Religião

20/11/2020 | domtotal.com

O papel antirracista da religião

Mais do que aderir a um discurso, é preciso colocar em prática uma mudança de estrutura e mentalidade

Romaria das Comunidades Negras no Santuário Nacional de Aparecida
Romaria das Comunidades Negras no Santuário Nacional de Aparecida (A12)

Daniel Couto*

A luta contra o racismo é um dever de todos. Nos últimos anos, vimos uma crescente conscientização dessa responsabilidade, principalmente com a popularização da discussão, com a publicação de livros de autores que são referência na produção antirracista no país e com a tradução de importantes obras para o português. Muitas instituições, percebendo a sua estrutura racista e propagadora dos mais diversos tipos de exclusão, passaram a olhar para os seus processos e a criar mecanismos de reorganização, revisão e reparação. Apesar dessa "consciência" ser, em muitos casos, superficial, o campo de discussão se alargou, possibilitando que os atores sociais propusessem pautas antirracistas e encontrassem voz em locais dominados pela lógica da branquitude e da colonização.

Esses acontecimentos, porém, não "inauguraram" a luta antirracista, como muitos parecem afirmar, pois o movimento negro e a resistência antissistêmica já existem desde o período da escravização e são um refúgio e voz para os que sofrem, cotidianamente, a violência e a negação da existência. É no reduto dos quilombos, terreiros e coletivos que se mantiveram as raízes da negritude e o baú da sua fé, da sua tradição e da sua epistemologia. Negras e negros, que tiveram o seu corpo, a sua voz e a sua experiência negada pelo racismo estrutural que impera há séculos no nosso planeta, na resistência cotidiana mantiveram a identidade e a vida a partir da força ancestral da memória.

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Como a vida humana é complexa e tem como uma das suas características fundamentais a dimensão da espiritualidade, também encontramos um forte movimento contemporâneo de reconstrução da tradição religiosa ancestral dos povos que foram escravizados e, em outro âmbito, o fortalecimento do diálogo inter-religioso, o respeito, a tolerância e a fraternidade. Esse resgate, porém, não se constitui por uma visão fixa no passado, mas na expressão religiosa atual, uma experiência viva e em constante movimento por parte dos seus seguidores que assumem o caminho e, passo a passo, fazem com que a fé seja assinalada no cotidiano.

Esse conceito de memória ancestral é muito importante para entendermos como a religião precisa se tornar um agente contemporâneo da luta antirracista, sobretudo quando temos, como consonância das diversas tradições, princípios como alegria de viver, respeito a natureza, amor, paz, fraternidade e justiça. É a partir do diálogo e da reconstrução da imagem de pessoa que a religião contribui para a formação humana e, neste caminho, para a superação do racismo. Não se trata, portanto, somente da mudança de discurso, mas no aprofundamento da diversidade, na integração dos diversos agentes sociais dentro do campo religioso e da encarnação das tradições nos corpos humanos múltiplos.

Se durante séculos a religião dominante ?" da parcela ocidental europeia do mundo ?" trouxe a imagem da divindade a partir do seu imaginário e do seu ideário, essa concepção de "modelo" se tornou opressora e segregante, fazendo com que todos os outros que não "correspondiam" a essa imagem contemplassem o divino homem branco como "acima de todos". Isso ganhou força com as justificativas teológicas e filosóficas que serviam a essa estrutura "oligárquica" e "colonizadora" e que fortaleciam o racismo e o preconceito, enquanto enchiam os cofres da Igreja e dos poderosos. Sabendo que a "religião é um empreendimento de construção do mundo" (BERGER, 1985, p.15.), não podemos esquecer que o mundo intencionado pela religião cristã dos períodos da idade média e da modernidade (e quiçá até os dias atuais), tem um recorte muito bem definido. Todas as outras narrativas possíveis para o cosmo foram silenciadas aos poucos, seja pela "doutrina", pela guerra, pela condenação ou, de maneira silenciosa, pela invisibilização das vozes dissonantes de dentro da própria instituição. A religião institucionalizada, portanto, busca frear a pulsão humana do encontro com divino, cerceando a experiência a uma série de normas que visam uma "construção intencional de mundo".

Em contrapartida a esse movimento, temos aqueles que percebem a dimensão da espiritualidade de outra maneira e, de forma dialética, buscam apontar como o desvio da religião fez com que a sua originalidade [no sentido de suas características primeiras] se perdesse ao restringir a divindade ao seu discurso ou aos seus agentes. De dentro dos sistemas religiosos, e em diálogo com expressões religiosas não institucionalizadas, a perspectiva contemporânea da religião está reconstruindo as suas noções fundamentais. Enquanto percebemos uma maior liberdade religiosa [pelo menos aparente], um diálogo aproximado entre as denominações e um resgate da pessoa como eixo da experiência, um anacrônico movimento tradicionalista quer silenciar a diferença e a pluralidade. A defesa de sistemas racistas e excludentes é, para aqueles que fazem a defesa, uma atitude racista.

