Religião

19/11/2020 | domtotal.com

Momentos papais iluminam o que fazer na segunda onda de Covid

Desafios tocam relações Igreja-Estado, liberdade religiosa, consequências econômicas, sociais e políticas

Papa Francisco na bênção Urbi et Orbi
Papa Francisco na bênção Urbi et Orbi (Yara Nardi/Pool/AFP)

John L. Allen Jr.
Crux

Os Estados Unidos e a Europa enfrentam o ressurgimento da pandemia de coronavírus e estão caminhando para novos bloqueios em muitos lugares, por isso, parece ser um bom momento para olharmos para trás, para a experiência da primeira onda dez meses atrás e fazer um balanço das lições aprendidas.

Em termos católicos, as questões daquela época – que, sob várias formas, estão voltando ao primeiro plano agora – se dividem em três grandes categorias: relações Igreja-Estado e liberdade religiosa; consequências econômicas, sociais e políticas; e considerações pastorais.

Simbolicamente, um momento papal importante nos últimos meses captura os desafios de cada uma dessas questões.

Relações Igreja-Estado

Durante a primeira onda de bloqueios por coronavírus, a celebração pública da missa foi suspensa em praticamente todos os lugares, desencadeando um intenso debate no mundo católico sobre o cumprimento desses decretos governamentais.

Os críticos argumentaram que não era prudente a Igreja refutar a noção de que a adoração não é um "serviço público essencial" e ascenderam os alarmes sobre as consequências de longo prazo de enviar a mensagem da necessidade da participação física na missa. Essa preocupação foi expressa até por um secretário do papa Francisco, o padre Yoannis Lahzi Gaid, em uma carta para amigos sacerdotes em Roma em 13 de março.

"Penso nas pessoas que certamente abandonarão a Igreja, quando este pesadelo acabar, porque a Igreja os abandonou quando estavam em necessidade", escreveu Gaid.

Gaid foi deposto de seu cargo em agosto.

O momento papal chave neste sentido ocorreu em 28 de abril, cerca de 36 horas depois que o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte anunciou planos para uma flexibilização gradual das primeiras restrições ao bloqueio pelo coronavírus no país. Quando o anúncio do Primeiro-Ministro não incluiu qualquer menção ao levantamento da suspensão da missa pública, a conferência dos bispos italianos rapidamente emitiu uma declaração exasperada e, durante as 24 horas seguintes, pareceu que alguns bispos italianos estavam preparados para começar uma batalha legal por motivos de liberdade religiosa.

Tudo isso foi interrompido quando o papa Francisco pronunciou estas palavras durante sua missa diária, transmitida ao vivo na manhã seguinte: "Nestes dias em que começamos a ter regulamentos para sair da quarentena, rezemos ao Senhor para que ele dê ao seu povo, todos nós, a graça da prudência e da obediência aos regulamentos para que a pandemia não volte".

Isso imediatamente tirou o fôlego de qualquer resistência por parte dos bispos italianos e deu um tom em toda a Europa. É importante destacar que, tanto na França quanto na Alemanha, casos de tribunais superiores que revogaram ou modificaram as proibições de culto não foram arquivados pelos bispos católicos – na França, foi uma coalizão de forças políticas de direita e católicos tradicionalistas; na Alemanha, foi o caso de uma associação muçulmana.

Pouco tempo depois, Conte revogou a suspensão da missa e até agora não se falou em reimpor a medida, mesmo com várias regiões da Itália entrando em um novo bloqueio devido ao aumento das taxas de infecção.

Uma abordagem diferente está sendo adotada nos Estados Unidos, onde a Diocese de Brooklyn entrou com uma petição na Suprema Corte para bloquear uma ordem executiva do governador Andrew Cuomo que, sendo católico, limita o número de pessoas que podem assistir aos serviços religiosos. Recursos semelhantes foram rejeitados pelos tribunais inferiores, mas alguns observadores jurídicos acreditam que haverá uma mudança ideológica com a recente adição da juíza Amy Coney Barrett ao tribunal.

Nas próximas semanas, os líderes da Igreja novamente enfrentarão escolhas difíceis sobre até que ponto cumprirão as restrições do governo em prol da saúde pública ou como os desafiarão em nome da liberdade religiosa. Na França, por exemplo, onde o governo decretou novamente a suspensão do culto público até pelo menos 1º de dezembro, alguns católicos estão pressionando os bispos a resistirem, até mesmo lançando a hashtag #oursoulsmatter (nossas almas importam) nas redes sociais.

No momento, não há indicação de que a ampla preferência de Francisco pela obediência das medidas mudou, mas também não há uma sensação de que o Vaticano irá substituir o julgamento de bispos e pastores em outras partes do mundo.

