Religião

30/11/2020 | domtotal.com

Minorias raciais foram mais propensas a contrair Covid-19 em igrejas

Reuniões religiosas pareciam ser o principal foco de transmissão quando a pandemia disparou

Com negros e latinos sem condições de estar em teletrabalho, igrejas se tornaram locais de transmissão
Com negros e latinos sem condições de estar em teletrabalho, igrejas se tornaram locais de transmissão (Unsplash/ Gabriella Clare Marino)

CT

Uma nova pesquisa sugere que, no início da pandemia, os americanos de bairros de baixa renda ou grupos minoritários foram mais propensos a contrair a Covid-19 por meio de reuniões religiosas, em igrejas, do que aqueles que viviam em bairros de alta renda ou predominantemente brancos.

Os dados de telefone celular foram um indicador prematuro da diminuição da frequência às igrejas nas manhãs de domingo, fato que ajudou na redução do contágio. De acordo com um novo modelo publicado na Nature, que também revela as disparidades de segmentos da população que conseguiram ficar em casa e reduzir a exposição.

Pesquisadores da Universidade de Stanford descobriram que as igrejas estavam entre os cinco principais locais de transmissão do coronavírus, junto a restaurantes, academias, cafés, lanchonetes e hotéis. De acordo com uma análise de dados anônimos de telefones celulares, esses locais tendem a ter mais visitantes e permanências mais longas. Ao todo, o modelo calcula que as visitas a esses locais foram responsáveis por 70% dos casos de contágio durante as primeiras semanas da pandemia.

O estudo usou dados de mobilidade de usuários de telefones celulares em 10 grandes áreas metropolitanas dos EUA durante os meses de março e abril. Os pesquisadores calcularam a taxa de transmissão em vários bairros, sobrepondo os dados do Censo dos Estados Unidos com a densidade de indivíduos infectados nesses locais. (Compararam os dados com o rastreador de casos Covid-19 do New York Times e descobriram que o modelo era uma previsão precisa).

Embora as igrejas negras geralmente tenham sido mais cautelosas quanto à reabertura, os residentes em bairros negros e hispânicos que se conheceram pessoalmente durante esse período apresentaram uma maior probabilidade de transmissão, em grande parte devido à sua maior mobilidade e visitas mais frequentes a lugares superlotados.

Como os esforços de rastreamento de pessoas não estavam amplamente disponíveis, os dados do telefone celular ajudaram os pesquisadores a entender o movimento das pessoas em suas cidades. Durante os primeiros meses do surto, as visitas a igrejas e outras organizações religiosas caíram em cerca de 6,18 milhões em Nova York, o ponto de acesso inicial. Em Chicago, houve 3,27 milhões de visitas a menos; e em San Francisco, 1,23 milhão a menos.

Entre as principais áreas metropolitanas do estudo, Filadélfia se destaca com a desigualdade mais gritante. O modelo indicou que as pessoas que vivem em bairros não brancos enfrentam um risco de infecção 20 vezes maior do que as pessoas que vivem em bairros de pessoas brancas, se todas as atividades forem totalmente reabertas durante o surto.

Em Atlanta e Dallas, porém, as taxas de infecção em bairros não brancos foram quase iguais às taxas de bairros de pessoas brancas, enquanto sete outras cidades ficaram em algum ponto intermediário.

"Philly é a maior cidade pobre da América. Estamos lidando com uma pandemia, mas também estamos lidando com o desemprego e questões raciais, apenas para citar alguns dos problemas", disse J. R. Briggs, pastor da cidade, que conhece cerca de uma dúzia de pessoas que contraíram o vírus e uma que morreu. "Com os casos em alta novamente, as pessoas estão se sentindo desanimadas e tentando não perder a esperança".

Filadélfia emitiu outra ordem chamada "Mais seguros em casa!" na semana passada, embora as igrejas não tenham sido fechadas especificamente. Na maior parte, os pastores tiveram que discernir como operar com segurança em meio a mandatos e ordens de oficiais estaduais e locais na Pensilvânia, disse Briggs, que treina pastores na Filadélfia e em todo o país por meio das Parcerias Kairos.

