Religião

13/11/2020 | domtotal.com

Francisco: 'o mestre de obras' de um novo tempo

O que a divulgação do McCarrick-report representa?

Apósas divulgação de dossiê sobre o ex-cardeal McCarrick, o mundo inteiro chega à conclusão que o clericalismo está mais vivo que nunca. É o grande desafio de Francisco
Apósas divulgação de dossiê sobre o ex-cardeal McCarrick, o mundo inteiro chega à conclusão que o clericalismo está mais vivo que nunca. É o grande desafio de Francisco (AFP/Andreas Solaro)

Mirticeli Medeiros*

Presenciamos, esta semana, um outro momento histórico. Sem dúvida, você deve ter visto esta frase se repetir várias vezes durante o pontificado de Francisco. O papa "da periferia" faz história no centro da cristandade. E seus opositores não podem mais negar isso. Do contrário, ficará muito feio para eles. Esperneiam, como crianças mimadas, frente a um movimento de transformação que derruba os muros da indiferença, os salões faustosos da corte dos "perfeitos" e as colunas tortas da contradição.

Francisco quer salvar a Igreja "das igrejas" que foram construídas com argamassa partidária e ritualismo estéril. Ele quer destruir os palácios do moralismo que guardam toda sorte de coisa, menos uma religiosidade genuína. Está na hora do catolicismo de muitos voltar a ser cristão.

Militar contra Francisco é atacar "um de nós". Um "nós" feito de católicos, protestantes, ateus e tantas pessoas de boa vontade que reconhecem sua importância. Num mundo que carece de líderes de referência, já dizia o sociólogo Marcos Campos, Francisco se destaca por assumir o cajado do equilíbrio e da coerência em meio às águas turvas do populismo que invadem os átrios dos templos. É pontifex: a ponte que conduz, quem estiver disposto a atravessá-la, a uma vida com sentido, a uma espiritualidade com sentido.

Como ignorar as vítimas de abusos que foram silenciadas por líderes corrompidos, cujo drama foi escancarado pelo dossiê do ex-cardeal McCarrick, publicado esta semana?

Graças a Francisco, o público teve acesso à lista de crimes cometidos por alguém que, por muitos anos, comandou uma das arquidioceses mais importantes dos Estados Unidos e manchou, com sua conduta, as vestes púrpuras de colaborador do papa. Na era moderna, nenhum molestador dentro do catolicismo conseguiu chegar tão alto.

Mesmo sob suspeitas de cometer crimes sexuais, McCarrick conseguiu integrar o grupo seleto de membros da alta hierarquia católica. Foi beneficiado por uma série de acobertamentos feitos por seus colegas de episcopado. Por conta disso, teve força suficiente para burlar as leis rígidas que regem as nomeações episcopais. Mentiu ao papa João Paulo II, dizendo "nunca ter praticado sexo na vida nem com homem nem com mulher". O papa polonês, considerando as denúncias contra ele infundadas, preferiu ficar com sua declaração de inocência. Ao considerar as suspeitas inconsistentes, deu a ele o barrete cardinalício, mesmo depois de ter sido alertado pelo cardeal John O'Connor, que previu a possibilidade de um escândalo mais à frente. Dito e feito.

O "corporativismo eclesial", fruto do clericalismo que Francisco, desde o início do pontificado, combate, venceu nessa história. O papa argentino, há muito tempo, havia feito esse diagnóstico. Porém, para variar, foi ignorado e acusado de não se preocupar "com os interesses da instituição". Quem se fecha para essa denúncia profética, comumente acha que Igreja é um principado intocável, o Estado Pontifício medieval que se alia à mentalidade deste mundo e promove disputas para garantir seu território.

Para Francisco, a Igreja são as nossas avós que nos ensinaram a rezar o terço. É feita de trabalhadores que agradecem a Deus pelo sustento de cada dia. Por mulheres que doaram suas vidas "pela causa do reino" e não receberam nenhum reconhecimento. É formada por padres que, por ajudarem os pobres, foram chamados de "comunistas" (pelo povo que não faz nem 1% do que eles fazem, mas passa o dia digitando ofensas e tratados de religiosidade vazia nas redes sociais). E tem também o velho sacerdote de uma paróquia de interior que, no cumprimento de suas tarefas diárias, usando uma batina surrada, mantém a fé das pessoas que não sabem pronunciar nenhuma palavra em latim, mas aprenderam a falar com Deus por causa de seus sermões.

Mais que gestos, reviravoltas pastorais e revolução comunicativa, o governo do papa argentino é feito de ousadia. O pontífice entra no jogo do perder para ganhar. Mesmo que, por um momento, a instituição receba golpes que põem em risco sua credibilidade, é o cristianismo quem vence. Francisco trabalha, a duras penas, para construir essa consciência: cristianismo é encontro com Deus e com o outro. Se estiver fora disso, é só uma confraria de homens e mulheres que discutem teologia. Ele manda o recado para aqueles que se acham santos demais, mas têm vidas que não passam de culto à religião do eu.

Você pode até não gostar do papa, mas negar que ele é necessário para este tempo, demonstra de que lado você resolveu ficar. O católico mais devoto deveria ser o primeiro a defender, com unhas e dentes, o seu próprio líder. É, no mínimo, incoerente assumir uma postura contrária. Tradicionalismo que afronta a Tradição (a de dois mil anos, que inclui o papa no pacote) é o que mais vemos por aí. Não passa de moda, esteticismo espiritual: não é a fé dos apóstolos.

Desde quando o papa assumiu o governo da Igreja, em 2013, deixou claro que não focaria nas questões de sempre. Sua missão era pôr ordem na casa. Também prometeu agir com transparência; porém, não imaginávamos que chegaria a tanto. Francisco revisita uma das páginas mais dolorosas da história da instituição sem medo de mostrar para todos onde estão as maçãs podres. Afirmação forte, não? Tão forte quanto verdadeira. Não pare, santo padre!

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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