Coronavírus

26/11/2020 | domtotal.com

O desafio de levar a vacina do Covid-19 a todos os cantos da América Latina

Armazenar e distribuir as vacinas aparece como o principal obstáculo.

América Latina tem um conjunto de circunstâncias geográficas, sociais, econômicas e logísticas que dificultarão qualquer campanha de vacinação contra a covid-19
América Latina tem um conjunto de circunstâncias geográficas, sociais, econômicas e logísticas que dificultarão qualquer campanha de vacinação contra a covid-19 (JOEL SAGET/AFP)

A América Latina tem regiões remotas e impenetráveis; megalópoles e cidades na miséria sem serviços básicos; florestas tropicais, montanhas altas, deserto, fenômenos naturais devastadores e algumas economias duramente afetadas - um conjunto de circunstâncias que não facilitarão a vacinação contra o coronavírus.

Como se não bastasse, a região mais castigada pela pandemia não está imune à desconfiança gerada pela vacina entre alguns setores, uma consequência da desinformação.

O transporte "aos locais mais afastados das grandes cidades e para bairros periféricos, com a conservação da rede de frio" para a vacina será o primeiro desafio, mas também há a dificuldade em contar com recursos humanos capacitados para o manuseio adequado das vacinas, disse o epidemiologista colombiano Carlos Trillos.

A região já teve uma amostra de como será a campanha de vacinação ao tentar levar os cuidados e medidas contra o coronavírus aos três milhões de indígenas espalhados pela Amazônia, um território de 7,4 milhões km2, quase sete vezes o tamanho da Espanha.

No Brasil, com 212 milhões de habitantes e um excelente programa de vacinas "gratuito e com capacidade de alcançar as áreas mais remotas", os obstáculos poderão vir da "postura do presidente" Jair Bolsonaro, um cético da pandemia, "e da eventual resistência da população" em se vacinar, disse Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência.

Desafiador e caro

Enquanto o mundo festeja os primeiros resultados promissores dos ensaios de algumas vacinas, os governos da região tentam concluir planos para imunizar a maioria de seus habitantes, um processo que será "desafiador e caro", estimou o subdiretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa.

Cerca de 12,5 milhões dos 630 milhões de latino-americanos se infectaram com coronavírus, e ao menos 435 mil morreram, um terço do total das vítimas mortais da pandemia no planeta, segundo um balanço realizado pela AFP com base em informações oficiais.

A Opas espera distribuir vacinas na região entre março e maio de 2021, por meio do Covax, um mecanismo implementado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir acesso igualitário em uma corrida em que as nações emergentes têm mais a perder.

Todos os países da América Latina e Caribe apresentaram seu interesse em participar do Covax, embora alguns não tenham capacidade para comprar as vacinas, detalhou Barbosa.

Este mecanismo fornecerá doses, no entanto, para alcançar apenas entre 10% e 20% das populações, o que levou muitos governos a assinarem outros acordos bilaterais com laboratórios e empresas de biotecnologia.

A vacina será administrada gratuitamente. Em uma primeira fase, as campanhas serão destinadas aos profissionais da saúde, trabalhadores essenciais e, em alguns casos, idosos, ou pessoas com condições que gerem maior risco de desenvolver formas graves da Covid-19.

Em um momento de contrações históricas, devido ao impacto da pandemia, as economias latino-americanas tiveram de alocar grandes quantias de dinheiro para essas pré-compras.

Países de baixa renda como Bolívia, Haiti, Guiana e várias ilhas do Caribe apostam em sua condição de elegibilidade pelo Covax para receber vacinas sem estabelecer fundos, assim como El Salvador, Honduras e Nicarágua, muito afetados pelos ciclones Iota e Eta.

As últimas projeções do Covax estimam que vacinar apenas 20% da população da região custará mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,63 bilhões).

Logística complexa

Armazenar e distribuir as vacinas aparece como o principal obstáculo.

Entre as que lideram a corrida, as da Pfizer/BioNTech precisam ser mantidas a cerca de 70 graus abaixo de zero, o que restringirá seu fornecimento às grandes cidades, estimam os especialistas.

Manter a temperatura baixa "é um desafio para todos os países", disse Barbosa. Mas "há mais de 100 vacinas em desenvolvimento (...), as outras que estão mais perto de concluir os ensaios clínicos usam a mesma rede de frio que os países já utilizam", em variações de -15 gaus a -25 graus, ou de 2 a 8 graus.

A Argentina, que assinou acordos que até agora garantem a vacina para 28 de seus 44 milhões de habitantes, encarregará as Forças Armadas da logística da operação, que poderá ser feita nos centros de saúde, ou nas escolas.

