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24/11/2020 | domtotal.com

ESG - Ambiental, Social e Governança

Progressos alcançados ainda estão longe de serem suficientes

As questões de ESG só atingirão o núcleo dos negócios quando a pressão dos consumidores forçar o mercado a se adaptar
As questões de ESG só atingirão o núcleo dos negócios quando a pressão dos consumidores forçar o mercado a se adaptar (Unsplash/Hamza Javaid)

José Antonio de Souza Neto*

O impacto ambiental, social e de governança (ESG) das empresas em todo o mundo está assumindo um nível de importância cada vez maior, à medida que aumenta a conscientização sobre o efeito que diferentes modelos de negócios podem ter no bem-estar da sociedade. As questões e os problemas climáticos não podem ser ignorados. Questões como biodiversidade e infraestrutura sustentável ganham cada vez mais atenção. Ao mesmo tempo, líderes empresariais estão sendo incentivados a considerar a inclusão da força de trabalho e outras questões de capital humano em suas estratégias de negócios. Estes líderes precisam ter um entendimento dos riscos potenciais à reputação que podem surgir se qualquer questão ESG não for tratada de forma adequada.

São abrangentes e muitos relevantes os fundamentos do contexto ESG. Pela perspectiva ambiental estamos falando, dentre outras coisas, sobre gestão de resíduos e efluentes, eficiência energética, poluição, emissões de gases de efeito estufa e uso de recursos naturais. Pela perspectiva social, estamos falando de direitos humanos, diversidade e inclusão, relações de trabalho, privacidade e proteção de dados e relações com comunidades dentre outros aspectos. Finalmente, com relação à governança, estamos nos referindo ao funcionamento dos conselhos de administração, composição destes conselhos, ética e transparência, comitês de auditoria e fiscal e diversidade.

Ao longo dos últimos anos, os investidores em todo o mundo têm se envolvido cada vez mais com o conceito de "investimento responsável". Isto é o resultado de uma conscientização cada vez maior sobre as questões às quais nos referimos acima. ESG está se tornando uma prioridade e sua aplicação varia entre empresas, setores e regiões. Os principais motivos para as empresas se envolverem no ESG são por causa da reputação, preocupações com a marca e o impacto que isso tem nas expectativas dos principais interessados. Segundo estudo da KPMG, as empresas e suas lideranças estão, no entanto, se movendo em um ritmo diferente
em relação aos padrões ESG, com a importância desta perspectiva variando amplamente entre setores e empresas.

Uma pesquisa com 900 conselheiros realizada pela KPMG em 41 países apontou os seguintes resultados:

  • 50% dos diretores dizem que o ESG melhora o desempenho e a posição competitiva de suas organizações;
  • ESG parece ainda não estar no cerne dos negócios, isto é, realmente integrado ao negócio principal;
  • Há um espaço significativo para melhorar a supervisão dos princípios/modelos ESG.

A constatação de que o ESG, de um modo geral, ainda está na "periferia" dos principais processos de negócios é o principal desafio. Isto acontece quando agentes relevantes consideram o ESG como branding/marketing "suave" e não o vinculam ao core business das empresas devido à ausência, por exemplo, de medição de desempenho e KPIs (Key Performance Indexes – Indicadores Chave de Desempenho) adequados. A pressão para entregar resultados de curto prazo e um funcionamento deficiente das estruturas de governança também são fatores restritivos. Desta forma, os principais motivadores acabam sendo a pressão dos clientes e funcionários e o impacto potencial na reputação da empresa.

De toda forma, o surgimento de novas tecnologias e a crescente importância das questões ambientais e sociais aumentaram a conscientização em todo o mundo. Estamos observando uma mudança na dinâmica da função do mercado. Anteriormente, as marcas "educavam"/induziam os consumidores de todas as formas possíveis. Agora que uma nova dinâmica de baixo para cima está se tornando a norma, uma marca pode perder sua base de clientes com um tweet, perder parcerias e investimentos e até sofrer boicote em escala mundial. O sistema capitalista, por um longo período ao longo de seu amadurecimento, teve o retorno de curto prazo como uma prioridade para a alta administração das organizações. Com as questões ESG sendo adicionadas à equação, os acionistas têm compreendido de maneira cada vez mais clara que se estas questões não são administradas de maneira adequada, a estratégia de resultados de curto prazo pode prejudicar muito o negócio. E tentar reverter este tipo de situação, quando ainda for possível, pode requerer muito mais do que uma cosmética atualização de suas políticas de RSC (Responsabilidade Social Corporativa).

O fato, como mencionamos anteriormente, é que ainda e muitas vezes o ESG tem sido visto mais como um padrão de "conformidade" para a sociedade do que uma ferramenta poderosa que pode se transformar em uma vantagem competitiva. ESG se levado a sério não tem que ser uma "marca suave". Pode ser uma oportunidade de ter um impacto positivo no planeta, criando um novo vínculo com diferentes partes interessadas, criando parcerias duradouras e significativas, criando uma comunidade e não apenas uma base de consumidores. E ainda gerando muita riqueza aos acionistas.

Um outro elemento técnico que merece menção, se refere às iniciativas de agências de classificação de risco (agências de rating) que têm desenvolvidos metodologias para mensuração de riscos inerentes ao não tratamento adequado por parte das empresas avaliadas das questões ESG. Os scorecards de avaliação de crédito da S&P Global Market Intelligence, por exemplo, fornecem uma metodologia estruturada para avaliar o risco de crédito, gerando pontuações de crédito que são projetadas para se alinhar amplamente com as classificações de crédito da S&P Global Ratings. Sem uma boa classificação de risco, a dificuldade das empresas para obterem recursos operacionais ou para investimentos através dos mercados financeiros aumenta significativamente ou até se inviabiliza.

Em setembro deste ano de 2020, a Suzano, produtora brasileira de papel e celulose, inovou ao vender um dos primeiros títulos vinculados à sustentabilidade de um emissor de um mercado emergente e o primeiro no formato/modelo recentemente acordado por instituições do mercado de capitais para atender especificamente aos princípios ESG. No entanto, apesar de ser um marco, o negócio também destacou as controvérsias relacionadas à modelagem. Apesar do sucesso de preços, ainda permaneceram dúvidas sobre o real impacto ambiental da iniciativa. Muitos argumentaram que a maioria dos investidores foi atraída menos pelo elemento ESG e mais pelos sólidos fundamentos de crédito da empresa, classificação de grau de investimento e posição em um setor em grande parte não afetado pela pandemia. De toda forma não se pode negar que foi um evento relevante inclusive pelo seu simbolismo.

Ainda assim, alguns não estão convencidos sobre o verdadeiro impacto que esses tipos de negócios podem ter, especialmente quando se trata de avançar nas metas de sustentabilidade. As questões de ESG só atingirão o núcleo dos negócios quando a pressão dos consumidores forçar o mercado a se adaptar. Outras iniciativas estariam relacionadas à implementação de regulamentações governamentais. Embora muita coisa já esteja em andamento, há um consenso de que há espaço para muitas melhorias. Progressos alcançados ainda estão longe de serem suficientes e este é um assunto que está inexoravelmente ligado ao enorme desafio de construir uma melhor governança global.

*José Antonio de Souza Neto é professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



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