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17/11/2020 | domtotal.com

A hipócrita revolta do mundo muçulmano

Políticos de países islâmicos não reagem a China na mesma proporção que a França

Radical presidente Turco, Erdogan, foi um dos principais apoiadores do boicote de muçulmanos
Radical presidente Turco, Erdogan, foi um dos principais apoiadores do boicote de muçulmanos (Unsplash/ Abdullah Oguk)

Lev Chaim*

Eu me recordo até hoje uma coisa: havia discutido na classe com um coleguinha e fiquei com uma raiva tremenda dele por ele ter perdido a compostura e gritado contra mim o seguinte: "pão-duro, filho de família pão-dura, todos os Taveiras são pão-duros". Quando contei ao meu pai, ele sorriu e me chamou para conversar. Ele disse: "Filho, acalme-se. O seu colega lhe disse uma coisa que ele deve ter ouvido dos pais dele. Não saiu diretamente dele. E veja o lado bom das coisas: para ele falar isto, significa uma coisa: a família de sua mãe é conhecida e respeitada, mas existem invejosos que preferem dizer que ela é uma família de pão-duros."

Com isto, aprendi uma coisa: só deixar entrar aqueles comentários que valem a pena e barrar todos os outros que lhe machucam e muitas vezes não são verdades. Só para exemplificar aos leitores que não nasceram na minha cidade, nela existiam algumas famílias conhecidas, inclusive a da minha querida mãe, os Alves Taveiras. E quase todos elas tinham um apelido dado pelo povão: uns eram loucos, outros fanáticos, outros eram isso ou aquilo e a da minha mãe era uma família de pão-duros, mão de ferro, de ricos que não abriam a mão nem para dar um tostão. Mais tarde, descobri a origem disso tudo: os Alves Taveiras, segundo a história, foram, no passado, judeus. Com isto, existem muitos preconceitos contra os judeus e talvez este tenha ficado, mesmo após todos esses anos.

Por isso é que aprendi a contestar argumentos ou comportamentos, mas não as pessoas em sim, a não ser se elas cometessem alguma infração maior, tal como matar alguém ou algo assim. Nunca xinguei os muçulmanos no coletivo, mas ações individuais de pessoas que agiram sem pensar, baseadas em mentiras de sua religião, que muitos acreditam que tem que ser olho por olho, dente por dente. O ataque ao jornal tabloide de Paris, Charlie, que publicou a foto do profeta Maomé, o maior profeta dos muçulmanos, não deixei de condenar, pois nunca vi um judeu matar alguém porque esse alguém falou mal do Rei David, ou um cristão matar alguém que publicou uma foto de Jesus Cristo com uma roupa de rock-and-roll, participando de uma festa do teatro. Fé e religião são coisas individuais e têm que permanecer assim. E hoje, eu não destrato as muçulmanas que vivem na Holanda usando o lenço na cabeça, segundo as regras de sua religião. E conheço várias outras que não o usam.

Portanto, meus amigos, religião e política não devem jamais serem misturadas em quaisquer circunstâncias. Quando um jovem muçulmano francês degolou o professor, por ele ter mostrado um cartaz com uma foto de um terrorista que havia degolado uma outra pessoa, há questão de algumas semanas atrás, não deixei de condenar esse ato de violência e sem qualquer justificativa para tal. Depois o jovem disse que pensou que a foto fosse do profeta Maomé. Mesmo que fosse, ele não tinha o direito de fazer o que fez em lugar nenhum. E também condeno os muitos ataques a Sinagogas e a judeus na França, pelo simples fato de serem judeus ou símbolos da religião judaica. E também condeno os incêndios à igrejas católicas na França. Absurdo. E justamente a França que não aceitou participar da Guerra do Golfo para atacar o Iraque, devido a suposta posse de armas químicas do presidente iraquiano, Saddam Hussein, que depois da invasão por uma coalisão de tropas, inclusive dos Estados Unidos, provou-se não ser verdade.  

