Religião

25/11/2020 | domtotal.com

Mulheres não precisam ser padres para liderar a Igreja, diz Francisco em novo livro

Papa tem colocado mulheres em posição de liderança sem lhes clericalizar

A diretora dos Museus Vaticanos, Barbara Jatta,
A diretora dos Museus Vaticanos, Barbara Jatta, (Andreas Solaro/ AFP)

Joshua J. McElwee Vaticano*
NCR

O papa Francisco defendeu fortemente seu histórico de nomear mulheres para cargos de autoridade no Vaticano, dizendo em um novo livro que as mulheres não precisam ser padres para servir como líderes na Igreja Católica global.

No volume Vamos sonhar juntos: o caminho para um futuro melhor, que será lançado em 1º de dezembro, o pontífice aponta particularmente para a nomeação da italiana Barbara Jatta na direção dos Museus do Vaticano em 2016 e para várias outras mulheres que nomeou subsecretárias de vários departamentos do Vaticano.

Francisco também observa que nas dioceses católicas em todo o mundo, as mulheres frequentemente ocupam cargos de liderança, administrando escolas católicas ou sistemas hospitalares, ou conduzindo departamentos diocesanos.

"Talvez por causa do clericalismo, que é uma corrupção do sacerdócio, muitas pessoas acreditam erroneamente que a liderança da Igreja é exclusivamente masculina", afirma o papa no livro. "Dizer que as mulheres não são realmente líderes porque não são padres é clericalista e desrespeitoso", acrescenta.

No novo livro de 154 páginas, um esforço colaborativo com a autora britânica Austen Ivereigh, Francisco reflete amplamente sobre como o mundo deve mudar após a pandemia do coronavírus, para lidar melhor com as desigualdades sociais, políticas e econômicas.

Mas o pontífice também aponta para uma série de outros tópicos, incluindo sua frustração com a forma como a mídia mundial cobriu o debate no Sínodo dos Bispos do ano passado sobre a possibilidade de permitir padres casados na região amazônica de nove nações.

Em questões sociais, Francisco aborda os protestos desencadeados pela morte de George Floyd, reitera veementemente suas críticas frequentes ao sistema capitalista de mercado e expressa seu apoio a propostas para que as pessoas recebam uma renda básica universal, ou um pagamento regular do governo que atenda às necessidades básicas como comida e lar.

"Reconhecer o valor para a sociedade do trabalho das pessoas que ganham muito pouco é uma parte vital de nosso repensar no mundo pós-Covid", afirma o papa sobre o último assunto. "É por isso que acredito que é hora de explorar conceitos como a renda básica universal".

O pontífice traz à tona a questão das mulheres servindo na Igreja como parte de uma reflexão de seis páginas sobre o "papel de liderança" que as mulheres desempenharam durante a pandemia. Francisco diz que os países com mulheres no comando "em geral reagiram melhor e mais rapidamente do que outros, tomando decisões com rapidez e comunicando-as com empatia".

As palavras do papa sobre as mulheres na Igreja são impressionantes, pois parece ser a primeira vez que o papa se dirige diretamente aos críticos que dizem que ele não fez o suficiente para promover as mulheres a posições de autoridade.

Francisco diz que tentou "criar espaços onde as mulheres possam liderar, mas de maneiras que lhes permitam moldar a cultura, garantindo que sejam valorizadas, respeitadas e reconhecidas".

O papa assinalou também que se concentrou em nomear mulheres como consultoras de várias congregações do Vaticano, "para que possam influenciar o Vaticano enquanto preservam sua independência dele".

"Mudar a cultura institucional é um processo orgânico que exige integrar, sem clericalizar, os pontos de vista das mulheres", afirma o sumo pontífice.

Além da nomeação de Jatta, o santo padre aponta para a nomeação de Linda Ghisoni e Gabriella Gambino como subsecretárias no Dicastério Vaticano para Leigos, Família e Vida; e a nomeação de Francesca Di Giovanni como subsecretária da Secretaria de Estado do Vaticano.

Mais tarde, no volume, Francisco parece repreender aqueles que fazem campanha pela ordenação de mulheres.

Em uma seção, Francisco se concentra amplamente na reflexão sobre como alguns católicos conservadores continuam criticando as reformas do Concílio Vaticano II de 1962-65, o papa diz que algumas pessoas demonstram uma "consciência isolada" e "permanecem amontoadas em 'seu' grupo de puritanos, como guardiães da verdade".

"Sob a bandeira de restauração ou de reforma, as pessoas fazem longos discursos e escrevem infindáveis artigos oferecendo esclarecimentos doutrinários ou manifestos que refletem pouco mais do que as obsessões de pequenos grupos", afirma o pontífice.

"Aqueles que declaram que há muita 'confusão' na Igreja, e que apenas este ou aquele grupo de puristas ou tradicionalistas podem ser confiáveis, semeiam a divisão", Francisco continua, acrescentando: "O mesmo é verdade para aqueles que afirmam que até a Igreja ordenar mulheres como prova de seu compromisso com a igualdade de gênero, as paróquias locais ou os bispos não podem contar com seu envolvimento".