Na primavera passada, um líder da Igreja de Deus em Cristo, a maior denominação pentecostal afro-americana, disse: "Nossas igrejas estão localizadas principalmente em áreas urbanas de alta densidade de população, que são os epicentros deste vírus". O bispo presidente da denominação aconselhou repetidamente as igrejas a seguirem as diretrizes de saúde pública e evitar a reabertura prematura dos templos.

Os pesquisadores de Stanford descobriram que aqueles que vivem em bairros de alta renda foram capazes de reduzir sua mobilidade e exposição – com arranjos de trabalho remoto e entrega de comida – mais do que os residentes de baixa renda, que são mais propensos a serem trabalhadores essenciais.

As descobertas sobre as disparidades raciais parecem verdadeiras para Elizabeth Rios, cuja rede Passion2Plant apoia fundadores de igrejas, negros e latinos. "Aqueles em bairros mais pobres têm empregos que não oferecem oportunidades de trabalho em casa", disse Rios. "Alguns que perderam empregos estão tentando aceitar qualquer emprego que possam encontrar para sobreviver".

E mesmo que as igrejas possam pagar por suprimentos de limpeza, desinfetante para as mãos, máscaras ou outros equipamentos de proteção individual necessários para reabrir com segurança – precauções que não foram levadas em consideração nos modelos da Nature – seus fiéis podem estar predispostos à infecção devido a uma maior taxa de condições em grupos de baixa renda ou minorias raciais.

"Consequentemente, as estratégias de reabertura podem ter um impacto diferente nos grupos desfavorecidos frente à população como um todo, e é importante levar isso em consideração", escreveu a equipe de pesquisa, liderada por Serina Chang, Emma Pierson e Pang Wei Koh.

Mas as igrejas também desejam oferecer o testemunho do evangelho e seu apoio espiritual aos grupos mais afetados pelo vírus. "Na pratica, a igreja deveria ser o maior espaço de apoio para os mais vulneráveis de maneiras criativas, e devemos ser um lugar seguro de pertencimento profundo para as pessoas isoladas", disse Carlos Rebollar, pastor principal da igreja recém fundada Sojourn East End em Houston.

A igreja de Rebollar inicialmente ficou online, mas agora oferece serviços ao ar livre, encontros sociais quinzenais com distanciamento social e grupos comunitários via Zoom.

Dado o risco em suas comunidades, os pastores negros têm sido os mais conservadores quanto à retomada das reuniões pessoais. Neste outono, 60 por cento dos pastores afro-americanos disseram que suas congregações não se reuniam pessoalmente, em comparação com 13 por cento dos pastores em geral, de acordo com uma pesquisa da LifeWay Research.

Com esta nova onda da pandemia, os pesquisadores de Stanford alertam que seu modelo se baseia em dados da primavera. Que prevê riscos para espaços que reabram totalmente sem o uso de máscara e outros cuidados usados na maioria das igrejas atualmente.

"O risco para a sociedade de reabrir totalmente uma categoria não é equivalente a quão arriscado é para você, como indivíduo, visitar o templo", escreveram. Outros estudos analisaram o risco de visitar locais como centros de saúde.

Desde o início da pandemia, os cristãos têm enfrentado diferentes investigações, pois as igrejas são vinculadas a eventos globais e "superlotados" nos Estados Unidos. A mídia continua cobrindo as reuniões de cristãos desafiando as ordens do Estado, como a Grace Community Church do pastor John MacArthur na Califórnia e os protestos de louvor de Sean Feucht em todo o país.

Rios está preocupada com as mensagens confusas que podem estar recebendo os cristãos sobre os riscos da reabertura, mas diz que eles devem saber que seguir as diretrizes de saúde não sugere falta de fé.

"Fazer a coisa certa comunica esperança frente ao desespero deste tempo e frente à desconsideração das pessoas", disse. "A igreja sempre foi o lugar para encontrar esperança nos momentos mais sombrios".

Publicada originalmente por Christianity Today


Tradução: Ramón Lara



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