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19/11/2020 | domtotal.com

Retrato de Rubem Braga e Fernando Sabino

Sabino acenava a todos, enquanto Rubem Braga se detinha em um ou outro volume

Rubem Braga (E) com seu irmão (C) e Fernando Sabino (D)
Rubem Braga (E) com seu irmão (C) e Fernando Sabino (D) (Wikimedia)

Ricardo Soares*

Quando o jornalismo se desidrata resta, sempre, falar de arte. Aqui, no caso, de literatura. Passei a maior parte da minha juventude sendo repórter na área de cultura, principalmente no caderno B do Jornal do Brasil e no caderno 2 do Estado de S. Paulo. Isso sem falar de minhas passagens pela TV Cultura, de São Paulo (onde escrevi e apresentei o programa Metrópolis de sua fundação em 1988 a 1990) pela extinta revista HV (publicada pela Carta Editorial, a mesma da Vogue) e até como redator-chefe da revista Trip, que também abria as ondas para temas culturais.

Somada essa experiência aos oito anos em que dirigi e apresentei programas de literatura na televisão (pela rede Sesc Senac, retransmitidos por inúmeras emissoras públicas do país) acabei por conviver, conversar, trocar e-mails e cartas com escritoras e escritores brasileiros de muitas gerações. Não serei deselegante, portanto não direi aqui aqueles que mais me decepcionaram e os que mais me causaram espécie. Até porque, a realidade confirmou a lenda, há escritores muito simpáticos que escrevem mal e escritores antipáticos que escrevem bem. Simpatia e qualidade não andam lado a lado.

Isso posto digo que sempre tive a  ideia de um livrinho que me surgiu de maneira singela e brusca numa tarde de sábado de fevereiro de 2018, quando degustava outro livrinho (e o "inho" é puro carinho) chamado Retratos parisienses, do Rubem Braga, um volume organizado pelo professor de literatura Augusto Massi que, publicado em 2013, passou  batido entre nós. Nesses Retratos, Rubem Braga, a quem só vi uma vez, narra seus encontros com escritores do porte de Sartre, Céline e Thomas Mann além de pintores como Picasso  e cineastas como Clouzot. Não são encontros literários, são artísticos em geral. A esse simpático varejo ele não chamou de entrevistas e sim de "retratos". 

Copio pois o mote e a intenção de Rubem Braga e transformo a ideia do "livrinho" em crônica. E aviso que os retratos que fiz foram com tintas foscas da memória. Não consultei anotações e nem arquivos. O resultado final, por certo, não terá o mesmo charme dos retratos de Braga. Mas espero que sirva para ajudar a não desbotar a lembrança que devemos ter de quem inventa e reinventa a língua: os escritores. Então, como amostra grátis, faço justamente aqui o "retrato" do Rubem Braga.

Por ter me inspirado a ideia, para me dar sorte, porque passei parte de minha vida escrevendo crônicas para diversos veículos começo as minhas "visitas" com o Rubem Braga. Na verdade, foi ele que me visitou. Ou melhor, nos visitou. Explico. Em 1980, com pouco mais de 20 anos, eu era o responsável junto com os amigos que haviam fundado o poético grupo Poetasia, em São Paulo, pela organização do estande dos poetas independentes da Bienal do Livro que então funcionava no Ibirapuera. Ficávamos na saída do prédio, quase o último estande, o "ânus da Bienal" como nos desqualificou à época um "resenhistazinho". Afinal éramos os primos pobres, o lumpesinato autoral que buscava um lugar ao sol.

Foi então que, num fim de tarde lusco-fusco que se via entre os vidros do prédio de Niemeyer, começou a se aproximar do estande uma caudalosa caravana. Sabíamos que alguém importante se aproximava pela quantidade de puxa-sacos e subliteratos à volta. Até que ao chegarem no estande revelou-se quem estava no meio da roda: Rubem Braga e se não bastasse acompanhado de Fernando Sabino e Ligia, sua então mulher.

Com a efusão e simpatia que lhe era peculiar Sabino se aproximou sorrindo e foi logo nos cumprimentando. Tenho quase a certeza que já o conhecia pessoalmente. Começamos a mostrar os livros (mambembes em sua maioria) que expúnhamos e vendíamos. Poetas de todos os estados aglomerados em volumezinhos toscos e mal acabados em busca de editores e de atenção seletiva.

Tal qual um político em busca de votos ,Sabino acenava a todos, estendia a mão, enquanto Rubem Braga, casmurro, punha os óculos na ponta do nariz e se detinha em um ou outro volume. Sabino me apresentou a ele e sequer me lembro se ele estendeu ou não a mão ou se acenou com a cabeça. O que sei é que entrou mudo e saiu calado do estande. Seus únicos gestos foram acenos de cabeça que eu intuía serem sinais de aprovação ao que estava vendo. Para mim bastou. O cronista que mais admirei na vida estava ali do nosso lado e só por ali estar interpretei como um sinal de incentivo. Segui, pois, escrevendo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, jornalista e escritor. Publicou 9 livros, o mais recente 'Devo a eles um romance', editora Penalux.



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