Economia

05/12/2020 | domtotal.com

Para muitos, pobreza passou a ser a nova regra durante a pandemia

Segundo Banco Mundial, até 2021, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza no mundo deve chegar aos 150 milhões

Máscara descartada, em um estacionamento em Lausanne, em 30 de novembro de 2020, em meio a um novo surto de Covid-19
Máscara descartada, em um estacionamento em Lausanne, em 30 de novembro de 2020, em meio a um novo surto de Covid-19 (Fabrice Coffrini/AFP)

Pular refeições, viver com dívidas, voltar para a casa dos pais: a precariedade passou a ser, em muitos casos, a nova regra. Após a primeira onda da epidemia de Covid-19, trabalhadores dos setores de turismo, transporte aéreo, ou restaurantes, que perderam o emprego contaram sua angústia à reportagem.

Com a crise do coronavírus, o número de pessoas que vivem em extrema pobreza no mundo deve aumentar para 150 milhões até 2021, observou recentemente o Banco Mundial. Oito em cada dez novos pobres estarão em países de renda média. São os novos pobres "mais urbanos, com melhor educação", detalha o banco.

Na primavera, de Paris à Cidade do México, de Kiev a Madri, os jornalistas da reportagem foram ao encontro de trabalhadores dos setores mais afetados (turismo, transporte aéreo, restaurantes, distribuição e digital). Eles contaram a perda repentina de salário, o estresse da demissão, os sacrifícios.

Cinco meses depois, a maioria se estabeleceu no "modo de sobrevivência", perdeu a independência, ou caiu na pobreza extrema. Alguns evitaram o pior. Todos eles continuam a viver angustiados.

Veja seus depoimentos. 

Neuilly-sur-Marne (França)

"Estou em modo de sobrevivência, uma refeição por dia para a família e pronto". Antes, Xavier Chergui, um francês de 44 anos, trabalhava como "extra" na restauração. Podia ganhar até 4 mil euros (cerca de R$ 25 mil). Com o fim de seus contratos, o primeiro confinamento o fez mergulhar na precariedade.

Ele apostava no retorno da atividade após o fim do primeiro confinamento, mas, para além de "alguns dias de trabalho", o reconfinamento do outono na França lhe tirou qualquer "perspectiva para o futuro próximo".

Este pai de dois filhos, cuja esposa não trabalha, acumula dívidas. "Estou atrasado no aluguel, na luz. (...) Também tenho que pagar o empréstimo do carro". Ele subsiste, graças ao auxílio estatal, Revenu de Solidarité Active (RSA), que garante, na França, uma renda mínima para pessoas sem recursos, abonos para famílias, assistência à habitação, e que chega a 1,4 mil euros (R$ 8,7 mil) por mês.

A maior parte dos recursos se destina a "encher a geladeira". Seu filho, que queria cursar design gráfico, ou multimídia, teve de se voltar para estudos de história na universidade, por se tratar de "escolas um pouco caras".

Madri (Espanha)

Sonia Herrera, uma empregada doméstica hondurenha de 52 anos, perdeu o sono: "Durante o confinamento, podíamos aguentar com pequenas economias, mas agora estamos zerados, tudo evaporou".

Na primavera, esta mãe solo que mora com seus dois filhos e seu neto de dois anos foi demitida do trabalho como doméstica não declarada. E teve de se voltar para os bancos de alimentos.

Desde então, ela recuperou algumas horas de limpeza, assim como sua filha Alejandra, de 33 anos, que perdeu o emprego de cozinheira. São algumas centenas de euros que, para além do seguro-desemprego, permitem-lhes não depender desta ajuda que lhes dava "um pouco de vergonha".

No total, em casa, agora entram pouco mais de mil euros (R$ 6,2 mil) por mês para os quatro. Precisam economizar cada centavo.

Todas as sextas-feiras de manhã, Herrera vai a um bairro nobre de Madri para duas horas de limpeza por 20 euros (R$ 125), menos três euros (R$ 31) pelo ônibus. Em vez de ir para casa ao meio-dia antes do horário da tarde, ela espera na cidade para não dobrar o custo do transporte.

Com a reabertura das escolas em setembro, seu neto Izan come na cantina, o que lhe traz economia. Os pequenos prazeres da vida quotidiana, como os "doces", ou ir ao "cabeleireiro", são coisas do passado.

Sua situação irregular impede que a família reivindique a nova renda mínima de vida lançada em maio pelo governo espanhol para amortecer o impacto das medidas anti Covid-19. "Tenho muito medo de que eles nos reconfinem novamente, porque recuperar um pouco (de dinheiro) e perdê-lo novamente é assustador", disse ela.

Bogotá (Colômbia)

"Não tinha mais trabalho para continuar pagando o aluguel". Aos 26 anos, o colombiano Roger Ordonez teve de voltar para a casa de seus pais, em Bucaramanga, no nordeste da Colômbia. Desde que perdeu, em julho, o emprego de comissário de bordo na companhia aérea Avianca, passou a procurar um novo emprego.

