Religião

18/11/2020 | domtotal.com

Indicada ao Grammy Latino encontra sua voz como católica e gay

Cantora e compositora Gina Chávez dá testemunho de conciliação entre sua orientação sexual e sua fé

Gina Chavez em ensaio para o álbum 'La que manda'
Gina Chavez em ensaio para o álbum 'La que manda' (Ismael Quintanilla)

Madeleine Davison*
NCR

Crescendo em Austin, no Texas, a cantora e compositora Gina Chávez foi uma "super geek católica". Ao longo de sua adolescência, ela participou de grupos de jovens e estudos bíblicos e da Jornada Mundial da Juventude. Durante o primeiro ano na Universidade do Texas em Austin, juntou-se ao UT Catholic Center.

Foi por meio do Centro Católico – em um retiro após a formatura – que conheceu Jodi Granado, que mais tarde se tornaria sua esposa. "Nosso relacionamento foi tudo culpa de Jesus", disse Gina, rindo. A cantora, agora com 38 anos, descreve-se como uma católica latina homossexual e multiétnica, que vai à missa com Granado na paróquia de St. Austin, nos arredores do campus de sua antiga universidade.

Gina é conhecida por sua música versátil e bilíngue, com ritmos influenciados por suas viagens pela América Latina, e letras muitas vezes inspiradas por temas de justiça social e por sua relação com Granado. O último álbum de Chávez, La que manda (A que comanda), foi indicado ao Grammy Latino de melhor álbum pop/rock. Os vencedores serão anunciados em 19 de novembro.

Chávez está programada para se apresentar na estreia da cerimônia de premiação, que será transmitida ao vivo no Facebook às 20h. Ela venceu 12 vezes o Austin Music Award e, em 2015, gravou um NPR Tiny Desk Concert que obteve mais de 1,2 milhão de visualizações no YouTube.

Chávez começou a tocar violão aos 18 anos, depois de assistir a um show da cantora de blues de Austin, Toni Price, com seus pais. Ela achou os guitarristas de Price cativantes. Quando voltaram do show, perguntou ao pai se ele ainda tinha um violão no armário. Ele, de fato, ainda tinha o violão – um Martin 1954 de tirar o fôlego. "Eu basicamente o roubei", disse a cantora. "Meu pai me ensinou como fazer um dedilhado e cantar 'Blowin in the Wind' de Bob Dylan".

Em 2007, Gina lançou seu primeiro álbum, Hanging spoons, incorporando imagens católicas em canções como Santo Antônio e Irmão Sol, que lembra a oração de São Francisco de Assis. Antes de começar a namorar Granado, disse Chávez, ela pensava que canções de amor eram, "muito bregas". Mas nos 14 anos em que ela e Granado estão juntas, grande parte da música de Chávez – incluindo várias das canções de seu álbum de 2014 Up.Rooted e seu EP de 2018 Lightbeam – foram dedicada ao amor.

Foi um amor que, a princípio, Chávez achou difícil conciliar com sua fé católica. "Foi absolutamente devastador para mim descobrir que era lésbica", disse. "Eu literalmente tentei rezar para que minha parte gay fosse embora".

Dois mentores católicos – um padre e uma freira em St. Austin – ajudaram-na a aceitar quem ela era. Um dia, Gina e o padre, o falecido paulino Padre Jim Weisner, deu uma volta pela igreja para conversar. "Ele apenas disse: 'Gina, Deus ama quem você ama'", lembrou ela.

Mesmo assim, a cantora não acreditou muito nele. Cada vez que pensava em Granado, ela implorava a Deus por respostas – esses sentimentos eram bons ou ruins? Amor ou luxúria? Linda ou feia? "Um dia... eu só pensei, 'Oh, estou apaixonada. Isso é uma coisa linda. E sim, é de Deus. E sim, é bom'", disse. "Então eu pensei, 'Agora o que eu faço sobre isso?'"

Em 2015, após a decisão da Suprema Corte em Obergefell v. Hodges, o casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se legal no Texas. Chávez e Granado ficaram noivas e começaram a planejar seu casamento. Ela sempre conheceu a postura da Igreja Católica contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um dia, porém, sentada nos bancos de sua amada paróquia, percebeu que, apesar de passar a vida inteira indo à missa, ela não poderia se casar na igreja que considerava seu lar espiritual.

"Foi como o fim de um relacionamento – foi como lamentar algo que acabou", disse. "Eu chorei. Fui para casa... e Jodi apenas me abraçou". Algumas semanas depois, Gina estava fazendo um show em um rancho e começou a falar no palco sobre como ela e Granado estavam lutando para encontrar um local que se encaixasse em seu orçamento. O dono do rancho se ofereceu para conceder o uso do espaço para o casamento.

"Para mim, realmente foi como um grande abraço que dizia: 'Gina, eu cuido de você'" disse. "A igreja é maior do que aquelas paredes ali". Quando ela e Granado se casaram em 2017, a cerimônia foi linda, disse Chávez. Comemoraram o dia em um videoclipe de sua canção Heaven Knows, uma carta de amor para Granado. "Todos os dias, quero gritar a todos que amor é amor é amor é amor, e o nosso foi feito para durar", cantou Chávez no vídeo. "O céu conhece cada estrela que brilhou na noite em que você me lançou em seu brilho, e agradeço a Deus por você ter entrado em minha vida".


