Religião

03/12/2020 | domtotal.com

Processos por difamação de padres são última novidade da crise de abuso sexual

Presunção de inocência tem sido negligenciada por bispos

Dioceses enfrentam pressões para serem duras nos casos de abuso e podem ser, às vezes, injustas
Dioceses enfrentam pressões para serem duras nos casos de abuso e podem ser, às vezes, injustas (Unsplash/Grant Whitty)

Mark Nacinovich Responsabilidade*
NCR

Enquanto as dioceses dos EUA continuam pagando grandes indenizações por ações judiciais, a Igreja enfrenta outro problema desagradável decorrente do escândalo de abusos: padres que dizem ter sido acusados falsamente estão sendo processados por difamação.

Em agosto de 2018, logo após um relatório do grande júri da Pensilvânia, listando mais de 300 padres, em seis dioceses do estado, que haviam sido acusados de abusar de mais de mil menores desde 1947, o procurador-geral de Nebraska, Doug Peterson, pediu às três dioceses de seu estado que entregassem seus arquivos sobre funcionários da Igreja acusados de abuso sexual desde 1978.

O arcebispo George Lucas de Omaha atendeu a esse pedido e, em novembro de 2018, a arquidiocese de Omaha publicou uma lista com os nomes de 38 padres e diáconos que haviam enfrentado "alegações fundamentadas" de abuso na arquidiocese.

As consequências dessa lista ecoam até hoje. Um dos padres cujo nome consta na lista – o padre Andrew Syring – está processando a arquidiocese de Omaha por difamação. Ele está entre os clérigos que dizem ter sido injustamente excluídos do esforço da Igreja para reparar sua reputação e superar a crise.

Lyle Koenig, advogado de Syring, disse que o processo por difamação de seu cliente é um dos 20 a 25 casos semelhantes no país. Em comparação, 7.002 padres tiveram acusações "credíveis" ou "não implausíveis" de abuso nos EUA entre 1950 e 30 de junho de 2018, de acordo com BishopAccountability.org, que citou informações publicadas pela Conferência de Bispos Católicos dos EUA.

Melanie Sakoda, coordenadora de apoio a sobreviventes da Rede de Sobreviventes de Abusos por Padres, ou SNAP, observou que falsas alegações contra padres são "relativamente raras".

"O fato de uma diocese católica ter aceitado uma alegação como 'crível' torna, na minha opinião, ainda menos provável que a acusação seja falsa", disse Sakoda em um comentário por e-mail.

"Acho que seria incrivelmente improvável que um padre ganhasse em tal ação, visto que a diocese terá acesso a todos os registros do caso", apontou Skoda.

Em Nebraska, Syring, com 43 anos, está pedindo USD $ 2,1 milhões em danos por difamação e nega as acusações feitas contra ele.

O caso do clérigo remonta a 2014, quando serviu como vigário na paróquia da Divina Misericórdia em sua cidade natal de Schuyler, Nebraska. Lá, Syring foi acusado de comportamento impróprio, que incluía "toque indesejado de jovens adultos, beijos e abraços públicos a menores nas bochechas e conversas inadequadas com jovens adultos e adolescentes", segundo o Omaha World-Herald.

As alegações foram relatadas à polícia, mas nenhuma acusação foi registrada, informou o World-Herald. Syring, a pedido de Lucas, recebeu meses de aconselhamento e terapia antes de ser liberado para retornar ao ministério público com a aprovação do conselho de revisão leiga da arquidiocese, que atua como consultor do arcebispo em casos de abuso.

Syring era residente na paróquia de São Bernardo em Omaha em 2014 e foi designado para a paróquia de São Venceslau em Omaha em 2015. Depois, ele foi transferido para a paróquia de Santa Maria em West Point, no nordeste de Nebraska em 2016.

O clérigo era imensamente popular em Santa Maria, de acordo com a paroquiana Charissa Steffensmeier.

"O mais importante é que atraiu tantas pessoas para dentro da Igreja; muitos disseram mais tarde que começaram a voltar à missa depois que ele veio como pároco", disse Steffensmeier, "porque Syring é muito próximo, muito modesto, mas, principalmente, eu diria que o que a maioria das pessoas aponta é seu genuíno amor e reverência pela Eucaristia. Ela brilhava ora em uma missa, ora em uma homilia, até em uma conversa... Ele inspira uma energia e um entusiasmo sobre a Igreja e sobre a Missa".

Após um tempo, em outubro de 2018, Syring desapareceu repentinamente da paróquia de Santa Maria. Em 30 de outubro daquele ano, Lucas pediu que Syring renunciasse. Koenig, advogado de Syring, apontou que o padre concordou em renunciar por causa do juramento de lealdade ao arcebispo que havia feito quando foi ordenado em 2011.

Steffensmeier aponta para eventos em 25 de outubro, cinco dias antes, como aqueles que precipitaram o pedido de Lucas para a saída do Syring. Naquela noite, Lucas e o padre Scott Hastings, vigário do clero da arquidiocese, encontrou-se com paroquianos de São Venceslau, que ficaram chateados com relatos revelando alegações anteriores de abusos contra o padre Francis Nigli, que foi vigário nessa paróquia.