A mudança de perspectiva, portanto, indica que a religião precisa voltar o olhar para si, redescobrindo os seus princípios e colocando no "palco do mundo" uma resposta coerente às necessidades humanas que, no agora, seja capaz de congregar, valorizar e cuidar da dimensão espiritual. Sabendo que o ser humano "não possui uma relação preestabelecida com o mundo" (BERGER, 1985, p.18), temos na religião o poder de apresentar novas narrativas e novos caminhos para superar o racismo, o preconceito e a desigualdade. A consciência da necessidade de uma "conversão" [no sentido originário de alterar o caminho] religiosa da própria religião, para que ela não seja mais um mecanismo de exclusão e opressão, ainda não é claro dentro das "estruturas de poder", pois esse "novo tempo" mexe com os privilégios, dá voz aos que foram deixados de lado por séculos de história e exige um esforço significativo em todos os âmbitos. Alterar a lente pela qual a instituição religiosa enxerga o mundo é um processo lento e doloroso, mas que precisa ser realizado. A dor da reconstrução religiosa é muito pequena em relação a dor que uma religião racista e excludente causa no mundo.

Um elemento significativo em relação ao papel da religião para a superação do racismo é o que, nas palavras de Grada Kilomba (2019), identificamos como "silenciamento". Sob o véu de uma "distorcida" voz de Deus, a comunidade religiosa é silenciada e, em especial, a comunidade negra, pobre e periférica. Diante da poderosa instituição, todos os outros são calados. Diante da voz da branquitude, os negros são impedidos [real e simbolicamente] de se manifestar. Diante de Deus, todos se calam. Ledo engano, porém, uma vez que só existe comunidade religiosa, religião, instituição e locais de culto porque pessoas, com sua particularidade e diversidade, frutificam e fortalecem a fé. Deus, em suas características, pode existir sem os indivíduos, a religião não.

Se detivermos o nosso olhar no cristianismo, ao resgatarmos as escrituras sagradas e a tradição apostólica, vamos perceber que a diversidade é uma das raízes da fé. Camadas e mais camadas de significado foram se sobrepondo à experiência primeira dos cristãos e dando, ao seguimento de Jesus, um aspecto elitista, amante do poder e universalista. Jesus era o oposto: periférico, pobre junto com os pobres, crítico dos sistemas de poder, próximo dos excluídos e marginalizados. Jesus estava próximo de cada um, na sua vida, na sua pessoalidade e na sua existência. Jesus é Palavra encarnada. O cristianismo foi se tornando palavra imposta. Com a formação de um império cristão que almejava conquistar todo o planeta, a invisibilização e o silenciamento se tornaram as armas da Igreja e, chegando ao absurdo, tivemos a declaração "pia" da instituição que determinada "quem era humano ou não".

Com a escravização chancelada pela Igreja que seguia o "evangelho", percebemos que é, além de uma urgência, uma obrigação da religião a superação do racismo, fazendo a tão bradada "autocrítica". A fé advém dos sujeitos eclesiais e precisa compreender que os corpos, múltiplos, constituem o corpo de Cristo. Por muito tempo a religião elevou os olhos para o céu e fingiu não perceber as atrocidades que aconteciam em "nome da fé" e, agora, precisa se curvar para a humanidade na esperança de reencontrar o "divino". A divindade, que escapa às nossas categorias, sempre esteve presente na vida dos seres humanos, na multiplicidade das expressões religiosas, na cultura, na arte, na vida. Quando queremos viver essa manifestação do divino a partir da ótica da religião, precisamos lutar com todas as forças contra a opressão, exclusão e o racismo. Como uma religião que tem por princípio o amor pode oprimir em razão das diferenças? É preciso reconhecer, valorizar e celebrar as diferenças e não as silenciar. A crise da religião é, em larga escala, a evidência da sua hipocrisia. Resgatar os princípios da religião, que nos coloca em comunhão com o divino a partir do amor, da partilha, da justiça e da paz, é a principal necessidade da religião contemporânea na sua luta contra o racismo. Mais do que aderir a um discurso, é preciso colocar em prática uma mudança de estrutura e mentalidade. As diversas religiões precisam olhar para si e reencontrar caminhos. A essência da religião é propor narrativas. Portanto, chega de construir uma imagem de mundo que excluí e causa dor. É hora de dar vez, voz e lugar.

REFERÊNCIAS:

BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG



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