Religião

20/11/2020 | domtotal.com

A fé que canta e dança: a expressão da negritude na religiosidade brasileira

Porosidade religiosa das tradições de matriz africana não desqualifica sua alteridade mas, ao contrário, ratifica-a

Umbandistas cantam e dançam como parte de culto religioso de fim de ano dedicado a Iemanjá na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro
Umbandistas cantam e dançam como parte de culto religioso de fim de ano dedicado a Iemanjá na Praia de Copacabana no Rio de Janeiro (Mauro Pimentel/AFP)

Guaraci Maximiano dos Santos e Glaydson de Oliveira Souza* 

A diáspora africana no século 16 se efetivou com a retirada compulsória dos sujeitos negros, então escravizados, das suas terras, dissipando-os pelo mundo, notadamente nas terras do Brasil. O plano colonial, embasado na suposta supremacia do conhecimento científico e na lógica de salvação conversionista, criou um regime de autorização discursiva que impediu que os demais saberes e experiências não eurocentrados fossem reconhecidos e ouvidos.

Considerava-se que os sujeitos negros bantu oriundos das regiões onde hoje se denomina Angola, Congo e Moçambique viviam na "noite do tempo", ou seja, não partilhavam do tempo histórico, estando fadados a um ciclo interminável de atraso e primitivismo e nesse sentido, fora da civilização. A mesma teoria justificou a fase da segunda colonização, com a destituição da humanidade dos grupos nagô das regiões de Togo, Gana, Nigéria e Benin e consequentemente, dos grupos próximos.

O encobrimento dos conhecimentos desses povos, contudo, não foi suficiente para apagar sua história, nem sua fé, nem suas religiosidades: o epistemicídio das tradições afrodiaspóricas, portanto, nunca se completou.

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A infinidade de tradições de matriz africana que hoje temos no Brasil (candomblés, reinados, encantarias de toda ordem) nascem no período de colonização, mas seria leviano atrelar suas concepções à escravidão: isso porque a base dessas tradições consiste exatamente na resistência às colonialidades do ser e do saber. A constatação de Roger Bastide relida por Abdias Nascimento pela qual "o sincretismo é simplesmente uma máscara posta sobre os deuses negros para benefício dos brancos" (NASCIMENTO, 2016, p. 133) não se confirmou.

Em linhas gerais, é da natureza dessas tradições a reterritorialização e a reinvenção de um dos mais importantes fundamentos da cosmovisão das culturas africanas, que, segundo Leda Maria Martins é "a celebração dos antepassados e a soberania da ancestralidade que se vinculam a uma também diversa concepção e experiência coletiva do tempo (cronos), matizadas pela vivência da temporalidade cósmica que as fecundam". (MARTINS, 1997, p. 43).

Nessa perspectiva, a religiosidade apresentada por essas tradições é indissociável da vida cotidiana dos seus adeptos, não separando, em nenhum momento, das suas realidades. E mais, toda a cosmovisão africana se encontra sob a égide do que hoje denominamos "paradigma ecológico", o que justifica o respeito e a reverência às forças da natureza, bem como a apropriação do espaço público e externo para a prática de rituais e procissões que não se restringem a templos. Se as divindades são representadas pela natureza, nada mais lógico que esta seja devotada e respeitada. Ademais, para essas tradições há "[...] uma conotação de se estar em uma comunidade 'mística-participante constitutiva' numa perspectiva sistêmica existencial, onde os lugares, funções e a ancestralidade legitimam a identidade" do povo negro nativo e também diásporo (SANTOS, 2015, p. 112-113).

Mas, quem seriam os herdeiros dessas tradições e religiosidades que resistem ainda hoje na complexa e dicotômica sociedade brasileira, a mesma que estabelece a laicidade como regra, mas mantém o racismo como estrutura?

Seriam aqueles que compreendem a negritude como qualidade e tem consciência do valor legado pela sua cultura e suas tradições no processo civilizatório e religioso do Brasil?

Ou seriam também aqueles que entendem que o universo é sagrado e merece ser reverenciado assim como as forças vitais, as energias emanadas dos ancestrais, os seres humanos como um todo, as plantas, animais e minerais?

Os herdeiros dessas tradições – os afro-brasileiros que percebem a negritude como uma dádiva – receberam um fabuloso arcabouço de conhecimentos e valores que envolvem a corporeidade e a musicalidade (expressadas pela dança e pela música), a oralidade (matizada pela perenidade dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos), o cooperativismo (revelado pelos laços de reciprocidade nas comemorações religiosas e na partilha dos alimentos), a ludicidade (manifestada na simplicidade como as lições transmitidas) e a circularidade (comum a todos os rituais como fundamento da vida, que é cíclica, e no afã de corroborar que todos estamos interligados).

Esses valores reforçam o caráter agregador da negritude e das tradições afro-brasileiras, que são abertas a todos, independente de classe, gênero e raça, coligado ao fato de não pretenderem a conversão ou a imposição de uma única verdade.

Por sua nobreza, esses valores acabaram sendo absorvidos por outras religiões. Como afirmava Pierre Sanchis "impossível abstrair a vivência das religiões de matriz africana no Brasil de certa impregnação católica, impossível imaginar nosso catolicismo de fato, como despido de ressonâncias africanas" pois existe "um pluralismo de tipo peculiar, que o caráter regulador do catolicismo não conseguiu disfarçar". (SANCHIS, 1997, p. 42)

Essa porosidade religiosa não desqualifica a alteridade das tradições de matriz africana, pelo contrário: informa uma identidade agregadora e dialogal, cuja resiliência propiciou a formação de uma religiosidade autenticamente brasileira. A revelação desses valores civilizatórios e religiosos permite a essas tradições saírem da "grande noite" e através disso validarem o conhecimento de todo um povo, integrando-o de forma indelével na cultura e religiosidade brasileiras.

Referências

COSTA, Valéria; GOMES, Flávio. Religiões negras no Brasil: da escravidão à pós-emancipação. (organizadores). São Paulo: Selo Negro, 2016.

MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória. O Reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza Edições, 1997.

MUNANGA, Kabegele. Negritude: usos e sentidos. 4ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2020.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo marcarado. 3ª Ed. São Paulo: Perspectivas, 2016.

SANCHIS, Pierre. As religiões dos brasileiros. Horizonte- Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 1, n. 2, p. 28-43, 1 ago. 1997.

 SANTOS, Guaraci M. Umbanda, Reinado e Candomblé de Angola: uma tríade bantu na promoção da vida responsável. 2015. 173 f. Belo Horizonte, Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) ?" Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2105.

*Guaraci Maximiano dos Santos. Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Minas/FAPEMIG. Membro do grupo de pesquisa REPLUDI - Religião Pluralismo e Diálogo Inter-religioso (PPG-CR/PUC-Minas). Cooredenador da Comissoão de Psicologia, Laicidade, Espiritualidade, Religião e Outros Saberes Tradicionais da Conselho Regional de Psicologia (CLEROT) seção Minas Gerais. Glaydson de Oliveira Souza. Mestrando em Ciências da Religião pela PUC Minas, Bolsista CAPES. Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Membro dos Grupos de Pesquisa REPLUDI ?" Religião, Pluralismo e diálogo e REDECLID ?" Religião, Educação, Ecologia, Libertação e Diálogo, ambos da PUC Minas



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