Religião

28/11/2020 | domtotal.com

Advento: 'sentir o tempo'

Evangelho de Marcos Mc 13,33-37 do 1º domingo do Advento

Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado
Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado (Ümit Bulut / Unsplash)

Adroaldo Palaoro*

"Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento" (Mc 13,33)

Com o Advento, iniciamos mais um novo tempo litúrgico. Qual o sentido dos tempos litúrgicos? Podemos representá-los graficamente, visualizando um círculo onde começamos com o Advento, percorremos os "tempos" da vida de Jesus, com suas celebrações mais importantes, e o "tempo comum", que culmina com a festa de Cristo Rei.

Acaso não é assim o grande círculo da vida? Tempos para gestar a vida, para trazê-la à luz, para alimentá-la e cuidá-la, "tempos comuns" para descobrir a inspiração do viver cotidiano, buscando o sentido de tudo o que fazemos e o que acontece ao nosso redor. Às vezes, estes tempos são áridos e cinzentos, outras vezes, iluminantes e coloridos; tempos com a marca da solidão e da perda e tempos de primavera em que a vida brota de novo... Podemos dizer que nós, como num espelho, nos vemos no tempo litúrgico, para compreender e inspirar nossa vida a partir de Jesus e da comunidade cristã.

Vivemos hoje tempos conturbados, tensos... Partilhamos um momento de grande inquietação social, de aridez espiritual, de drama sanitário, de distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais... No entanto, resistimos! Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, queremos expressar a fé no futuro da nossa vida.

Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e confessamos com o profeta Jeremias, e pela graça do Espírito, que "há esperança de um futuro" (31,17).

Para cada momento histórico sempre foi válido o alerta de Guimarães Rosa: "Viver é muito perigoso".

A liturgia deste primeiro domingo do Advento se atreve a proclamar de novo sua esperança, como uma grande trombeta, que não chama para a morte, mas para a vida.

A esperança é um princípio vital, expresso na sábia constatação de que "enquanto há vida, há esperança". Mesmo diante de desafios quase intransponíveis, consideramos possível ser de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas e, sem cessar, sonhamos com o "mais" e o "melhor". A esperança cristã destrói os germes de resignação da sociedade moderna e combate a atrofia espiritual dos satisfeitos. Por isso, a esperança cristã tem os pés plantados no "hoje" da nossa história, inspirando o esforço de transformação deste mundo marcado por muitos sinais de morte.

É ela que introduz na sociedade a sede de justiça e o compromisso de humanização. Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera. Nesse sentido, o futuro esperado se converte em projeto de ação e compromisso.

Ao adentrarmos, mais uma vez, no tempo do Advento, sentimos ressoar, no mais íntimo, a voz do Mestre da Galileia, que nos convida a estar vigilantes e atentos, a viver despertos. E temos muitas frentes abertas: superar o medo que nos paralisa, renovar a esperança no sentido da vida, avançar com a comunidade para uma nova Igreja em saída, ser as mãos de Jesus no mundo para curar, consolar, repartir o pão... Tempo para despertar e cuidar da "casa" que foi confiada à nossa responsabilidade. A vigilância, de que fala o evangelho, é o outro nome para a atitude de atenção.

Para Simone Weil "a atenção é uma prece", pois ela nos mobiliza para uma aliança com o "hoje" da vida. Se não formos prudentes e generosos para manter os olhos bem abertos sobre o presente, perderemos a possibilidade do encontro com o surpreendente. Viver tem a marca da simplicidade, que precisamos redescobrir, despojando-nos de todas as cataratas existenciais que bloqueiam a visão, para deixar-nos conduzir pelo fluir contemplativo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela por uma muralha de discursos, de ideias vazias, de esperanças confusas... Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado.

Somos seres "desejantes". O instigante tempo do Advento ativa em nós os desejos mais nobres e oblativos, nos fazem ultrapassar a barreira do imediato e entrar no movimento que nos impulsiona a ir além, a entrar em sintonia com Aquele que vem e, ao mesmo tempo, já está presente. Desejar o encontro com "Aquele que vem" nos sensibiliza a perceber presente "Aquele que é".

