Religião

27/11/2020 | domtotal.com

É preciso ter cuidado, mas ser ousado: o dilema das redes católicas

Não é possível pensar em uma Igreja atual desconectada das mídias digitais porque, nesse caso, seria desligada do próprio fazer social contemporâneo

Dada a falta de conteúdo edificante, a presença cristã nas redes se faz mais que necessária
Dada a falta de conteúdo edificante, a presença cristã nas redes se faz mais que necessária (Unsplash/Sinziana Susa)

Renata Tarrio*

É preciso ter cuidado. Essa é umas das frases mais ecoadas por membros da Igreja quando o assunto é o uso das redes sociais por instituições e comunidades católicas. Não há dúvidas de que a afirmação é verdadeira, sobretudo frente às múltiplas consequências ?" muitas prejudiciais ?" à vida dos jovens. Nesse universo, há uma presença marcante de conteúdo sem curadoria confiável, controle social via captação de dados, fake news e esvaziamentos de discursos que podem, inclusive, impactar diretamente o contexto da Igreja. É preciso sim, ter cuidado. Mas até que ponto esse discurso é mais difundido do que as próprias ideias para o uso responsável e criativo das redes digitais?

É natural que haja um certo estranhamento do novo, apesar dessa ser uma palavra inadequada para uma sociedade que já se engaja em redes sociais há quase 20 anos. Mas esse mesmo processo estava presente no nascimento de outras mídias, que já foram discutidas oficialmente pelo Vaticano, rechaçadas e, posteriormente, abraçadas, seguindo o curso comum de rejeição e naturalização que, muitas vezes, é também encontrado na própria comunidade.

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No século 15, por exemplo, quando a Revolução Francesa começou a abalar a influência do catolicismo, era grande o tensionamento entre mídia e Igreja e esse confronto foi mantido até o século 19 e início do século 20, quando a instituição passou a promover uma aceitação desconfiada dos novos meios. O decreto Inter mirifica, do Concílio Vaticano II, abria espaço para os meios de comunicação, mas postulava vigilância. Se pularmos para os anos 70 e 80 do século passado, podemos notar uma aproximação da Igreja aos meios de comunicação, sobretudo no contexto latino-americano, buscando a promoção das comunidades durante as ditaduras, no enfrentamento aos problemas socioeconômicos.

Somente após o Concílio Vaticano II, a Igreja passa a ter uma atitude menos defensiva em relação aos meios e assume uma postura de compreensão das mudanças. A partir da encíclica Redemptoris missio, do início dos anos 90, os católicos se aproximam ainda mais do ecossistema midiático, não pela importância que carregam em si próprios, mas pelo reconhecimento da impossibilidade de separar cultura e fé, cultura essa permeada pelas mídias.

Não é possível pensar em uma Igreja atual desconectada das mídias digitais porque, nesse caso, seria desligada do próprio fazer social contemporâneo. E mais que isso, estar presente nas plataformas não é suficiente. Para ser uma Igreja de cultura e fé, é preciso falar a linguagem dos jovens ?" que muitas vezes é a linguagem das redes: compreender, acolher, compartilhar de um modo novo, espontâneo e ousado. É preciso ter cuidado, mas que essa cautela nunca seja motivo para a paralisação e para abdicação do compromisso que é ser ação no mundo.

É fato que, assim como os meios tradicionais, grande parte das vezes as redes não irão oferecer um conteúdo edificador. E é por isso que, mais do que nunca, devemos fazer parte delas: permear o dia a dia dos fiéis, ajudá-los em suas missões, tornar os seus enfrentamentos mais leves, discutir e questionar, inclusive, a influência das próprias redes, enfim, evangelizar.

Como disse o papa Francisco, usuário assíduo no Twitter, "como cristãos, somos chamados a manifestar, também nas redes, a comunhão que marca a nossa identidade de crentes, abrindo o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso?.

*Renata Tarrio é doutoranda em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense, professora universitária, consultora e produtora de conteúdo digital e católica.



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