Mundo

25/11/2020 | domtotal.com

Vence o prazo do ultimato do governo da Etiópia para dissidentes da região do Tigré

Premiê Abiy Ahmed promete atacar Mekele, com 500 mil habitantes, que temem massacre

Dois garotos brincam em frente a hotel danificado por bombardeios em Humera, na Etiópia
Dois garotos brincam em frente a hotel danificado por bombardeios em Humera, na Etiópia (Eduard Soteras/AFP)

Terminou na noite desta quarta-feira (25) o prazo de 72 horas dado pelo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, aos dissidentes que controlam o governo da região de Tigré, no Norte do país, para uma rendição. No ultimato, Ahmed prometeu um ataque "sem piedade". Após três semanas de conflito com os separatistas da região norte, a expectativa de um ataque a Mekele faz seus 500 mil habitantes temerem o pior.

O governo central disse que suas forças controlaram a maior parte da região de Tigré, e agora estão posicionadas a cerca de 50 quilômetros da capital regional, Mekele, sede do governo local da Frente Popular de Libertação do Tigré (FLPT). Um porta-voz militar, o coronel Dejene Tsegaye, declarou: "Queremos enviar uma mensagem à população de Mekele para que se proteja de qualquer ataque de artilharia e se liberte da FLPT. Depois disso, não haverá misericórdia", disse, incitando a população a fugir.

Antes do término do prazo, o governante do Tigré, Debretsion Gebremichael, afirmou que seu povo está "pronto para morrer" e negou o cerco das tropas federais. O líder da FLPT disse que suas forças sofreram um mínimo de baixas enquanto um grande número de soldados federais foi morto. "Ele (Abiy) não entende quem nós somos. Somos um povo de princípios e estamos prontos para morrer em defesa do nosso direito de administrar a região."

No Twitter, a diretora da Human Rights Watch para o Chifre da África, Laetitia Bader, afirmou que o governo estava ameaçando os moradores da capital de Tigré. "Tratar uma cidade inteira como um alvo militar não seria apenas ilegal, como também pode ser considerado uma forma de punição coletiva", escreveu Bader.

Mais de 100 deslocados

Desde o início do conflito, em 4 de novembro, a região foi isolada e as linhas de telefone e cabos de internet foram cortados, impedindo uma verificação independente dos desdobramentos do confronto, mas relatos falam em centenas de mortos, além de um massacre em Mai Kadra, denunciado como possível crime de guerra. Segundo autoridades da região, 100 mil pessoas já tiveram de deixar suas casas por causa dos confrontos, sendo que cerca de 40 mil etíopes fugiram para o vizinho Sudão.

As velhas tensões entre o governo central e a FPLT, que controlou o aparato político e de segurança etíope por três décadas antes de ser gradualmente afastada do poder por Abiy Ahmed, atingiram seu ápice após uma consulta feita em Tigré em setembro. O processo foi descrito como "ilegítimo" pelo governo. O chefe de governo, que qualifica a ofensiva militar como uma "operação de manutenção da ordem", justifica esta intervenção contra a FPLT como imperativa para "preservar a ordem política e constitucional" deste país federal.

Tentativa de mediação

Apesar das divergências entre países africanos e europeus, o Conselho de Segurança da ONU realizou sua primeira reunião sobre o conflito na terça-feira (24), sem uma declaração conjunta ao final. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, os Estados Unidos e a União Europeia fizeram um apelo pelo fim dos combates iniciados em 4 de novembro.

A União Africana (UA), que tem sua sede na capital etíope de Addis Abeba, lançou uma tentativa de mediação, a cargo de três ex-presidentes africanos. O governo etíope reiterou sua rejeição a tal iniciativa neste momento, esclarecendo que "falaria com estes enviados por respeito aos líderes africanos".

O primeiro-ministro, vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2019, rejeita qualquer "interferência nos assuntos internos" da Etiópia. "Respeitosamente pedimos à comunidade internacional que se abstenha de qualquer interferência não desejável e ilícita e que respeite os princípios fundamentais de não intervenção do direito internacional", disse Abiy Ahmed em comunicado na quarta-feira. "Como um Estado soberano, a Etiópia tem o direito de garantir e aplicar suas leis em seu território. E é exatamente isso que estamos fazendo", acrescentou.

A ONU e outros grupos de ajuda humanitária dizem estar extremamente preocupados com a segurança dos mais de 500 mil moradores de Mekele, incluindo cerca de 200 trabalhadores humanitários, que podem ser afetados pelo conflito, disse Saviano Abreu, porta-voz do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários. "Pedimos a todas as partes do conflito que cumpram suas obrigações segundo o Direito Internacional Humanitário e protejam os civis e a infraestrutura civil", disse.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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