Vamos sonhar juntos se desdobra em três partes e aborda a situação atual do mundo com o método ver-julgar-agir. Francisco é listado como o autor do volume, "em conversa com" Ivereigh.

Em uma entrevista por e-mail com o National Catholic Reporter, Ivereigh disse que o processo de redação da primeira parte do volume envolveu o envio de perguntas ao papa, que respondeu com gravações de voz. A segunda e a terceira parte foram redigidas primeiro por Ivereigh e, em seguida, editadas e revisadas por Francisco.

"Ele me deu uma grande liberdade, mas depois revisava tudo em detalhes, eliminando, acrescentando e mudando", disse Ivereigh, que também escreveu duas biografias de Francisco. "É realmente seu livro, em todos os sentidos".

Ivereigh disse que ela e o papa decidiram não fazer um formato tradicional de perguntas e respostas para que a narrativa fosse mais natural para o leitor, que poderia sentir "como se estivesse sentado com ou na frente de Francisco, falando para os leitores pessoalmente".

Ivereigh detém os direitos autorais do volume. Embora a autora tenha dito que não tem permissão para divulgar detalhes contratuais específicos, disse ao NCR que "consideravelmente mais da metade" dos royalties foram prometidos para apoiar as pessoas afetadas pela crise do Covid-19, por meio de um fundo que está sendo administrado pelo Dicastério do Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral.

Francisco fala sobre o assassinato de George Floyd, um homem negro desarmado de 46 anos que morreu em consequência da asfixia de um policial ajoelhado em seu pescoço por mais de oito minutos, como parte de uma seção no início do livro sobre abuso de poder na Igreja e em todo o mundo.

Falando primeiro sobre a crise dos abusos clericais, o papa diz que está tentando "engendrar uma cultura de cuidado capaz de responder rapidamente às acusações".

"A criação dessa cultura levará tempo, mas é um compromisso inevitável no qual devemos fazer todos os esforços para insistir", disse o pontífice.

Voltando-se para a morte de Floyd, Francisco a chama de "horrível". Ele também elogia alguns dos protestos que ocorreram em todo o mundo contra a injustiça racial, mas adverte que tais protestos "correm o risco de serem manipulados e comercializados".

"Digo isso não para lançar dúvidas sobre as muitas tentativas genuínas e corajosas de descobrir a corrupção do abuso e dar voz às vítimas, mas para alertar que às vezes também encontramos o mal dentro do bem", afirma o pontífice.

"Acho triste que existam advogados que se aproveitam das vítimas de abuso, não querendo ajudá-las e defendê-las, mas lucrar com elas", acrescenta.

Francisco fala sobre as discussões do ano passado sobre a possibilidade de permitir padres casados na região amazônica como parte de uma seção posterior do livro sobre como usou o Sínodo dos Bispos, uma instituição criada pela primeira vez pelo papa Paulo VI no final do Vaticano II.

O papa expressa seu desapontamento com o que chama de "fantasia" de que o Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica de 6 a 27 de outubro de 2019, que envolveu cerca de 185 prelados, foi apenas sobre a questão dos viri probati, ou homens casados que podem ser ordenados sacerdotes.

Embora o documento final do sínodo exortasse Francisco a permitir a ordenação de homens casados em uma base regional, Francisco se recusou a responder a esse pedido em sua resposta ao sínodo, a exortação apostólica Querida Amazônia de fevereiro de 2020.

"Muitos ficaram desapontados ou aliviados porque 'o papa não abriu aquela porta'", afirma o pontífice sobre sua exortação. "Era como se ninguém estivesse interessado nos dramas ecológicos, culturais, sociais e pastorais da região; o sínodo tinha 'falhado' porque não autorizava a ordenação dos viri probati".

Francisco diz que o processo sinodal envolve o diálogo, a discussão e a tentativa de discernir o que o Espírito Santo está chamando a Igreja a fazer.

"São processos que levam tempo, que exigem maturidade, perseverança e decisão", afirma. "Eles pedem espalhar sementes que outros possam colher".

Além da Igreja ou das questões sociais, Francisco também fala de maneira bastante pessoal ao longo do volume, revelando informações sobre si mesmo e suas experiências anteriores.

O papa diz, por exemplo, que sua própria provação por ter removido parte de um pulmão devido a uma experiência de quase morte com pneumonia em 1957 deu a ele "uma noção de como as pessoas com coronavírus se sentem enquanto lutam para respirar nos ventiladores".

O pontífice revela ainda que nunca conseguiu terminar uma tese que pretendia escrever sobre o intelectual alemão padre Romano Guardini.

Francisco diz que pensou que poderia terminar o trabalho em 2012, quando completou 75 anos e apresentou sua renúncia como arcebispo de Buenos Aires ao papa Bento XVI. Ele acrescenta, ironicamente: "Mas em março de 2013 fui transferido para outra diocese".

Publicado originalmente em NCR


Tradução: Ramón Lara

*Joshua J. McElwee é correspondente do NCR no Vaticano. Seu endereço de e-mail é jmcelwee@ncronline.org. Siga-o no Twitter: @joshjmac



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!