Consequências econômicas, sociais e políticas

O momento papal chave nesta frente veio claramente em 3 de outubro de 2020, na vigília da festa de São Francisco, quando o pontífice viajou a Assis para assinar sua nova encíclica, Fratelli tutti. Isso equivale à prescrição do papa para um mundo pós-COVID, e o drama agora parece ser o quão eficaz sua equipe se mostra em torná-lo real.

Em essência, Francisco defendeu uma reinicialização global massiva, dizendo que a pandemia expôs as "falsas seguranças" do mundo.

"Além das diferentes formas como vários países responderam à crise, sua incapacidade de trabalhar em conjunto tornou-se bastante evidente", disse. "Quem pensa que a única lição a ser aprendida é a necessidade de melhorar o que já estávamos fazendo, ou de refinar os sistemas e regulamentações existentes, está negando a realidade."

Ao longo do documento, o papa Francisco analisa o que considera errado na política global e no sistema econômico atual. O Sumo Pontífice critica o populismo, o nacionalismo e o liberalismo (junto com seu corolário econômico no capitalismo de livre mercado). Francisco exorta os esforços multilaterais para enfrentar os problemas globais e apela para políticas que priorizem os mais vulneráveis, incluindo os migrantes e refugiados.

O papa também faz uma crítica acirrada da cultura atual da mídia social hiper-polarizada e estimulante, sugerindo a fraternidade como um remédio para a toxicidade. Francisco apela pelos direitos e igualdade das mulheres, um maior cuidado com o meio ambiente, a defesa dos idosos e o fim do racismo, bem como dos protestos violentos que os episódios recentes provocaram.

Em suma, o papa Francisco em Fratelli tutti apresenta uma visão de como o choque da pandemia poderia criar as condições para uma mudança social que, de outra forma, poderia ser considerada muito abrangente ou radical.

Resta saber se terá alguma sorte em promover essa agenda, embora com a transição para o presidente eleito Joe Biden nos Estados Unidos, o papa possa pelo menos encontrar um parceiro cujos ideias estejam um pouco mais sincronizados com os seus.

Cuidado pastoral

No nível pastoral e espiritual, nenhum momento capturou melhor a essência dos desafios criados pelo coronavírus do que 27 de março, às 18h00. Hora de Roma, na Praça de São Pedro.

Foi então que o papa Francisco entregou talvez a bênção mais extraordinária na longa história do papado, oferecendo uma bênção surpresa Urbi et Orbi – "Para a cidade e o mundo" – em meio à agonia da pandemia.

O cenário era realmente dramático: o papa Francisco sozinho naquela praça geralmente lotada, flanqueado pelas imagens de Maria Salus Populi Romani e o crucifixo milagroso de San Marcello, sua voz sendo levada através da chuva a uma cidade assustadoramente silenciosa, interrompida apenas pelo som angustiante de sirenes de ambulância passando.

A linguagem do papa parecia dar voz ao humor nacional. A tradução não faz justiça, esforçando-se para capturar a poesia do original italiano, mas provavelmente a frase mais citada veio perto do início.

"Uma densa escuridão cobriu nossas praças, nossas ruas e nossas cidades; assumiu o controle de nossas vidas, preenchendo tudo com um silêncio ensurdecedor e um vazio angustiante, que para tudo ao passar", disse o papa.

"Sentimos isso no ar, percebemos nos gestos das pessoas, seus olhares as denunciam. Nos encontramos com medo e perdidos".

"Tomamos consciência de que estamos todos no mesmo barco", disse o papa, "todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo seres importantes e necessários, todos chamados a permanecermos juntos, todos precisando nos consolarmos mutuamente".

Os italianos podem permanecer divididos sobre a resposta política à pandemia, com alguns pedindo restrições mais rígidas e outros – incluindo garçons, cozinheiros, funcionários de hotel, esteticistas, barbeiros e outros que temem perda de rendimentos e dificuldades familiares – argumentando amargamente que o fardo de manter o cofre público não deve cair desproporcionalmente sobre eles.

No entanto, esses trabalhadores estão unidos para relembrar aquele momento de 27 de março como a imagem icônica da pandemia, a única vez em que todos se sentiram unidos em um senso comum de dependência de algo maior do que eles.

De mil maneiras diferentes, bispos, pastores, religiosos e católicos leigos serão desafiados, ao longo das semanas, a criarem seus próprios momentos Urbi et Orbi em menor escala, captando o que as pessoas estão sentindo e oferecendo-lhes consolo de uma forma que supere o medo e os conflitos.

Não se pode apenas copiar o que Francisco fez, é claro, mas também não se pode ignorar o poder disso. Francamente, desde que a pandemia estourou, provavelmente não tivemos nada como a mensagem do papa para ilustrar melhor por que a contribuição religiosa e espiritual é, sem dúvida, "essencial", afinal.

Publicado originalmente em Crux


Tradução: Ramón Lara

*Siga John Allen no Twitter em @JohnLAllenJr.



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