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17/11/2020 | domtotal.com

Duas fakes não criam uma verdade

Mas as alternativas às redes conseguem ser ainda muito piores

Fenômeno evidencia a falta de credibilidade generalizada das instituições
Fenômeno evidencia a falta de credibilidade generalizada das instituições (Unsplas/Claudio Schwarz)

José Antonio de Sousa Neto*

Depois de escrever o título deste breve texto lembrei-me de um ditado anglo saxão que em muito se alinha com ele: two wrongs do not make it right – duas coisas erradas não criam uma coisa certa. Em um mundo onde tantas são as fake News que temos a impressão que a própria "realidade" é fake – e quem sabe realmente não seja... – é ingênuo e imprudente subestimar o fato do fake ser uma realidade presente, constante, dirigida e perniciosa. Claro que isso sempre existiu, mas agora temos uma versão hiper turbinada, sofisticada, digitalizada e globalizada. Além de um paraíso quase sem fim para técnicas de neurolinguística, propaganda, manipulações e construção da pós-verdade.  Para refletirmos um pouco sobre isso uma simples pergunta, dentre várias outras que poderíamos ter escolhido, pode nos ajudar a pensar no todo: quem checa as "agências de checagem de informações"?

Em uma rede social como o Twitter temos de tudo. Ou quase tudo depois que a própria empresa estabeleceu filtros para as publicações feitas na rede. Alguns deles por razões óbvias e outros que nos levam a temer um obscurantismo que consolide consequências diametralmente opostas àquelas que em princípio (será...?) motivaram a própria criação da empresa. Precedente perigoso que muitos que se sentem representados preferem ignorar. Hoje o filtro é para o outro, mas se esquecem que os outros podem se tornar muitos e incluir inclusive aqueles que antes não eram os outros. Mas sobre a transição das mídias sociais para seu novo papel como "mídia tradicional repaginada" já falamos aqui em outras oportunidades. E aqui um capítulo merece atenção especial: o das réplicas e tréplicas aos posts. Aliás nada mais do que já temos nos sites tradicionais de "notícias". Algumas coisas que podemos ver com frequência seriam realmente cômicas se não fossem trágicas. Um verdadeiro espetáculo das misérias humanas capitaneadas pela tragédia da ignorância do espírito e da ignorância intelectual materializadas por seu sintoma mais frequente: a arrogância. E pior, frequentemente turbinada pelo crescente avanço da tecnologia dos algoritmos e do poder computacional que cresce em ritmo exponencial. E uma multidão de usuários com enormes travas nos olhos segue buscando ciscos nos olhos dos outros. Ou, como dizia Lenin em um contexto mais mundano, acuse seu inimigo daquilo que você faz e daquilo que você pensa!

E mesmo para aqueles que têm um pouco mais de instrução e discernimento está cada vez mais difícil saber o que é falso e o que é verdadeiro. Às vezes quase, senão impossível. Pelo menos até que a realidade se imponha pelo simples fato da vida e das coisas acontecerem e seguirem seu rumo. Mas mesmo saindo das bolhas ideológicas, e elas são realmente quase uma infinidade, a "editoria de fatos" segue usando o princípio básico, de origem trágica, que uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade. Ou uma pós-verdade turbinada que não precisa mais que a vida e as coisas aconteçam e   sigam seu rumo. Cria-se um mundo fictício paralelo que se plasma como o mundo real.

Assuntos e exemplos não faltam, mas por ser um fato mais recente aqui vale discorrer sobre o "espetáculo" das eleições americanas. Trump diz que houve fraude generalizada. Notícias e posts de todos os lados da disputa arrogam para si a verdade incontestável. O que é fake? O que é verdade? Líderes de países importantes como o Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, China e tantos outros já reconheceram Biden. E os que não o fizeram? Têm dúvida, aguardam o formalismo da confirmação legal em respeito ao próprio processo eleitoral e a democracia americana ou é algo mais? Quem aqui está sendo prudente e quem aqui pode estar sendo imprudente?

Enquanto isso no Twitter algumas "fontes privilegiadas" afirmam que há muita preocupação de que Trump ao reconhecer a derrota pode repassar informações de segurança nacional aos russos e outras "fontes privilegiadas" tem a convicção de que Biden é um comunista enrustido e parte de um complô para dominação global. Não sei se é para rir ou para chorar. Outras "fontes" afirmam que Trump já confidenciou que seu objetivo real é na verdade a eleição de 2024. Será verdade? Será fake? A dúvida surge porque impossível definitivamente não é. Uma parte ruim de tudo isso é a perda de credibilidade por parte de instituições quase de forma generalizada. Até aqui é difícil dizer se isso é bom ou se é ruim porque certamente muitas coisas nestes casos serão injustas, mas muitas outras não.  

E nesta epopeia muitos estão convencidos que uma fake aqui e uma fake acolá, para completar ou corrigir a primeira, podem criar uma "verdade verdadeira". Ou voltando ao começo de nosso texto e contradizendo o ditado de origem, que duas coisas erradas podem criar uma coisa certa. E se não der certo, que uma terceira, quarta e quinta (e assim por diante) fakes sejam criadas para que uma hora, no seu todo, o resultado final seja a criação de uma coisa certa. Nunca funcionou nem nunca vai funcionar.

Mas no caso das eleições americanas uma coisa é certa. Para o bem do presidente eleito, dos EUA e do mundo, tudo deve ser investigado a fundo e esclarecido de forma categórica para que não restem dúvidas de que o mandato está fundamentado na lisura e na justiça. Mesmo que irregularidades não sejam suficientes para reverter os resultados elas devem ser tratadas como inaceitáveis e devidamente eliminadas. E, apesar de tudo, pelo menos nos resta uma convicção: as redes podem ter se tornado quase um caos, mas as alternativas que se apresentam a elas conseguem ser ainda muito piores e até mesmo perigosas.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



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