Crise e desinformação

Peru, o país latino-americano com mais mortos por milhão de habitantes (1.081) e que enfrenta uma severa crise institucional com a destituição e a renúncia de uma sequência de presidentes, garantiu até agora 9,5 milhões de vacinas e negocia com laboratórios para cobrir 24,5 dos 31 milhões de peruanos.

A Venezuela anunciou um acordo com a Rússia para receber 10 milhões de vacinas Sputnik V no primeiro trimestre de 2021 e disse que a vacinação em massa começa em abril.

Segundo o diretor da ONG local Médicos Unidos, Virgilio Vásquez, o problema na Venezuela vai muito além de contar com infraestrutura e equipamentos para suportar a rede de frio.

"As vacinas precisam chegar não só aos grandes hospitais, mas também aos ambulatórios de populações remotas (...). Mesmo dotando os centros de saúde de equipamentos que hoje não existem, haveria o grave problema de energia, com regiões que ficam sem luz por horas todos os dias", destacou Vásquez.

Até agora, este é o panorama:

- Argentina

Tem acordos prévios que vão abranger 28 milhões de pessoas, independentemente de serem vacinas de uma ou duas doses. A Argentina tem 44 milhões de habitantes. Além de produzir a vacina Oxford/AstraZeneca junto com o México para distribuição em toda a região exceto Brasil, o governo anunciou a compra de 25 milhões de doses da russo Sputnik V.

- Brasil

Com 212 milhões de habitantes, possui acordos bilaterais e também aderiu ao Covax, mecanismo da OMS. O governo federal firmou com a Oxford/AstraZeneca a compra e produção de doses para vacinar 65 milhões de pessoas no primeiro semestre de 2021 e outros 65 milhões no segundo.

- Chile

Vários acordos foram assinados para imunizar seus 18 milhões de habitantes. O Covax garante 8 milhões de doses; Pfizer-BioNtech, 10 milhões. Também reservou 14,4 milhões de doses da vacina AstraZeneca/Oxford e 20 milhões do laboratório Sinovac, na China. A campanha teria início no primeiro trimestre de 2021.

- Colômbia

Negocia acordos com Pfizer, AstraZeneca, Janssen, Sinopharm, CanSino e o Serum Institute of India. O país espera que o primeiro semestre de 2021 possa vacinar inicialmente 15 milhões de seus 49 milhões de habitantes: 10 milhões pelo mecanismo Covax e 5 milhões por compras bilaterais.

- Costa Rica

O governo tem três acordos (Pfizer, AstraZeneca e Covax) que preveem a entrega no primeiro trimestre de 2021 de 6 milhões de doses para 3 milhões de pessoas em uma população de 5 milhões.

- Cuba

Cuba tem experiência na obtenção de vacinas, já que fabrica 8 das 12 que utiliza em seu programa de imunização. Os institutos científicos estatais estão trabalhando em quatro projetos de vacinas denominados Soberana 01, Soberana 02, Mambisa e Abdala. As autoridades esperam ter um deles e inocular toda a população no primeiro semestre de 2021.

- Equador

O Equador, com 17 milhões de habitantes, planeja vacinar cerca de 9 milhões de pessoas em uma primeira fase. As autoridades anunciaram acordos com a Pfizer (2 milhões de doses) e AstraZeneca (5 milhões) com entregas progressivas em 2021, enquanto mantêm negociações com Novavax, Johnson & Johnson e Moderna. Através do Covax receberá mais de 7 milhões de doses.

- México

Assinou acordos com AstraZeneca, Pfizer e CanSinoBio no valor de 1,65 bilhões de dólares, que junto com o mecanismo Covax da OMS permitirá cobrir 116 milhões de mexicanos. A entrega das vacinas começaria neste mês de dezembro, com os primeiros lotes da Pfizer e CanSinoBio. Nesse mês, até 2,6 milhões de pessoas poderiam ser vacinadas, mais 3,5 milhões de pessoas entre janeiro e fevereiro e 11 milhões de pessoas em março.

- Panamá

Destinará 48 milhões de dólares para a compra de 4 milhões de doses da vacina Pfizer para vacinar 2 milhões de pessoas, quase a metade de sua população com duas doses por pessoa. Além disso, o Panamá aderiu ao mecanismo Covax.

- Peru

Negocia com empresas farmacêuticas para vacinar 24,5 milhões de uma população de 32 milhões até 11 de abril de 2021. Já possui 15 milhões de doses assegurados de convênios com a Pfizer (9,9 milhões) e o Covax (6 milhões).

- Venezuela

Com a Rússia, concordou em receber 10 milhões de vacinas contra o Sputnik V até o primeiro trimestre de 2021. Também negocia com a China, embora não tenha dado detalhes. A campanha de vacinação terá início em abril.

- Uruguai

O governo vai obter 1,5 milhão de vacinas por meio do Covax, para cobrir inicialmente 750 mil pessoas, dos quase 3,5 milhões de habitantes.


AFP



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