Nigli foi despedido da paróquia em junho. Ele havia sido acusado de agressão sexual por tocar e beijar um homem de 21 anos em São Venceslau em maio desse ano, mas os paroquianos ficaram especialmente irritados porque descobriram que Nigli havia enfrentado acusações semelhantes em 2013. Nenhuma acusação foi registrada e Nigli teve que receber tratamento mental de saúde após o alegado incidente em 2013.

Na época, o diácono Tim McNeil, chanceler da arquidiocese, disse ao World-Herald que a renúncia de Syring foi o resultado da arquidiocese reexaminar a história do padre à luz dos apelos dos católicos por maior transparência e padrões mais elevados para os padres.

Em 30 de novembro de 2018, a arquidiocese publicou a lista de clérigos da arquidiocese que enfrentaram alegações comprovadas de abuso. Lucas, em uma carta publicada no The Voice, o jornal da arquidiocese, disse que nenhum padre ou diácono servindo na arquidiocese naquela época havia sido acusado de abuso contra um menor.

Em dezembro de 2018, Lucas se encontrou com Steffensmeier e cerca de 15 outros paroquianos. Na reunião, Steffensmeier disse, Lucas explicou que Syring foi demitido por "violações de limites" e que a arquidiocese estava exigindo do clero um "padrão mais elevado" de conduta.

Mas o processo civil de Syring, que foi aberto em agosto no Tribunal Distrital do Condado de Cuming, aponta que a arquidiocese não mudou seus padrões de conduta para o clero na época em que demitiu o padre.

Além disso, Syring sempre negou veementemente as acusações originais, obedeceu ao arcebispo ao se submeter à terapia e teve uma ficha limpa desde que voltou ao ministério público, disse Koenig, seu advogado.

Em resposta a um pedido de entrevista do NCR, McNeil, o chanceler da arquidiocese de Omaha, disse que a arquidiocese não fará comentários sobre um assunto que agora está sendo litigado.

Robert Flummerfelt, advogado canônico de Las Vegas, disse que, segundo a lei da Igreja, se um padre é acusado, o bispo deve primeiro conduzir uma investigação preliminar para ver se a acusação é crível. Durante a investigação, a identidade do padre deve ser mantida em sigilo, mas a investigação frequentemente se torna de conhecimento público, disse Flummerfelt.

Se um bispo determinar que a alegação é crível, ele deve encaminhar o caso à Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, que decidirá como a Igreja deve proceder.

Um padre pode apelar para Roma a decisão de um bispo sobre sua demissão, disse Flummerfelt, mas se o Vaticano não revogar o decreto do bispo, o sacerdote está fora de qualquer cargo dentro da Igreja.

Além do mais, disse Flummerfelt, quando um padre é acusado de abuso sexual, frequentemente enfrenta o fardo de provar sua inocência.

"A lei diz que todos são considerados inocentes até que se prove o contrário", disse. "A situação prática, porém, é que quando alguém apresenta uma alegação e ela parece confiável, a presunção efetiva muda para: 'Por que a pessoa mentiria?' Então o padre está quase em uma situação em que tem que provar sua inocência, o que é mais difícil".

A veracidade das acusações contra um padre também está em questão no caso de padre Eduard Perrone em Detroit. A arquidiocese de Detroit suspendeu Perrone do ministério público no ano passado depois de considerar que as alegações de que Perrone havia apalpado um menino 40 anos antes continham uma "aparência de verdade", relatou o Detroit Free Press.

No ano passado, Perrone processou um detetive no condado de Macomb cujo relatório, disse para o Free Press, foi a base da decisão da Igreja de suspendê-lo. Perrone apontou que o detetive "inventou" uma reclamação de estupro contra ele.

Em agosto, Perrone ganhou USD $ 125 mil em um processo com o condado de Macomb, presumidamente por um acordo para evitar as taxas legais de um julgamento com o júri e uma penalidade potencialmente grande se Perrone vencesse.

Em fevereiro, um grupo de 20 paroquianos da Assumption Grotto Church em Detroit, onde Perrone era pastor, processou a arquidiocese de Detroit em USD $ 20 milhões, alegando que eles suportaram o sofrimento emocional por causa do que afirmam ser uma suspensão injusta de seu pastor.

Ned McGrath, porta-voz da arquidiocese, disse que a arquidiocese está tentando rejeitar o processo e que nenhuma data de julgamento foi marcada, enquanto a investigação da Igreja está agora no Vaticano. O porta-voz falou com o Detroit Free Press que Perrone é considerado inocente enquanto está suspenso.

Flummerfelt, o advogado canônico, disse que as dioceses enfrentam pressões para serem duras nos casos de abuso.

"Acho que as dioceses estão em uma situação muito difícil porque têm a obrigação de garantir que haja tolerância zero para abusos de qualquer tipo contra menores", apontou o advogado.

"Muitos clérigos são colocados em uma posição muito difícil, até excluídos, e isso é uma consequência de onde estávamos como sociedade. A Igreja institucional está tentando recuperar a credibilidade nesta questão e, portanto, ser forte e dura é visto como uma maneira de fazer isso. Mas para o padre, para a pessoa acusada, especialmente para os falsamente acusados, pode haver circunstâncias em que a realidade de como é tratado não é justa".

Publicado originalmente por NCR

*Mark Nacinovich, é escritor e editor residente em Nova York, foi anteriormente editor-chefe do Brooklyn Tablet e também escreveu e editou para a Catholic New York e para o New York Post. Formou-se na Universidade de Chicago.



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