Cultura

04/12/2020 | domtotal.com

Foco no medo

Nossa! Você ficou sabendo?

Algumas pessoas têm um estranho prazer em espalhar o fato escabroso
Algumas pessoas têm um estranho prazer em espalhar o fato escabroso (Unsplash/Joshua Hoehne)

Fernando Fabbrini*

Tenho certeza que você conhece alguém assim. Antes da pandemia, esse tipo de pessoa era aquela que adorava trazer notícias ruins: mortes, desastres, crimes, catástrofes diversas. Mal sabia do acontecido, pegava o telefone e disparava a ligar para vizinhos, parentes e amigos espalhando a mais recente tragédia. Quanto pior fosse o assombro do interlocutor recém-informado, mais feliz a pessoa ficava. Defini-la como fofoqueira seria pouco. Havia, certamente, um estranho prazer em espalhar o fato escabroso.

Com as redes sociais, essa gente ganhou um "upgrade" meteórico. A notícia se espalha alcançando milhares em minutos. Na pandemia, então, a coisa ficou insuportável. Circulam mensagens apavorantes em proporção geométrica. Outro dia recebi um vídeo típico. Uma senhora residente no exterior dedicou mais de cinco minutos de seu tempo repetindo uma coleção de terrores. Com um simples toque disparou a mensagem para a nuvem e daí para o universo.

Apavorada, ela referiu-se à chamada "segunda onda" na Europa, que de segunda – conforme alguns cientistas – não tem nada. O vírus estaria apenas se espalhando como fizeram todos os seus antecessores, alcançando agora os bolsões preservados anteriormente. Mas uma segunda, terceira ou quarta onda, aqui nessa crônica, são secundárias. Chamou-me a atenção, na verdade, o espírito alarmista que leva uma pessoa a gastar seu tempo para produzir um negócio desses.  

São mensagens absolutamente inúteis e sem nenhuma novidade prática: "“usem máscaras" – claro, já sabemos e estamos usando. Idem para "lavem as mãos" e "usem álcool em gel" – medidas de amplo conhecimento. "Fiquem em casa", disse também a senhora, esquecendo-se de que muitos que seguiram tal conselho também foram contaminados. Pensando bem, de que serve a nós, aqui no Brasil, sabermos que o pronto-atendimento de Madri ou Barcelona estão superlotados? Mensagens com esse espírito – além da óbvia intenção de espalhar medo – não mudam comportamentos irresponsáveis a essa altura da pandemia. Apenas mexem com as pessoas mais frágeis e suscetíveis às asneiras que circulam na internet. Além de inúteis, são cruéis.

Pior ainda é o que acontece na TV. Todas as noites, com olhar tétrico, um apresentador do telejornal – ex-líder de audiência e que agora despenca fragorosamente – mostra o número de casos do Covid e o de mortos com o mesmo toque mórbido. Aos mais atentos às manobras dos editores, um aspecto revela o nível rasteiro e desonesto que o jornalismo nacional alcançou. Ora: por que não mostram, também, o número de pessoas recuperadas? Não parece um dado honesto, fundamental, positivo, indispensável e que dá alguma esperança e compensação aos espectadores bombardeados diariamente?

Mídias internacionais consagradas sempre exibem o número de recuperados; percentual animador que gira em torno de 80%. Portanto, escapem do terror gratuito e da informação propositadamente parcial ou seletiva. Para dados confiáveis, consulto sempre o WorldMeter.

Vamos tomando os cuidados que estiverem ao nosso alcance. Já que, sobre o imponderável, o acaso, o imprevisível, ninguém tem o menor controle. E não apenas durante a pandemia, mas em nossa vida inteira, desde o dia em que nascemos. É ou não é?

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.



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