mesmo, cultivar a tolerância, etc. não significa apenas o exercício de uma "boa consciência" ou de um dom natural. A hospitalidade tem a ver, na verdade, com a responsabilidade ética e expressa a experiência de uma verdadeira espiritualidade cristã. Pois o monoteísmo cristão não é de um Deus fechado em si mesmo, pelo contrário, o Deus revelado em Jesus Cristo tem em sua identidade a alteridade. Esta unidade plural é relação de amor entre as três Pessoas da Trindade. Identidade que só é ela mesma no outro, com o outro e pelo outro. Deus é relação em si mesmo. Por isso, todo tipo de fechamento e polarização, denota-se um contratestemunho para o cristão, que é chamado a ser "imagem e semelhança" desse Deus comunidade de Amor.

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A questão da hospitalidade perpassa toda a Bíblia. Primeiro para lembrar aos filhos de Israel de que eles também foram estrangeiros nas terras do Egito (cf. Ex 22,20), e, por isso, deveriam acolher os migrantes, e amá-los como irmãos (cf. Lv 19,33-34). Segundo, porque o próprio Deus é um Deus peregrino que passa e se passa, no pobre e no estrangeiro, como nos recorda o livro do Gênesis (18, 1-10) quando Deus apareceu a Abraão ao mesmo tempo em que os três viajantes. E Abraão, ciente da sua responsabilidade com o outro, diz a Deus: "Não passe, Senhor, diante de teu servidor. Espera que eu receba os três viajantes", porque os viajantes, cansados pelo calor e pela sede, passam antes de Deus. É que, a transcendência de Deus sendo seu próprio apagamento, nos obriga, em relação aos homens. A hospitalidade é, portanto, ao mesmo tempo, resposta ética ao outro e expressão de fé que acolhe a Deus que passa e se passa no rosto do outro.

No Novo Testamento encontramos vários textos que falam da hospitalidade. Em 1 Pedro 4, 9 podemos ler: "sede hospitaleiros uns para com os outros, sem murmuração"; Paulo se dirigindo aos Romanos recomenda: "mostrai-vos solidários com os santos em suas necessidades, prossegui firmes na prática da hospitalidade" (Rm 12, 13); Hebreus 13, 2 faz a seguinte exortação: "Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber". No evangelho segundo Mateus 25, 35 encontramos o próprio Cristo se identificando com o estrangeiro quando diz aos justos: "Vinde, benditos de meu Pai!... Pois eu era forasteiro e me recebestes em casa". Acolher, proteger, promover e integrar o estrangeiro é uma obra de caridade que demonstra a nossa fé, bem como exprime a missão da Igreja em favor de todos os habitantes das periferias geográficas e existenciais, que também devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados na Igreja e na sociedade, pois "somos todos irmãos" (Mt 23, 8).

No episódio dos dois discípulos a caminho de Emaús (Lc 24, 13-35), Jesus também se manifesta como um peregrino que se põe a caminhar com os dois jovens e, pela hospitalidade, tanto para tecer um diálogo aberto entre estranhos, bem como para acolher em casa e fazer comunhão de mesa com o forasteiro, foi possível aos discípulos reconhecerem a presença do Ressuscitado. Como escreve Santo Agostinho: "é somente a partir da hospitalidade que os homens podem ter um conhecimento íntimo de Deus".

A hospitalidade, no entanto, não diz respeito somente ao estrangeiro, ao migrante, mas também ao Outro que será sempre um "estrangeiro" para mim. A tentação de reduzir o Outro ao Mesmo está sempre presente em nossas relações, porque o estrangeiro nos "tira a paz", nos provoca. Acolher o outro como outro exige de nós um movimento de esvaziamento do próprio eu, pois o outro não é outro de mim, por isso, não pode ser reduzido à mesmidade. Nesse sentido, podemos afirmar que a hospitalidade é o primeiro gesto de caridade ao outro e expressão de nossa fé a Deus, pois "o primeiro serviço que se deve fazer ao próximo é aquele de escutar. Quem não sabe escutar o irmão, logo, logo não saberá escutar Deus. Até diante de Deus ele estará sempre a falar" (Dietrich Bonhoeffer).

Penso que a questão da hospitalidade nos ajuda a pensar a nossa relação com Deus, isto é, a nossa espiritualidade e a nossa relação com o outro de nós, ou seja, um novo humanismo, que não esteja centrado no Eu, mas um "humanismo do outro homem". Bem como denunciar todo tipo de fechamento e intolerância presentes na Igreja e na sociedade atual. Como escreve o papa Francisco: "ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados por sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo o senso crítico perante essas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos" (Fratelli Tuti, n. 86).

A hospitalidade é, portanto, um remédio contra a intolerância, a violência e a polarização. Trata-se de reconhecer, ao outro, o direito de ser ele próprio e de ser diferente de mim. Isso implica conceber um eu "atropelado" pelo outro. Pois "na aproximação do próximo [...] o eu está em si, acuado a si, sem recurso a nada em sua pele ?" mal em sua pele, esta encarnação que não tem nenhum sentido metafórico, mas que é a expressão mais literal da recorrência absoluta que qualquer outra linguagem não diria senão por aproximação. O si-mesmo não é um eu encarnado, a mais de sua expulsão em si, esta encarnação já é sua expulsão em si, exposição à ofensa, à acusação e à dor (Levinais. Entre Nós, p.91). Trata-se de dizer a própria unicidade do eu humano, a partir da sua responsabilidade, isto é, a partir da posição ou de-posição do eu soberano na consciência de si, de-posição que é precisamente sua responsabilidade por outrem.

Assim sendo, não tenho dúvida em afirmar que a hospitalidade, como acolhida do Outro como outro, é um sinal visível do Reino de Deus. Principalmente numa sociedade tão complexa e intolerante como a nossa, na qual muitas vezes as pessoas se cruzam pelas outras, mas não se encontram. Onde cada um preocupa-se consigo mesmo e se esquece do outro; olha, mas não vê; ouve, mas não escuta; sente pena, mas não se move de compaixão... Faz-se necessário praticar a hospitalidade para com o "estrangeiro", o outro de mim, que na sua diferença me humaniza e em seu rosto me revela Deus.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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