Brasil

20/11/2020 | domtotal.com

A bruxa do chocolate

Sabotagem no cacau permanece impune

Perfeitamente integrados ao bioma da Mata Atlântica, os cacauais brasileiros se expandiram e logo abasteciam os principais produtores de chocolate da Europa, geravam empregos e traziam dólares
Perfeitamente integrados ao bioma da Mata Atlântica, os cacauais brasileiros se expandiram e logo abasteciam os principais produtores de chocolate da Europa, geravam empregos e traziam dólares (Sidney Oliveira)

Fernando Fabbrini*

Rumo às areias brancas e ao mar azul de Itacaré, Barra Grande e Taipu, atravessei de carro a região cacaueira da Bahia. No meio do caminho demos carona a um simpático fazendeiro cuja camionete arrebentara a suspensão, vítima dos buracos traiçoeiros da estrada. Papo vem, papo vai e ele contou-nos sobre um fato ocorrido ali há alguns anos.

O cacau está na base da vida de milhares de brasileiros numa das regiões mais carentes da Bahia. Gerações sucessivas têm no plantio e no comércio do fruto seus principais sustentos. A atividade iniciou-se em 1752, quando o fazendeiro Antônio Dias Ribeiro trouxe as primeiras sementes do Pará para Ilhéus. A ideia excedeu as expectativas. Perfeitamente integrados ao bioma da Mata Atlântica, os cacauais brasileiros se expandiram e logo abasteciam os principais produtores de chocolate da Europa, geravam empregos e traziam dólares.

Até 1989 o Brasil detinha o posto de maior exportador mundial. Porém, nesse ano, algo estranho aconteceu. Quase a totalidade dos cacaueiros nativos foi tomada por um fungo conhecido como vassoura de bruxa. Em menos de cinco anos a produção caiu quase 80% e o Brasil, de líder exportador, passou a importador de cacau - um vexame. Houve ali um desastre de dimensões fenomenais com impactos na vida de milhares, além de danos imensuráveis à economia regional e nacional.

Buscando as causas do problema, inédito até então, os investigadores encontraram galhos contaminados com o fungo e amarrados com arame em todas as plantações. Com o vento e a chuva, o fungo não tardou a se espalhar e a estragar tudo em volta. Não havia dúvida de que se tratava de um ato humano, uma evidente sabotagem planejada e realizada com maus propósitos.

Através das investigações, a Polícia Federal descobriu que os autores tinham sido militantes contrários às políticas da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão governamental de controle e fomento. Muitos deles eram funcionários da própria Ceplac e, por isso, conhecedores desse tipo de cultura e das pragas que a ameaçam. Contratados, com carteira assinada e estabilidade, recebiam salários do dinheiro público para proteger os cacauais, e fizeram ao contrário. Sabedor dos resultados das investigações e dos respectivos culpados, o governo do então presidente Lula não tomou nenhuma atitude e a coisa acabou arquivada.

Em 2006, o técnico de administração Luiz Henrique Franco Timóteo, numa entrevista a uma revista de circulação nacional, relatou detalhes da sabotagem. Ele, filiado ao PDT, se juntou a outros quatro militantes do PT - Everaldo Anunciação, Wellington Duarte, Eliezer Correia e Jonas Nascimento para cometer os delitos. Todos eram funcionários da Ceplac. Conseguiram os tais galhos infectados pelo Crinipellis perniciosa e percorreram os cacauais amarrando-os aqui e ali, criando verdadeiras "bombas biológicas" de efeito retardado.

Pouco a pouco, e com o apoio do Ministério da Agricultura, os fazendeiros baianos estão tentando recuperar o desastre. Mesmo investindo pesados recursos, saneando, qualificando e aperfeiçoando as culturas, estimam que ainda levará muito tempo para que o cacau nacional volte aos patamares de outrora, recuperando os mercados do exterior.

Protegidos pela lenta máquina da justiça, recorrendo em instâncias superiores, os comparsas da bruxa criminosa aguardam em liberdade o desenrolar do processo – um desfecho bem brasileiro com o qual, infelizmente, já estamos acostumados.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo



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