Religião

13/11/2020 | domtotal.com

Acolher o dom de Deus no próximo

A comunidade cristã é desafiada a ser espaço de acolhida e manifestação do dom de Deus à humanidade

A acolhida evangélica acontece na capacidade de abrir o coração e os braços para acolher todos os irmãos e irmãs, independente de etnia, credo, religião, cultura e nacionalidade
A acolhida evangélica acontece na capacidade de abrir o coração e os braços para acolher todos os irmãos e irmãs, independente de etnia, credo, religião, cultura e nacionalidade (Windows/Unsplash)

Francisco Thallys Rodrigues*

Nosso tempo se caracteriza por um rápido e acelerado processo de mudanças que exigem constante adaptação. Neste fluxo frenético, no qual a comunicação tem se tornado cada vez mais virtual e impessoal, corre-se o risco de tornar-se indiferente às pessoas que nos cercam. A comunidade cristã, seguindo a esteira do Mestre Jesus, é desafiada a ser espaço de acolhida e manifestação do dom de Deus à humanidade.

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Nos últimos anos, a Igreja tem refletido mais sistematicamente sobre acolhida na comunidade cristã. Este fato deriva, sobretudo, da sensibilidade moderna mais suscetível aos sentimentos e afetos, vista que privilegia a subjetividade humana, mas também o despertar nas igrejas cristãs para o espaço dos templos como lugar acolhedor. Contudo, deve-se recordar que a acolhida não está reduzida a uma saudação calorosa ou a disponibilidade para indicar os locais de acesso aos templos e salões. A atuação de Jesus, ao longo dos evangelhos, explicita um comprometimento maior daquele que acolhe. Portanto, é preciso estabelecer níveis distintos de acolhimento. 

Um primeiro nível de acolhimento, mais comum e perceptível, é aquele realizado antes das celebrações nas portas dos templos com pessoas que saúdam quem chega e se dispõe a colaborar para que se sintam acolhidos, conseguindo-lhes um lugar e dando indicações/orientações. Em muitos lugares estas pessoas têm se constituído como uma pastoral da acolhida. Note-se que quem assume esta missão deve ter sensibilidade para com quem chega, percebendo, inclusive, se esta pessoa costuma participar, também deve ser maduro a ponto de não fazer distinções de tratamento entre as pessoas. Demonstrar interesse e empatia é um passo fundamental para um bom acolhimento.  

Outro nível de acolhida é aquele que ocorre no cotidiano da vida da comunidade. Esta dimensão é desafiadora, visto nosso contexto cada vez mais urbano e impessoal, no qual cada família torna-se uma ilha diante das demais. Esta acolhida se expressa no cuidado e atenção para com os membros da comunidade cristã, sobretudo, aqueles novos que chegam para morar. Estar atento às suas necessidades, fazê-lo sentir-se acolhido e integrado na comunidade, preocupar-se com seus problemas e colaborar para que se integre. Este tipo de acolhimento não necessita de institucionalização, pois pode ser realizado por qualquer membro da comunidade onde ele se encontra, seja na sua rua ou no seu prédio.

Nesta mesma linha de uma acolhida integradora, encontramos a preocupação de muitos agentes pastorais em favorecer a participação de mais pessoas nas pastorais, movimentos e grupos presentes na comunidade. Algumas dioceses têm ampliado o processo de formação catequético e batismal incluindo momentos de acolhida e acompanhamento a mães gestantes, casais recém-casados, entre outras experiências. Noutros lugares há uma preocupação em fazer-se presente no meio de famílias enlutadas ou por meio da visita aos doentes. Em todas estas iniciativas se expressam o cuidado da comunidade cristã com seus membros.

Todos estes níveis de acolhida apresentam-se como indispensáveis. Entretanto, não se pode esquecer que a acolhida evangélica acontece na capacidade de abrir o coração e os braços para acolher todos os irmãos e irmãs, independente de etnia, credo, religião, cultura e nacionalidade. Jesus é o modelo, por excelência, do acolhimento transformador capaz de gerar conversão, comunhão e fraternidade naqueles que por Ele foram envolvidos. O Nazareno não estabelece distinções ou se deixa guiar por preconceitos, mas revela o amor misericordioso de Deus que se compadece do sofrimento humano. No agir do Mestre, os pobres, os pecadores, os sofredores, as mulheres recebem especial atenção como filhos amados de Deus. Os discípulos, por sua vez, são desafiados a estabelecer relações para além das normas e orientações de seu tempo.

Muitas pastorais e movimentos experimentam cotidianamente o acolhimento aos irmãos e às irmãs que se encontram dilacerados pelas situações da vida, pelas injustiças, mentiras e ilusões deste mundo. A exemplo de Jesus, estes homens e estas mulheres curam as feridas com o vinho do acolhimento e da esperança, escutam aqueles que não têm voz e revelam a face amorosa de Deus. Não se trata somente de acolher com os braços, mas acolher com o coração e a mente devolvendo-lhes a dignidade humana. Trata-se de olhar para eles (as) com o olhar misericordioso de Deus que supera toda indiferença e preconceito.

Portanto, o acolhimento é uma dimensão intrínseca da prática de Jesus e da comunidade, pois significa a abertura de coração para a totalidade do outro. Não pode ser reduzida a pequenas saudações ou orientações, mas deve ser expressão do seguimento a Jesus na comunidade eclesial. Vale ainda lembrar, que o papa Francisco, na sua última encíclica, Fratelli Tutti, tem recordado que todos nós somos irmãos e irmãs chamados à cooperação mútua em vista do bem comum. Somente que está imbuído pelo Espírito de Jesus é capaz de acolher toda pessoa humana como semelhante, como dom de Deus a humanidade.

*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateús. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR). Trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Tauá?"CE e no Colégio Antônio Araripe como professor de história no Ensino Médio.



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