Brasil

09/12/2020 | domtotal.com

Distopia brasileira

A mentira do subdesenvolvimento relativo, isto é, o reforço da dependência, coloca o país nas mãos exclusivas do agronegócio e da banca rentista e parasitária do capital financeiro

O inimigo é a brutal desigualdade e exploração social oriunda das elites escravagistas que montaram o subdesenvolvimento brasileiro
O inimigo é a brutal desigualdade e exploração social oriunda das elites escravagistas que montaram o subdesenvolvimento brasileiro (Bruno Concha/Secom)

Reinaldo Lobo*

O Brasil, o país do futuro idealizado pelo simpático escritor judeu-alemão Stefan Zweig, já chegou ao seu futuro.

São milhões de desempregados, racismo, violência, morte da juventude nas favelas, assassinatos frequentes de crianças, pandemia quase igual à gripe espanhola, brutal distância entre as classes sociais, escravismo, feminicídios, concentração de renda, educação precária e desigual, saúde pública sucateada, domínio das multinacionais, incêndios injustificáveis, desmatamento das reservas florestais, desequilíbrio ecológico, extinção de espécies animais e de plantas, elites insensíveis e reacionárias, neofascistas no Executivo, espalhados pelos partidos e, sobretudo, pelo Judiciário, militares no poder, fim dos direitos trabalhistas e manipulação eleitoral da pobreza, dependência e economia exportadora de matérias primas, corrupção nas instituições, miséria nas grandes cidades e no campo, retorno de doenças e epidemias antes tidas como extintas.

É o que temos para hoje e, possivelmente, também para amanhã.

O que deveria ser um paraíso tropical, terra do leite, da abundância e do mel, está cada vez mais parecido com um desses filmes de ficção cientifica que apresentam um cenário de multidões solitárias, ruas destruídas e perigos terroríficos.

Os brasileiros estão se acostumando a ficar esperando uma catástrofe atrás da outra, como se um inimigo externo estivesse prestes a atacar. A nossas elites toscas e egoístas ilustram esse inimigo com vários nomes: o comunismo, a crise econômica mundial, as pessoas antipatriotas, a pandemia que atingiu todos os países, o passado colonial português (faltou falarmos inglês ou holandês), etc..

Só não se diz que o inimigo é interno, foi construído ao longo da história, apenas aliado a fatores externos. O inimigo é a brutal desigualdade e exploração social oriunda das elites escravagistas que montaram o subdesenvolvimento brasileiro.

Nosso subdesenvolvimento é enganador: dá-se na periferia do capitalismo mundial, mas está sujeito a surtos de desenvolvimento interno relativo, condição para melhor servir às economias centrais.

Assim como há exploração do Primeiro sobre o Terceiro Mundo, mantido na situação de subdesenvolvimento, existe a exploração interna na cadeia de esferas regionais e setoriais no capitalismo nacional. Os surtos de desenvolvimento dão-se dentro do subdesenvolvimento. As regiões do Sul e Sudeste do Brasil têm sempre desenvolvimento desigual em relação ao Nordeste e ao Norte, mais subdesenvolvidos.

Esses anéis de dependência não podem ser mudados e, quando governos como os de Lula e Dilma Rousseff procuram inverter as prioridades, desequilibrando a cadeia exploratória, precisam ser desmoralizados e derrubados pelas elites escravocratas.

A atual distopia brasileira tem nome e sobrenome: é o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo na periferia do mundo rico.

Países que procuraram e conseguiram escapar, sobretudo, da dominância do capitalismo norte-americano ou inglês, como a China, acabam de criar com outros países asiáticos uma espécie de mercado comum da região, sem nenhum país ocidental incluído.

É uma novidade que poderá alterar a balança comercial e econômica no mundo. São países que foram colônias do Ocidente no passado e que, agora, conseguiram livrar-se do domínio absoluto das antigas metrópoles.

O Brasil atual parece gostar da dependência, ou melhor, suas elites possessivas e egoístas preferem manter o subdesenvolvimento sob as asas norte-americanas, evitando fazer as verdadeiras reformas necessárias na estrutura da sociedade.

O que chamam hoje de "reformas", na verdade destruição de qualquer resíduo de bem estar social, é uma mascarada que nos mantém no atraso de uma economia exportadora de matérias primas, sem um desenvolvimento autóctone.

A mentira do subdesenvolvimento relativo, isto é, o reforço da dependência, coloca o país nas mãos exclusivas do agronegócio e da banca rentista e parasitária do capital financeiro. Essas são as verdadeiras fontes das nossa desgraças sociais e sanitárias.

Uma hipótese lida nas redes sociais chega a levantar, como causa da manutenção da crise sanitária do coronavírus, o medo das nossa elites de distribuir as vacinas e, em consequência, a população sair completamente do isolamento social para as ruas, em manifestações como as do Chile, do Peru e outros países latino-americanos.

O temor é que o desemprego crônico e a miséria se transformem em protestos e rebeliões impossíveis de contornar, com o povo exigindo o fim das causas da desigualdade e da pobreza e o fim do quadro distópico, decadente e depressivo em que estamos vivendo.

Essa hipótese não é de todo descartável, pois remete diretamente à questão da lei e da ordem imposta pela semi ditadura brasileira atual. Seus agentes são os militares, que pensam em termos estratégicos bem estreitos, como se houvesse uma guerra no interior da sociedade e não uma real desolação. O inimigo que visam a destruir ou conter é interno: o povo brasileiro.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista



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