Brasil

20/11/2020 | domtotal.com

Testemunha diz que seguranças do Carrefour bateram até a vítima parar de respirar'

Homem diz que outros fiscais do supermercado impediram que as pessoas ajudassem

Imagens mostram espancamento brutal de cliente negro
Imagens mostram espancamento brutal de cliente negro (Reprodução)

Os seguranças que espancaram um cliente negro no Carrefour na noite dessa quinta-feira (19), em Porto Alegre, ignoraram gritos de pessoas que estavam próximas e continuaram as agressões até João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, parar de respirar.  É o que relata Paulão Paquetá, vizinho da vítima que diz ter testemunhado o espancamento brutal que choca o Brasil. Uma manifestação em frente ao supermercado está prevista para as 18h desta sexta-feira (20).

"Estava chegando no local na hora das agressões. Eu estava a uns 10 metros quando começou. Tentamos intervir, mas não conseguimos", relata.

Paulão diz que a esposa de João Alberto também viu o espancamento, mas foi impedida de intervir. "Ela viu o marido sendo morto", lamenta. Segundo ele, cerca de oito seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões.

“Não pararam. A gente gritava 'tão matando o cara', mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto, tipo como foi com o americano (George Floyd, morto por policiais neste ano nos Estados Unidos)."

Presidente da Associação de Moradores e Amigos do Obirici, Paulão estima que as agressões duraram cerca de sete minutos. Ele diz que alguns motoboys que filmaram a violência tiveram os celulares tomados para não registrar toda a ação. "Quando viram que ele parou de respirar, eles se apavoraram. Chamaram a Brigada (Militar), que isolou ali e a Samu tentou reanimar."

Segundo o líder comunitário, a vítima morava no IAPI, bairro nas proximidades do supermercado. "Não é primeira ocorrência do tipo. É a primeira de óbito. Todo mundo sabe que são agressores (seguranças do local) mesmo."

"É muito difícil. Revolta pela maneira que ele foi morto brutalmente. Ser humano nenhum merece ser agredido daquele jeito e de ter a vida ceifada de maneira tão brutal, tão animal."

Assassinato

João Alberto Silveira Freitas foi espancado e morto por dois homens brancos no estacionamento do Carrefour Passo D'Areia, na zona Norte da capital gaúcha na véspera do Dia da Consciência Negra. Um dos agressores é segurança do local e o outro é um policial militar temporário, Não foi esclarecido se ele fazia compras no local ou também atuava como segurança. Os dois foram presos.

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão.

Apuração rigorosa

O assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas levou o governo gaúcho a antecipar o lançamento da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (DPCI) no estado. A informação foi dada pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e pela chefe da Polícia Civil, delegada Nadine Anflor, nesta sexta-feira (20), um dia após o assassinato de João Alberto.

A nova DP será inaugurada no próximo dia 10 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Eduardo Leite destacou que hoje é comemorado o Dia da Consciência Negra e mencionou as políticas que foram adotadas pelo governo em 2019 como o Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis.

"Infelizmente, nesse dia que nós deveríamos estar celebrando essas políticas públicas, nós todos nos deparamos com cenas que nos deixam todos indignados pelo excesso de violência que levou à morte de um cidadão negro num supermercado aqui na capital gaúcha", afirmou Leite.

A delegada confirmou que os detidos foram autuados por homicídio triplamente qualificado, por asfixia e impossibilidade de resistência da vítima. Conforme Eduardo Leite, o caso terá uma apuração rigorosa. "Todo o esforço do Estado na apuração e para que os responsáveis por este crime enfrentem a Justiça, tendo a oportunidade da defesa. As cenas são incontestes de que houve excessos que deverão ser apurados e dada a consequência para este crime", reiterou.

Sobre o envolvimento de um policial militar temporário na morte de João Alberto, o comandante da Brigada Militar, Coronel Rodrigo Mohr Picon, afirmou que ele deverá ser demitido. "Ele deve ser retirado da corporação e responder civilmente pelo crime", disse o militar.


Agência Estado/DomTotal



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