Por isso, o Evangelho de hoje nos apresenta uma imagem sugestiva, que reúne no desejo duas atitudes importantes: o tempo da espera e o permanecer em vigília, ambas vivido no "estar despertos". A espera e a vigília da vinda plena do Senhor não nos afastam da realidade presente. Pelo contrário, faz-nos encarnar mais lucidamente nela.

Nesse novo tempo litúrgico, a comunidade cristã permanece à escuta dos passos de Deus, em nosso mundo, em nossa vida. Porque o novo, não vem de fora, mas o sentimos e o tocamos por dentro.

Aquele que espera o encontro com o Senhor começa a ler a história como história redentora, descobre os momentos de inovação, é capaz de ver as libertações sendo gestadas no silêncio, conecta com as promessas ainda abertas e pendentes: a nova aliança, o novo povo, o novo êxodo, o Messias...

A atitude de vigília nos faz descobrir os sinais da chegada do Reino no tempo: não nos contentamos com o tempo vazio, "normótico" e sempre igual a si mesmo; descobrimos o tempo de salvação no qual há revelação e realização do novo, da justiça e da graça.

Os "esperantes" cristãos precisam aprender a ressignificar o tempo, pois o tempo de Deus e do Reino é o tempo da decisão em favor da vida (kairós). O reino tem seu tempo e seu ritmo. Não é questão de pressas, não é questão de datas e lugares, não é questão de cálculos. Tentar acelerar sua vinda seria como esticar o talo da planta para que cresça mais rápido. O importante é ter a paciência de quem sabe que a semente do Reino está semeada em nossa história e ninguém poderá deter seu desenvolvimento.

Nesta tremenda e instigante história, da qual fazemos parte, precisamos nos situar bem. Não só com a cabeça, pois aí já temos as coisas mais ou menos claras, mas com nossa sensibilidade, com compaixão, com nossos modos de falar e de olhar, com aquilo que deixamos que toque e afete às nossas vidas. Trata-se da sabedoria de sentir o tempo. Diante do tempo dramático que vivemos, nossa tentação é querer saltá-lo, fugindo de suas exigências.

Advento vem ser, então, um tempo para voltarmos para o interior em meio à agitação, olhar para dentro e deixar-nos perguntar: presto atenção à história que todos vivemos, às suas dores e à sua beleza? Reconheço seus poderes (augustos, herodes, quirinos) e a vida vulnerável de Deus iluminando-se nela, apesar de tudo?

Somos iniciados a sentir o tempo de um modo novo, a fazer-nos amigos dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos toca viver, a habitar com intensidade todas as etapas de nossa existência. Cada momento esconde sua pérola, e é muito emocionante poder chegar a descobri-la. 

Precisamos recuperar a força do "hoje" de Deus fazendo "memória" dos grandes personagens do passado: Isaías, Jeremias, Elias, João Batista, Isabel, Maria de Nazaré, José... Eles continuam falando, continuam desvelando sinais de vida plena na história presente. Só uma sensibilidade marcada pelo tempo do Advento é capaz de entrar em sintonia com as surpresas de Deus, e a história é o rumor dos Seus passos.

Texto bíblico: Mc 13,33-37

Na oração: Caminhamos para Deus quanto mais nos adentramos no profundo de nós mesmos e da realidade. O maior enraizamento no tempo que nos toca viver desperta maior sensibilidade para sermos surpreendidos pelo novo que brota nos lugares menos esperados - é precisamente ali onde a vida renasce e amadurece.

  • Como você se situa diante deste tempo pandêmico? Desespero? Medo? Desejo de saltá-lo?
  • Qual é o "novo" que você vislumbra no meio deste tempo? Você percebe algum sentido nele? Para onde ele aponta? É revelador de algo diferente?...

*Adroaldo Palaoro é padre jesuíta e atua no ministério dos Exercícios Espirituais



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