Chávez disse que encontrou uma comunidade de fé em St. Austin que aceita seu relacionamento com Granado, e que o catolicismo é sua identidade cultural mais importante. Gina tem mais amigos católicos do que gays, disse. Mas não há muitas igrejas católicas nas quais se sinta confortável além de St. Austin, apontou a cantora. Também é doloroso para ela que nem toda pessoa LGBTQ tenha acesso a uma comunidade católica acolhedora em sua região, disse Chávez.

"Se você não pode ir a determinado lugar, se lá você não se sente confirmado e aceito, então isso seria uma igreja?" disse. "Se você não é aceito por quem você é, então, perdemos o barco na mensagem de Cristo". A cantora disse que admira o trabalho do jesuíta James Martin e outros defensores católicos que desejam que a Igreja "se levante e lute" pelos direitos LGBTQ. "Precisamos de pessoas para sacudir isso", falou Chávez. "É difícil sacudir as coisas do lado de fora".

Chávez também tem sacudido as coisas em sua música, criando hinos inspirados sobre justiça social e levantando fundos para várias causas. A faixa-título do álbum indicado ao Grammy Latino La que manda elogia a ousadia e a liderança feminina, com um refrão de chamada e resposta: "Quem sou? (Sou a que manda)" - "Quem sou eu? A chefe". "[As mulheres] foram feitas para agradar. Devemos ser silenciosas. Devemos ser legais", disse Chávez. "O mundo controla às meninas e castiga quando elas falam alto e quando são barulhentas... falam: 'você é um problema'".

Na canção Ella ("Ela"), do mesmo álbum, Chávez condena a violência doméstica assim como celebra a resiliência das sobreviventes. Em 8 de outubro, a cantora lançou um vídeo para a música, dirigido por Lisa Donato, para arrecadar dinheiro para Survive2Thrive, uma organização sem fins lucrativos que apoia sobreviventes de violência doméstica.

Chávez também é uma apoiadora de longa data da educação feminina. Em 2010, depois que ela e Granado passaram oito meses ensinando em um bairro de baixa renda de Soyapango, El Salvador, as duas iniciaram um fundo de faculdade chamado Niñas Arriba, que oferece bolsas de estudo para mulheres do município frequentarem uma universidade católica local.

Ao longo de sua carreira, ela aprendeu mais sobre a supremacia branca e o patriarcado, por isso disse que se tornou mais aberta sobre justiça social em sua música. Em setembro, apareceu em uma versão do hino anti-racista Brown Power com o cantor e compositor de Chicago Zeshan B, que foi apresentada pelo The Late Show com Steven Colbert.

Chávez disse que se beneficia do privilégio da pele clara como uma pessoa multiétnica latino-americana com pais brancos (seu pai é de ascendência mexicana e sua mãe é suíço-alemã). Em um mundo em que "respiramos o ar" do racismo desde o nascimento, ela disse que está procurando maneiras de trabalhar pela justiça racial. "[Em algumas situações] pode não ser minha função falar – pode ser minha função tentar abrir espaço para outra pessoa falar", disse. "E ao mesmo tempo, acho que, com minha voz e com minha música, é hora de eu tomar uma posição maior".

Pessoas com privilégios às vezes a levam mais a sério do que uma pessoa de cor mais escura ou uma lésbica mais masculina, apontou. E suas identidades multifacetadas permitem que Gina "transite por múltiplos caminhos". A cantora disse que quer usar esse acesso para mudar mentes e abrir portas para outras pessoas. "Talvez seja isso que Deus me deu, a capacidade de ser uma ponte", disse.

Chávez apontou que o 2020 foi um ano "agridoce" para ela. Em meio a uma pandemia global e contínua injustiça racial e agitação política, ainda conquistou alguns destaques de sua carreira. A cantora disse que a indicação ao Grammy Latino foi um grande passo, e está ansiosa para o próximo anúncio do prêmio. Ela é a única mulher indicada em sua categoria este ano e uma das poucas desde o início da categoria em 2012, aponta.

Em 29 de setembro, quando as nomeações foram anunciadas, ela postou um vídeo em sua página pública no Instagram, onde dançava pela sala com uma camiseta e shorts largos, gritando e rindo. "ISTO É INCRÍVEL!!!" escreveu. "VAMOS GANHAR ESSE TROÇO".

Chávez também está ansiosa para trabalhar em seu próximo álbum e produzir mais videoclipes, disse. Ela disse que adoraria uma chance de um prêmio Grammy. "Eu me sinto abençoada porque as pessoas ouvem minha voz", disse. "Quero continuar a ter certeza de que vou usar essa plataforma... para ajudar a espalhar algo bom, para ajudar a trazer alguma unidade, para ajudar a construir uma ponte".

Publicado originalmente por National Catholic Reporter


Tradução: Ramón Lara

*Madeleine Davison é estagiária da NCR Bertelsen. O endereço de e-mail dela é mdavison@ncronline.org



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