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14/11/2020 | domtotal.com

Luzes sobre quatro gênios do século 20

Tempo de mágicos, de Wolfram Eilenberger, resgata Wittgenstein, Benjamin, Heidegger e Cassirer

O autor alemão Wolfram Eilenberger escreve com rara habilidade sobre figuras históricas
O autor alemão Wolfram Eilenberger escreve com rara habilidade sobre figuras históricas (Annette Hauschild/Divulgação)

Jacques Fux*

"Não se preocupem, eu sei que vocês nunca vão entender". Em 18 de junho de 1929, essa frase encerrou, em Cambridge, na Inglaterra, a talvez mais insólita defesa de doutorado da história da filosofia. Diante da banca avaliadora, composta por Bertrand Russell e George Moore, estava um ex-milionário austríaco de 40 anos que, durante os dez anos anteriores, havia trabalhado como professor do ensino fundamental. Seu nome, Ludwig Wittgenstein.

Ele não era um desconhecido em Cambridge. Ao contrário, entre 1911 e até pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial, fora aluno de Russell e rapidamente se transformara numa figura venerada entre os estudantes da época, tanto pela sua patente genialidade como também pela sua obstinação. "Deus chegou, encontrei-o no trem das cinco e quinze", escreve John Maynard Keynes numa carta de 18 de janeiro de 1929. Keynes, à época provavelmente o economista mais importante do mundo, depara-se com Wittgenstein por acaso no primeiro dia do regresso do austríaco à Inglaterra.”

Como não se fascinar por um início de livro assim? Como não ficar curioso para saber mais sobre esse gênio-deus Wittgenstein? E seus companheiros Cassirer, Benjamin e Heidegger? Como não querer entender um pouco mais sobre o que se passou no período de 1919 a 1929, sendo conduzido por um quarteto de incríveis mágicos?

Por certo, nenhum quarteto de filósofos contemporâneos teve tanto impacto no pensamento como esses "mágicos". Nesse belíssimo percurso pela filosofia lemos as curiosas biografias e o desenvolvimento das ideias filosóficas durante esse período tão precioso da história. Com rigor e com mérito, o autor, agora best-seller mundial, aborda várias camadas da vida e dos pensamentos de quatro sujeitos bastante diferentes. O livro nos leva a reviver o momento em que a Europa Ocidental e Central lutava para sair da guerra e da crise econômica antes de todos se afundarem pelos horrores, então insurgentes, do nazismo.

Esses mágicos - o imponente e arrogante Ludwig Wittgenstein, o infeliz e trágico Walter Benjamin, o perturbador e presunçoso Martin Heidegger e o teórico e plácido Ernst Cassirer - emergem na obra de Wolfram Eilenberger como mentes formidáveis, porém com personalidades estranhas e conflituosas. Eilenberger faz uma apresentação lúcida, simples e rigorosa do pensamento de seus personagens, muitas vezes difícil de compreender pela profundidade de seus trabalhos ou mesmo pela linguagem hermética com em que se expressam em suas obras originais. Embora os livros de filosofia possam ser muitas vezes chatos se forem abordados de uma forma errada, a filosofia neste livro nos encanta. Eilenberger prova que a rainha do pensamento ocidental é mágica e interessante, e nos permite conhecer novas perspectivas e visões de mundo.

Mesmo diante de gênios com histórias e vidas incríveis, Walter Benjamin tem um lugar especial entre eles. Autor dos mais belíssimos e importantes trabalhos teóricos, de visões inéditas e surpreendentes, de uma proposta revolucionária que até hoje é estudado, desvendado e citado por centenas de milhares de artigos e autores, sua vida foi desgraçada, perturbada e que culminou com uma morte - suicídio? - trágica e triste. Neste presente livro, encontramos o então jovem pensador, ainda desenvolvendo sua teoria crítica de arte atrelada à própria permanência artística.

Além disso, vemos Benjamin durante escrita de seu cerne texto sobre a tradução. "A atividade do tradutor é análoga à do crítico moderno, cuja verdadeira tarefa Benjamin tinha apresentado no seu doutorado em 1919 - tornar-se o coautor criativo da obra. Num primeiro passo argumentativo, traduzir com propriedade uma obra não quer dizer traduzir sua informação nem produzir a cópia mais fiel possível na língua de chegada. Encontramos uma formulação um pouco mais clara disso no lema habitual de qualquer curso de tradução: ‘Tão fiel quanto possível, tão livro quanto necessário’. Mas onde está o ganho epistemológico, onde está o novo impulso filosófico?"

O problema da tradução é levantado pelo próprio personagem do livro e "resolvido" de forma musical e sensível por Claudia Abeling. Se o processo de tradução é também um processo de traição e criação e aprimoramento artísticos, Abeling, sem dúvidas, engrandece o texto de Eilenberger e ilumina seus personagens e teorias.

Se pela definição, "mágico" é aquele que produz efeitos extraordinários, fascinantes, encantadores; que causa admiração, encanto e que produz um espetáculo; estamos diante, sim, de grandes mágicos e artistas. Cada palavra fascina, encanta, abala e embala; e cada página deste livro vale ser lida e sonhada.


TEMPO DE MÁGICOS
De Wolfram Eilenberger
Tradução de Claudia Abeling
Todavia
448 páginas
R$ 79.90 (livro) e R$ 48 (e-book)


Dom Total

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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