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13/11/2020 | domtotal.com

Recusa de Trump em aceitar a derrota é estratégia política ou apenas mais um ato teatral?

Com vitória de Joe Biden no Arizona, atitude do presidente é afronta à democracia

O presidente americano, Donald Trump, durante cerimônia no cemitério de Arlington, na Virgínia Brendan
O presidente americano, Donald Trump, durante cerimônia no cemitério de Arlington, na Virgínia Brendan (Brendan Smialowski/AFP)

A atitude do presidente americano, Donald Trump, de não reconhecer sua derrota para Joe Biden é um golpe de Estado em andamento ou trata-se de um mero espetáculo? Nesta era de ouro das teorias da conspiração, não há consenso.

Trump exerce o direito de se queixar de que a contagem de votos que mostra seu adversário democrata Joe Biden vitorioso por uma estreita margem contém erros. Os resultados de muitas eleições americanas foram apertadas, como os de 3 de novembro, mas nenhum presidente que perdeu denunciou que a eleição foi roubada ou se negou a conceder a vitória ao seu adversário.

Agora, a contestação parece ainda mais distante, pois o candidato democrata venceu no estado do Arizona segundo a mídia americana, consolidando a liderança no Colégio Eleitoral. Biden ganhou no Arizona por mais de 11 mil votos e somou outros 11 votos no Colégio Eleitoral, de acordo com as emissoras NBC, CBS, ABC e CNN

O canal Fox News e a agência de notícias Associated Press anunciaram a vitória de Biden no Arizona na noite da eleição, o que irritou o presidente Donald Trump. Outros meios de comunicação optaram por aguardar os resultados devido à disputa acirrada no estado. Com o Arizona, Biden tem 290 votos no Colégio Eleitoral, contra 217 de Trump. Para conquistar a presidência são necessários 270. Ainda faltam os resultados das eleições nos estados da Carolina do Norte e Geórgia

Os advogados do presidente entraram com ações judiciais em vários estados-chave para contestar os resultados, embora até agora não tenham obtido sucesso. "O objetivo parece ser minar a confiança dos eleitores na legitimidade das eleições e arrecadar fundos", disse Joshua Douglas, professor da Universidade de Kentucky. De fato, o Partido Republicano lançou um apelo online por doações com o título "Os democratas tentarão roubar esta eleição!".

Mais de uma semana depois das eleições, cujos resultados primários foram conhecidos no sábado, o presidente não aportou evidências da fraude que denuncia. Apesar da crença entre muitos republicanos, autoridades eleitorais americanas informaram "não haver evidência" de que votos foram perdidos ou alterados, ou de que os sistemas de votação tenham sido corrompidos. "As eleições de 3 de novembro foram as mais seguras da história americana", informaram, em comunicado, as autoridades nacionais e estaduais responsáveis por dar segurança ao processo eleitoral, contradizendo as alegações dos republicanos e da Casa Branca. "Não há evidência de que qualquer sistema de votação tenha deletado ou perdido votos, tenha alterado votos ou que tenha sido comprometido de alguma forma", afirmaram.

Para alguns, Trump está se mostrando um líder autoritário. O presidente já expressou abertamente sua admiração por líderes como o contraparte russo, Vladimir Putin, que cultivam um estilo de confronto com as instituições de seus países. Putin é um dos poucos líderes mundiais, como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, a não ter feito

Agora, os críticos de Trump afirmam que ele está seguindo estes passos. Mas também há a probabilidade de que sua estratégia seja mais uma técnica de comunicação de seu lado apresentador de televisão. Até agora, suas tentativas nos tribunais não prosperaram e seu advogado, Rudy Giuliani, tampouco aportou dados além de dizer que os democratas "se comportaram de uma forma que sugere uma fraude".

As dúvidas plantadas sobre a vitória de Biden "também podem servir em parte para galvanizar a base republicana antes das eleições parciais na Geórgia" para o Senado, marcadas para 5 de janeiro e cruciais para determinar a maioria na câmara alta. Os republicanos hoje controlam o Senado, mas os democratas esperam conquistar as duas cadeiras disponíveis nesse estado do sudeste. E a mobilização dos eleitores de ambos os partidos será fundamental.

A recusa em reconhecer a vitória de Joe Biden "marca uma ruptura com os padrões democráticos absolutamente sem precedentes", afirmou Douglas. Porém, "a probabilidade de que algum dos recursos judiciais [movidos pelos republicanos] altere o resultado é extremamente baixa", concluiu.

