Brasil Política

17/11/2020 | domtotal.com

TV e eleição

Televisão aberta ganha outro status no segundo turno

No Rio, um dos maiores índices de abstenção do país entre as capitais (30%), muita gente deixou de votar, mas as praias estavam cheias
No Rio, um dos maiores índices de abstenção do país entre as capitais (30%), muita gente deixou de votar, mas as praias estavam cheias (Fernando Frazão/ABr)

Alexis Parrot*

Sobrevivemos a mais uma eleição enquanto tentamos superar o coronavírus. Capitais como Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Florianópolis já passaram a régua no primeiro turno, mas o couro ainda vai comer feio no Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife e mais um punhado de outras cidades.

No Rio, um dos maiores índices de abstenção do país entre as capitais (30%), muita gente deixou de votar, mas as praias estavam cheias. O desânimo do carioca pela política só não é maior que o medo de perder um dia escaldante na areia à beira-mar.

São Paulo promete uma batalha épica entre o tucano Covas e o psolista Guilherme Boulos, finalistas na disputa; assim como no Recife, onde dois primos lutam para assumir o legado do avô Miguel Arraes.

Entre a pane do TSE, vitoriosos e derrotados, pouco ou nenhum distanciamento social nas filas das seções eleitorais e o diminuto número de debates no primeiro turno, a televisão mostrou muito, mas também escamoteou amiúde o que não era do interesse das emissoras. Nada de novo sob o sol, infelizmente.

TSE bugado

Além da derrota massiva dos candidatos apoiados por Bolsonaro, o grande perdedor deste primeiro turno foi o título eleitoral virtual, o tal E-título desenvolvido pelo TSE. Se o presidente do Tribunal, ministro Barroso, começou o dia sonhando com a possibilidade de votar via apps em um futuro próximo, a demora da apuração por problemas técnicos (ou de hackeamento) na transmissão de dados transformou seu otimismo em fiasco puro.

A verdade é que o aplicativo com o qual, em tese, poderíamos já nesta eleição justificar o não comparecimento à votação, nunca funcionou direito. O simples cadastro se mostrava impossível de ser concluído pelo menos duas semanas antes do pleito. Não dá para saber qual a vergonha maior: se o mau-caratismo dos perdedores que insinuam resultados fraudados ou a ingenuidade e despreparo demonstrados pela Justiça Eleitoral, pega de calças curtas diante da pane de comunicação entre Brasília e os Tribunais Regionais.

O inédito atraso na totalização dos votos compete para alimentar teorias conspiratórias que questionam o voto eletrônico; irresponsavelmente, uma das mais tacanhas bandeiras do próprio presidente, entre tantos outros absurdos defendidos por ele. No país onde a acusação sem provas foi institucionalizada, o tropeço do Tribunal deu munição desnecessária ao obscurantismo.

Internet e TV aberta

Apesar da importância capital que a internet teve nesta campanha (vide os 9,7% atingidos pelo youtuber oportunista Mamãe Falei na capital paulistana, quase empatado com Russomano no resultado final), a televisão aberta ganha outro status na caminhada rumo ao segundo turno.

O prazo de apenas duas semanas entre as duas votações diminui a chance de grandes viradas. Por outro lado, a redistribuição do tempo de TV, agora igualitária entre os candidatos remanescentes, pode ser fundamental para quem não usufruiu desse tipo de exposição - como o caso de Boulos.

Além disso, a volta dos debates (inexplicavelmente cancelados durante o primeiro turno) pode também interferir - e muito - na decisão dos eleitores. A lei eleitoral deveria ser mais dura, obrigando todas as emissoras a realizá-los; uma medida natural por se tratar de concessões públicas.

No campo da TV pública, fica o exemplo da TV Cultura. Mesmo não tendo a tradição de promover debates eleitorais, no apagar das luzes da campanha rendeu-se à obrigação de prestadora de serviços e juntou os candidatos à prefeitura paulistana para um confronto ao vivo.

Cabe a pergunta: se a TV Cultura conseguiu fazer, por que os canais comerciais (com exceção da Band) não conseguiriam? O impedimento não foi devido a condições técnicas ou à impossibilidade de garantir medidas sanitárias de prevenção ao coronavírus. O que faltou foi simplesmente vontade política.