Após o professor francês ter sido degolado por um jovem muçulmano, o presidente do país, Emmanuel Macron, anunciou medidas para banir o muçulmano extremista da França, que não tinha nada que fazer no país. Macron foi claro: vocês moram aqui, vocês têm que se adaptar as regras do país e pronto. Isto ficou muitos anos solto, pois a França recebeu muitos imigrantes muçulmanos, no passado, de suas colônias na África, que já falavam o francês. E isto os livrou de terem sido obrigados a aprenderem a língua, assim como os costumes daquele país. Quando Macron anunciou as medidas severas de lutar contra esses radicais muçulmanos no França, muitos líderes muçulmanos do Oriente Médio e de outras partes do mundo se voltaram contra Macron e até pediram para que os seus países e seus povos boicotassem os produtos franceses, no que foi apoiado até mesmo pelo ex-primeiro-ministro malásio, Mahathir Mohamad e pelo radical presidente Turco, Erdogan. E aí, eu me perguntei: estavam eles certos? Não demorou muito a resposta: não, não estão certos.   

Esse grito de boicote de Erdogan e de outros mostraram apenas uma coisa muito hipócrita: o jovem havia matado um professor francês que estava dando aulas em seu país de civilidade e história. E por causa disso, ninguém tinha o direito de tirar a sua vida. Quantas vezes Jesus foi apresentado em diversas formas que não se condizem com a Bíblia, e vocês já viram um cristão pegar uma faca e degolar alguém? Nos tempos negros da inquisição, houve uma certa cegueira por parte dos governantes cristãos contra os judeus, mas isto foi naquela época e passou. Mas agora, nesta época da mídia social e todas as informações que temos, é puro assassinato e deve ser condenado e preso.

A grande hipocrisia do revoltado mundo islâmico é de condenar alguns eventos que acontecem em outros países e se esquecerem de outros muitos piores que ocorrem e continuam ocorrendo em outros lugares. Vejam vocês: ouviram algum líder muçulmano condenar o governo chinês nesses tempos? Nada, silêncio total. Por que eu disse isso? Porque a ditadura em Pequim, até hoje, mantém campos de concentração no norte do país, para reeducar os chineses de origem turca Oeigoeren e outras minorias. Eu disse, caro leitor, campos de concentração, imaginem vocês. Isto para que essas minorias sejam moldadas conforme as leis do regime comunista chines, ou seja, carneiros do ditador Xi Jinping. Quando Hiltler fez isto com os judeus na Segunda Guerra Mundial, ele depois foi condenado e até hoje este ato está no estatuto mundial de crimes da lista da Organização dos Direitos Humanos da ONU, assinada por cerca de 22 nações. Mas na lista dos que assinaram, não tem nenhum país muçulmano.

E alguns muçulmanos, como o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, também revoltado com a medida de Macron para combater a violência dos muçulmanos extremistas em seu próprio país, foi até mais longe, ao admitir que a China possa sim, colocar essas minorias muçulmanas do país em campos de concentração para serem reeducados. Muitos morrem ali, sem terem nunca tido uma vida livre. Por que isto? Porque a China, hoje, é um dos grandes investidores na economia dos países muçulmanos do Oriente Médio. Portanto: eu chamo essa revolta dos países muçulmanos, contra a atitude do presidente francês Macron, que agiu dentro de seus plenos direitos de colocar ordem na sociedade de seu país, de uma revolta hipócrita. A China, que investe milhões em suas economias, não é condenada, pelo contrário, como vocês viram a atitude do príncipe herdeiro saudita. Parece mesmo que o mundo está mesmo de pernas para o ar, principalmente com o psicopata do Trump, que ainda se nega reconhecer que perdeu as eleições em seu país, e se esquece dos problemas reais do mundo de hoje. Portanto, caro leitor, o meu pai tinha razão ou não, quando me disse para condenar atitudes e não raça. Tchau, pensem e me deem a resposta, se possível.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.



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