Tentou em seu setor, um dos mais afetados pela crise, sem sucesso. Os voos comerciais foram retomados na Colômbia, mas ele não encontrou emprego nas companhias aéreas locais. Também foi impossível responder a duas ofertas no Peru e no Chile, por não residir nesses países.

Não há mais vagas nos call centers de Bogotá, para os quais ele multiplicou as candidaturas. "Não sei se meu currículo está superestimado. Por causa do salário que eu tinha, as pessoas acham que vou sair assim que conseguir outro emprego", desabafa.

Na Avianca, Roger Ordonez ganhava mil euros (R$ 6,2 mil) por mês. Agora, "eu até me contentaria com um salário mínimo" (US$ 250, ou R$ 1,3 mil), diz ele. "Mas não há nada".

É o fim das viagens e dos estudos para se tornar piloto. "A qualidade de vida piorou muito", afirma. "Você se acostuma a morar sozinho, ser independente, comprar suas coisas (...) Hoje eu tenho que morar com a minha família no espaço deles. Estamos apertados".

Paris (França)

A francesa Marie Cédile, de 54 anos, incluindo 30 como vendedora da sapatos na rede André, poderia ter perdido o emprego como metade dos empregados da marca, que estava em liquidação judicial. Ela suspirou de alívio quando o comprador da marca tornou pública a lista de 55 lojas e 220 funcionários que seriam mantidos.

"Sou de uma das lojas mantidas. Até agora está tudo bem", respira. Seu marido, que na primavera estava desempregado, encontrou emprego em uma locadora de automóveis. "Espero que tudo corra bem. Ainda estamos com medo", disse aquela que estava pronta para trabalhar como doméstica, se necessário.

Com o reconfinamento na França, as lojas André fecharam (até a última sexta-feira), e Cédile se viu em situação de redução salarial, dispositivo adotado pelo governo para enfrentar a crise e que fornece 84% de seu salário líquido. Ela ganha um salário mínimo, cerca de mil euros por mês.

"Mas é sempre melhor do que nada. Há países, como Portugal, onde não há nada", disse Marie Cédile, de origem portuguesa. "Temos essa chance de morar na França e ter ajuda do Estado", completou.

México

Os turistas que ele guiava nas ruínas da pirâmide asteca do Templo Mayor, sua casa, sua saúde, suas esperanças: Jesús Yépez, um guia turístico mexicano de 60 anos, perdeu tudo.

Quando os sítios fecharam na primavera, e ele foi despejado do apartamento que alugava no bairro histórico da Cidade do México, viu-se em um centro para moradores de rua. Hoje, é uma sombra de si mesmo, magro, insone. Os médicos deram o diagnóstico: depressão e neuropatia.

Todas as noites ele ora por uma morte iminente. "Meu Deus, venha e me leve, eu não aguento mais esta vida. Minha alma está fraca. É uma provação diária que se repete. Quando isso vai acabar?", questiona.

Suas parcas economias se foram há muito tempo, e "o governo só me deu 3 mil pesos (R$ 783) para me manter vivo nos últimos 100 dias", diz ele. Seus primos, os únicos membros restantes de sua família, nem sempre o ajudam. Seus ex-colegas de trabalho pararam de arrecadar dinheiro para ajudá-lo a pagar algumas refeições fora do abrigo.

Quando alguns locais e museus na Cidade do México reabriram nas últimas semanas, ele tentou retomar seu trabalho. Sem sucesso. Os poucos turistas que ainda visitam a Cidade do México fogem ao ver seus trapos. "Estou preso neste inferno de miséria", ele deixou escapar.

Kiev (Ucrânia)

Hoje, a ucraniana Natalia Mourachko, técnica de informática de 40 anos, está ganhando mais do que antes. "Minha jornada de trabalho é muito mais curta e posso trabalhar de qualquer lugar!", celebra.

Ela percorreu um longo caminho, porém. Em abril, quando esperava ser preservada, foi brutalmente demitida do grupo de viagens americano que a empregou por quatro anos. "Um choque" quando você faz parte desta casta de técnicos da computação que, na Ucrânia, podem ganhar vários milhares de dólares, quando o salário médio mal ultrapassa os 300 euros (R$ 1,8 mil).

Mourachko, que tem dois filhos adolescentes e uma mãe de 73 anos para sustentar, descobriu assim a perda de status e a busca infrutífera por emprego. Mas o emprego de meio período para um site americano de desenvolvimento de aplicativos móveis, o qual lhe permitiu se manter nos primeiros meses, agora lhe rende 10% a mais do que seu emprego anterior. 

A carga de trabalho aumentou, mas "negociei uma taxa mais lucrativa", diz ela. Finalmente, este ano, ela conseguiu passar férias na Bulgária. E começa a economizar dinheiro para ter um "colchão de segurança mais consistente".

Nem tudo foi resolvido. O estresse dos meses de desemprego exacerbou seus problemas de sono e reanimou suas dores nas costas. "Isso me fez cambalear, muitas coisas quebraram". Mas ela constata que, "em geral, parece que a Covid mudou tudo para melhor".


AFP



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