Apoio republicano

Mas é grave também o fato de a grande maioria dos legisladores republicanos até agora se recusou a reconhecer a vitória de Biden, uma ruptura histórica com a tradição política que demonstra, acima de tudo, a alta popularidade que Trump mantém entre seus eleitores. "Os republicanos no Congresso estão deliberadamente colocando as nossas eleições em dúvida por razão nenhuma além do medo de Donald Trump", disse o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer.

Por trás dessas declarações há uma realidade muito concreta: não há dúvida de que a derrota de Trump foi selada no sábado, mas também é verdade que o presidente em exercício deixou clara sua persistente popularidade nas fileiras republicanas. Enquanto um punhado de congressistas do partido rapidamente reconheceu a vitória do candidato democrata, como o senador Mitt Romney, muitos outros permaneceram em silêncio ou apoiaram publicamente as alegações infundadas de fraude ou "roubo" do presidente.

David Barker, professor de Ciência Política na Universidade Americana de Washington acredita que "isso faz sentido porque Trump ainda mantém a lealdade de pelo menos oito em cada dez republicanos, que disseram nas pesquisas que não acreditam que [a eleição de] Biden seja legítima e acham que Trump deveria continuar lutando", explicou. Os deputados republicanos "temem uma reação hostil de seus eleitores se adotarem um ponto de vista contrário" a Trump, ponderou.

Um golpe de Estado?

No processo, o presidente demitiu o chefe do Pentágono na segunda-feira, uma personalidade considerada relativamente independente, e depois prosseguiu com o expurgo de outros altos funcionários, o que provocou a indignação de seus críticos. "Nas últimas 24 horas, o secretário da Defesa, o vice-secretário da Defesa para a Política e o vice-secretário da Defesa de Inteligência foram demitidos (...) Por que?", questionou no Twitter Alexander Vindman, um oficial da reserva que trabalhou na Casa Branca até ser demitido depois de depor contra Trump em seu julgamento político no Congresso.

Um ponto-chave foi quando o chefe do Departamento da Justiça, Bill Barr, autorizou os procuradores federais a abrir investigações sobre irregularidades nas eleições. Na ocasião, o chefe da divisão de crimes eleitorais do Departamento de Justiça renunciou em sinal de protesto.

Alguns dos que consideram cenários mais extremos advertem que se poderia, inclusive, produzir um golpe dentro do Colégio Eleitoral. Para que isto se materializasse, os legisladores estaduais republicanos teriam que combinar uma estratégia para enviar eleitores que ignorassem os votos dos cidadãos e se voltassem para Trump.

Uma confabulação de circunstâncias deste tipo é aventada por muitos veículos de comunicação, mas parece uma possibilidade distante na vida real. "Para começar, inclusive falar de algo assim provocaria grande agitação e colocaria os legisladores sob uma pressão sem precedentes", escreveu Richard Hasen, professor de direito da Universidade da Califórnia.

No entanto, depois de uma campanha anormal e de um resultado demorado, os nervos estão à flor da pele. Os comentários do chefe da diplomacia, Mike Pompeo, de que o governo se prepara para um "segundo mandato de Trump" não ajudaram a acalmar os ânimos.

Mas também existe a possibilidade de que Trump esteja montando um show para se manter sob os holofotes. Apesar de não ter vencido, ele obteve 72 milhões de votos, manteve sua leal base consigo e, segundo uma consulta Politico/Morning Consult, 70% dos republicanos acreditam que as eleições não foram nem livres, nem justas.

Trump também pode ter objetivos pessoais: suas finanças e seu futuro profissional. O enérgico político de 74 anos tem agora uma gigantesca base de eleitores e opções para além de construir uma biblioteca presidencial, como fizeram seus antecessores. Uma pista de seu caminho é seu apetite pelos negócios. Seguindo ou não uma carreira política, especula-se que volte à televisão, talvez com a missão de punir a emissora Fox News, à qual criticou pelo que considerou uma falta de lealdade.

A Fox "esqueceu o que os fez bem sucedidos, o que os levou aonde estão. Se esqueceram da galinha dos ovos de ouro", manifestou-se na quinta-feira em uma série de tuítes, atacando o dono da emissora, Rupert Murdoch, e atiçando uma teoria da conspiração, criada pelas redes de extrema direita Newsmax e OANN. Então, o caos pós-eleitoral articulado por Trump poderia ser o episódio piloto de seu próximo 'reality show'?


AFP/Dom Total



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