Coronavírus

21/11/2020 | domtotal.com

Esgotados, profissionais de saúde desistem da profissão diante da pandemia

Crise do coronavírus acentuou as condições insuportáveis que muitos enfrentavam

Médicos conversam sobre paciente com Covid-19 em Muret, França, em 16 de novembro
Médicos conversam sobre paciente com Covid-19 em Muret, França, em 16 de novembro (Lionel Bonaventure/AFP)

Uma agora é confeiteira, e outro se prepara para ser livreiro, mas ambos têm em comum o fato de terem deixado para trás sua experiência de trabalho em hospitais, em condições insuportáveis em consequência da pandemia do coronavírus.

A francesa Nolwenn Le Bonzec chegou a Bruxelas, procedente de sua Bretanha natal, em busca de trabalho. Deixou para trás sua experiência médica para assar bolos e está convencida de que essa mudança "salvou minha saúde mental". "Trabalhei cinco anos em hospitais e, aos poucos, vi como as condições de trabalho se deterioraram, e a saúde se tornou uma commodity", diz essa jovem de 27 anos, que hoje é responsável pelos cupcakes da loja Lilicup.

Enquanto isso, Thomas Laurent decidiu realizar "um sonho antigo", após 15 anos trabalhando em hospitais. Apaixonado por quadrinhos desde a infância, ele iniciará em janeiro a formação de livreiro, obrigatória na França. O enfermeiro francês de 35 anos pediu demissão, recentemente, do serviço de urgência de um famoso hospital de Lyon por considerar que as condições para o exercício da sua profissão "já eram insustentáveis".

A permanente falta de pessoal e de recursos, assim como a falta de tempo para cuidar bem dos pacientes, acabaram consumindo seu entusiasmo.

Entusiasmo diluído

"Passamos anos pedindo melhores condições de trabalho. Mas o governo (belga) não nos leva a sério. Se continuasse, cairia na depressão. Fizemos manifestações, nos mobilizamos, mas nada mudou", lamentou Le Bonzec, que trabalhava em uma famosa clínica da capital belga.

A jovem já questionava sua situação, quando chegou a primeira onda da pandemia do coronavírus, na primavera boreal (outono no Brasil).

"Psicologicamente, era difícil trabalhar em unidades de isolamento, tendo que lutar por máscaras. Corríamos riscos para a nossa saúde e de nossos entes queridos. E víamos pacientes que não tinham direito de visita, que estavam sozinhos, que morriam sozinhos", lembrou.

A falta de pessoal tem necessariamente pesado no atendimento aos pacientes, ponto focal da profissão. Aos poucos, chegar ao hospital foi-se tornando cada vez mais difícil, até que não tiveram mais forças para suportar a pressão, a frustração e, sobretudo, a "perda de sentido" do trabalho.

Desde que saiu do hospital, Laurent tem dormido melhor, e a pressão "desapareceu". Da mesma forma, Nolwenn aponta que "seis meses depois, ainda não sinto falta do meu trabalho como enfermeira. Estou feliz por vir trabalhar e contar como foi meu dia quando cheguei em casa", embora a mudança signifique acordar todos os dias às 4h para ir à confeitaria.

Menos aplausos, mais compromisso

O desconforto no trabalho atinge principalmente os mais jovens, "porque eles entram na profissão com seus ideais, mas recebem um banho frio diante da realidade e nem sempre têm o apoio e a supervisão que deveriam", diz Astrid Van Male, uma enfermeira belga que se especializou no "burnout" de seus colegas.

Eles "nem sempre têm o reflexo de cuidar de si mesmos, porque estão acostumados a cuidar dos outros. Esperam que todo seu mundo desmorone" para tomar consciência do que está acontecendo com eles, aponta. Alguns até se sentem culpados por tirar uma folga e aumentar a carga de trabalho de seus colegas. "Se não fizermos nada, logo não haverá mais enfermeiras nos hospitais. Até enfermeiras estrangeiras não aceitam mais essas condições de trabalho", alerta.

Com a segunda onda da pandemia, os aplausos da tarde nas varandas e janelas diminuíram. "Para quem aplaude, mas não se manifesta conosco, é fácil. Coloquem suas energias em outro lugar para nos ajudar!", diz Le Bonzec sem remorso, que ainda se refere no presente à vida que já deixou para trás.


AFP



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