Cultura TV

09/12/2020 | domtotal.com

Bem-vindos a Kubanacan

Vale a pena ver de novo no streaming

O pescador parrudo vivido por Marcos Pasquim
O pescador parrudo vivido por Marcos Pasquim Foto (Reprodução TV Globo)
Abertura da novela Kubanacan
Abertura da novela Kubanacan Foto (Reprodução TV Globo)

Alexis Parrot*

Após a verdadeira revolução de ritmo narrativo operada em Bebê a bordo e o deleite que foi Quatro por quatro, Carlos Lombardi pariu Kubanacan - novela das sete levada ao ar em 2003 e disponível desde segunda-feira (7) no Globoplay.

Ambientada em uma fictícia republiqueta de bananas do mar do Caribe, Kubanacan é fruto de inspiração e homenagem assumidas a Cassiano Gabus Mendes, de quem Lombardi se aproximou ao colaborar no roteiro de Elas por elas, a novela que trouxe ao mundo o detetive particular Mario Fofoca, vivido genialmente por Luiz Gustavo.

Assim como o Reino de Avilan de Que rei sou eu? do mestre Cassiano (paródia do gênero capa e espada), Kubanacan se sustenta na comédia para construir uma alegoria de mazelas bem conhecidas dos brasileiros - a corrupção política, golpes militares e a incompetência governamental.

Humberto Martins é Carlos Camacho, militar contrabandista alçado a ditador graças ao apoio de Mercedes (a saudosa Betty Lago), primeira dama amada pelo povo e calcada em Evita Perón. Martins sagrou-se como um dos atores favoritos do autor e os dois colecionaram colaborações (Uga uga, Quatro por quatro, Pé na jaca e a minissérie O quinto dos infernos). Apesar da prosódia entredentes, é impossível não admitir sua desenvoltura para interpretar os diálogos de Lombardi - ágeis, irônicos, palavrosos e marca maior de seu trabalho.

Como já havia experimentado com êxito em Quatro por quatro, aqui também o protagonismo é dividido entre alguns personagens: Lola, uma dona de casa que se torna cantora de cabaré (Adriana Esteves), o misterioso Esteban/Adriano (Marcos Pasquim) e o ditador de Humberto Martins.

O tom é de chanchada, o que cai como uma luva na época escolhida para situar a novela (os anos 1950), além da decisão deliberada de parodiar matrizes consagradas da ficção, como os filmes de espionagem à la Jason Bourne e os que tratam da trajetória de estrelas em ascensão. Se a direção de Wolf Maya abraça por vezes um ou outro maneirismo (como a tela dividida em duas), é extremamente competente na ação, imprimindo o dinamismo exigido pelo texto de Lombardi.

A exemplo da primeira novela solo do autor, Vereda Tropical, Ney Matogrosso voltou para cantar a música tema e funcionou como amuleto para a produção. Já a abertura é daquelas nada inspiradas, com neon demais e gente dançando desgovernadamente para lá e para cá. O envelope não faz jus ao pacote, mas ensina ao apontar no que difere Lombardi de Hans Donner: enquanto o primeiro subverte o clichê, o proclamado mago das aberturas acredita nele.

Um bom exemplo é a trama vivida pelo personagem de Pasquim, o pescador parrudo. No início, remete ao realismo fantástico latino americano mas, para surpresa geral, acaba desembocando na ficção científica - uma cartada tão ousada que, talvez, apenas Dias Gomes teria sido capaz de executá-la de maneira tão verossímil.

A verdade é que Lombardi tem um estilo bem demarcado e é uma pena que não esteja no ar no momento. Sua crítica de costumes é feroz e inteligente, além de louvável a maneira com que representa o sexo e o desejo, sem abrir mão do lirismo.

O hábito de seus heróis e anti-heróis exibirem o torso nu e cabeludo marcou época, demonstrando uma inédita naturalidade em nossa TV acerca do corpo masculino. Para um país onde até hoje a objetificação do corpo feminino é uma questão, tirar a camisa dos homens significava também assumir um posicionamento libertário contra qualquer tipo de censura ou caretice.

Fiel ao estilo de seu autor, Kubanacan é divertida e atemporal. Comparada com outras reprises de novelas globais em cartaz no streaming, percebe-se o quanto é pioneira no ritmo - muito mais próxima de produções recentes do que de suas contemporâneas.

Como se não bastasse, ainda traz no elenco uma impagável Nair Bello, Oswaldo Loureiro e Ítalo Rossi, talentos que deixaram saudade e nunca saem de moda.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total



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