Brasil Política

25/11/2020 | domtotal.com

Eduardo Bolsonaro critica China, que diz que Brasil poderá 'arcar com consequências'

Filho do presidente cria incidente diplomático com maior parceiro comercial do país

O deputado volta a demonstrar preconceito contra a China por motivação ideológica
O deputado volta a demonstrar preconceito contra a China por motivação ideológica (Marcelo Carmargo/ABr)

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, usou as redes sociais para fazer comentários ofensivos à China, causando mais um incidente diplomático entre os dois países. Eduardo acusou a China de que a rede 5G, disputada por vários países, se fosse adotada no Brasil por alguma empresa chinesa, abriria a porta para a prática de espionagem do país asiático no país.

Na mensagem, Eduardo Bolsonaro fez menção à adesão simbólica do Brasil à Clean Network (Rede Limpa), iniciativa diplomática do governo Donald Trump para tentar frear o avanço de empresas chinesas no mercado global de 5G.

A Embaixada da China em Brasília reagiu à acusação e acionou o Itamaraty para reclamar de uma publicação de Eduardo nas redes sociais, posteriormente apagada por ele. Para a diplomacia chinesa, o parlamentar "solapou" a relação amistosa entre os países com declarações "infames", e o Brasil poderá "arcar com consequências negativas". Esse é o segundo atrito diplomático com a China criado pelo deputado por causa de militância virtual.

A atitude, irresponsável do ponto de vista diplomático, atesta a visão ideológica do governo e coloca em risco os interesses nacionais. O Itamaraty, reconhecido internacionalmente por sua postura multilateral e conciliadora, tem sido motivo de descrédito no âmbito da diplomacia mundial com uma política errática e submissa à lógica isolacionista de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos derrotado nas urnas recentemente.

Na mensagem, Eduardo Bolsonaro fez menção à adesão simbólica do Brasil à Clean Network (Rede Limpa), iniciativa diplomática do governo Trump para tentar frear o avanço de empresas chinesas no mercado global de 5G. O filho 03 de Bolsonaro, como é chamado pelo pai, celebrou o fato como um sinal de que o Brasil "se afasta da tecnologia da China". "O governo Jair Bolsonaro declarou apoio à aliança Clean Network, lançada pelo governo Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China", escreveu o parlamentar. Ele também listou o Partido Comunista Chinês como "entidade agressiva e inimiga da liberdade".

A diplomacia chinesa, conhecida por sua postura moderada, não manteve seu padrão de conduta, diante das palavras do deputado. "Na contracorrente da opinião pública brasileira, o deputado Eduardo Bolsonaro e algumas personalidades têm produzido uma série de declarações infames que, além de desrespeitarem os fatos da cooperação sino-brasileira e do mútuo benefício que ela propicia, solapam a atmosfera amistosa entre os dois países e prejudicam a imagem do Brasil", escreveu a embaixada, em nota.

"Acreditamos que a sociedade brasileira, em geral, não endossa nem aceita esse tipo de postura. Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral", diz o comunicado.

A disputa pela adoção da tecnologia 5G tem mobilizado o governo norte-americano de Trump em todo o mundo e, no Brasil, já foi alvo de controvérsias e pressões. O programa de Washington tenta convencer governos estrangeiros - por meio de pressão política e até com oferta de financiamento - a somente permitir em suas redes 5G equipamentos de fornecedores não-chineses, que eles consideram "confiáveis". O governo norte-americano acusa as empresas de origem chinesa, como Huawei e ZTE, de serem obrigadas a permitir acesso do governo chinês a suas redes, o que supostamente abriria uma brecha para vigilância.

Os Estados Unidos trabalham para que Bolsonaro decrete o banimento da Huawei como fornecedora após o leilão do 5G previsto para 2021, o que ainda não foi decidido pelo Palácio do Planalto. Segundo Pequim, a iniciativa do governo Donald Trump "discrimina a tecnologia 5G da China". A empresa Huawei é uma das principais fornecedoras de estrutura de telecomunicações no Brasil, usada pelas maiores operadoras de telefonia, tendo por isso vantagens no entendimento de executivos do setor.