Como o papo furado usado no primeiro turno não cola agora com apenas dois candidatos participando, todas as emissoras agendaram os encontros. No Rio, será engraçado ver o Bispo Crivella gritando "Globo lixo!" na transmissão da própria Globo.

Não é Tik Tok, é Tic-tac

Como a grande maioria das emissoras se desobrigou da realização de debates no primeiro turno, a internet acabou servindo de palco para que candidatos trocassem acusações um na cara do outro. Em São Paulo, Folha e Estadão promoveram o seu, além das entrevistas e sabatinas que normalmente já fazem.

Para todos que defendem a impossibilidade de renovação do formato, o debate transmitido pelo UOL provou o contrário, ao trazer uma simples novidade: o banco de minutos.

O tempo total do programa foi dividido entre os quatro candidatos presentes (a legislação eleitoral não prevê regras para debates pela internet, daí o número menor de convidados) e estes teriam que administrá-lo, podendo falar a qualquer momento e sem o costumeiro engessamento de réplicas e tréplicas pré-determinadas.

Da última vez em que tentou-se dar uma sacudida no formato dos debates, a iniciativa partiu da Globo, imitando o que então se fazia nos Estados Unidos, com postulantes andando de um lado para o outro no meio de uma plateia, como se estivessem em um programa de auditório. Evidentemente, o dinamismo pretendido não funcionou e a ideia foi abandonada.

O que o consórcio Folha/UOL sacou (e a Globo parece não ter entendido naquela época) é que o verdadeiro show deste tipo de evento está na retórica e na discussão - e não no visual. A inovação trouxe uma fluidez poucas vezes vistas em programas do tipo e seria bom que fosse incorporada por outros veículos já para os encontros deste segundo turno (como, espertamente, a CNN já fez no debate transmitido ontem à noite com Covas e Boulos).

Youtube e a monetização da política

Por dever de ofício e nenhum prazer envolvido, fui assistir ao pronunciamento do candidato Mamãe Falei, transmitido pelo youtuber na madrugada de domingo, após a consolidação final dos números da eleição de São Paulo.

Com 500 mil votos no bolso, o deputado estadual pretende incomodar qualquer um que sair vitorioso no pleito do próximo dia 29, mas o que incomoda mesmo é a política de anúncios do Youtube.

No post de 13 minutos, a reprodução do vídeo foi interrompida nada menos que cinco vezes por um mesmo comercial. Convenhamos, até para o Google (que só não vende a própria mãe porque é filho de chocadeira) o número de inserções é bastante exagerado. No final, não sabemos mais o que era mensagem e o que era publicidade.

Vai ver que é tudo a mesma coisa.

Datena: jornalista ou político?

De todas as emissoras comerciais abertas, a Band segue imbatível na cobertura jornalística eleitoral. Além de ser o único canal a derrubar a programação para dedicar-se exclusivamente ao tema após o fechamento das urnas, traz informação e análise de maneira quase inexistente nas concorrentes.

Mas há um porém: a presença de Datena na mediação. É de admirar sua capacidade de falar durante horas sobre absolutamente nada. Ao chamar uma praça do Nordeste para entrada ao vivo, manda abraços para o dono do barzinho onde já esteve. Usa a bancada da rede nacional como se estivesse falando do estúdio de uma rádio do interior, provincianizando os esforços da Band na cobertura.

Antes de perguntar algo aos convidados (sempre cientistas políticos), sempre dá a própria opinião em arrastadas preleções que servem para deixar clara sua falta de domínio sobre os assuntos abordados. Identificado politicamente com o campo da direita - haja vista as inúmeras candidaturas ensaiadas mas nunca levadas a termo por partidos deste espectro -, finge mal uma isenção inexistente.

Dessa vez, chegou a reduzir a importância de Erundina aos cabelos brancos da deputada (para ele, uma imagem de vovó que gera confiança - ignorando sua trajetória política). Comparado com Eduardo Oinegue, o competente jornalista com quem revezou a apresentação do programa especial, sua inadequação fica mais evidente ainda.

Se, por um lado, Datena atrai um telespectador que é fã do Datena (e não de política) para acompanhar a apuração, a recíproca também pode ser verdadeira. O titular do Brasil urgente afasta aqueles interessados por informação e jornalismo.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total



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