"O governo chinês incentiva empresas chinesas a operar com base em ciência, fatos e leis enquanto se opõe a qualquer tipo de especulação e difamação injustificada contra empresas chinesas. Os EUA têm um histórico indecente em matéria de segurança de dados. Certos políticos norte-americanos interferem na construção da rede 5G em outros países e fabricam mentiras sobre uma suposta espionagem cibernética chinesa, além de bloquear a Huawei visando alcançar uma hegemonia digital exclusiva. Comportamentos como esses constituem uma verdadeira ameaça à segurança global de dados", reagiu a China.

A diplomacia reativa orientada pelo presidente chinês Xi Jinping afirmou que as declarações de Eduardo Bolsonaro são "infundadas" e "prestam-se a seguir os ditames dos EUA no uso abusivo do conceito de segurança nacional para caluniar a China e cercear as atividades de empresas chinesas". "Isso é totalmente inaceitável para o lado chinês e manifestamos forte insatisfação e veemente repúdio a esse comportamento. A parte chinesa já fez gestão formal ao lado brasileiro pelos canais diplomáticos", informou o porta-voz da embaixada.

Ruídos desnecessários

É a segunda vez que a diplomacia chinesa reage a publicações de Eduardo Bolsonaro. Ele chegou a culpar o governo do país e o Partido Comunista Chinês pela pandemia da Covid-19. Na ocasião, o embaixador Yang Wanming reagiu na rede social e disse que o deputado estava infectado por um "vírus mental". Na ocasião, o chanceler Ernesto Araújo, porém, repreendeu a atitude do deputado, embora sua postura não condiga com o ato específico.

A embaixada chinesa citou dados da relação bilateral entre os países, como a condição de maior parceiro comercial de Brasília há 11 anos, e o fornecimento de materiais e compartilhamento de experiências durante a pandemia da covid-19. Entre janeiro e outubro, afirmou Pequim, as exportações brasileiras foram de US$ 58,4 bilhões, ou 33,5% do total de exportado pelo Brasil.

"As cooperações na telecomunicação e em outros setores foram construídas sobre bases sólidas e alcançaram avanços a passos largos. A China é um amigo e um parceiro do Brasil e que a cooperação bilateral impulsiona o progresso de ambos os países e traz benefícios para os dois povos", afirmou a embaixada.

O deputado Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, disse que Eduardo é "irresponsável" e cobrou providências no Legislativo e no Judiciário. Crítico da ideologia na política externa bolsonarista, ele preside a Comissão de Agricultura na Câmara e vê riscos a produtores brasileiros que têm a China como principal mercado.

"Até quando vamos dar asas a esse irresponsável? O pior é que o pai nada faz. Estão colocando em risco o País com essa ideologia insana. 5G e vacina chinesa. Os Bolsonaros vão perder ambas batalhas, pois perderam o instrutor de loucos chamado Trump, e a cada dia os Bolsonaros perdem credibilidade e apoio, tanto no Brasil, como no mundo", reclamou Pinato. "Acho que chegou a hora de a Câmara dos Deputados e o STF tomarem providências urgentes. Não é crível que um deputado federal irresponsável e sem noção possa colocar em risco a já combalida economia do Brasil e ninguém faz nada para cessar as calúnias postadas contra nossa maior parceira comercial, a China."

Mesmo apagando a postagem nas redes sociais, a mensagem foi anotada. E relações diplomáticas e confiança são construídas ao longo de anos. Uma única declaração de um parlamentar brasileiro macula a imagem do país, prejudica as relações bilaterais com o maior parceiro comercial do país e reflete a infantilidade de um pensamento inconsequente e ideológico de adoração a um governo derrotado nos Estados Unidos. O mundo é bem mais complexo do que supõe Eduardo Bolsonaro.

A menos que o 03 seja capaz de rebater esta ameaça chinesa: "Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil".


Dom Total/Agências



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