Religião

14/12/2020 | domtotal.com

Há lugar, em nosso mundo, para a Glória de Deus?

A glorificação a Deus é nossa adesão à salvação que ele nos oferece por pura graça e amor

A narrativa evangélica diz que os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens [e mulheres] de boa-vontade!
A narrativa evangélica diz que os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens [e mulheres] de boa-vontade! (Unsplash/Jamie Davies)

Felipe Magalhães Francisco*

Aproxima-se o Natal, festa entre as mais importantes e significativas para os cristãos e cristãs. É o marco da memória da irrupção do eterno em nossa temporalidade; o encontro incontornável entre o humano e o divino. Memória e celebração do nascimento do menino-Deus, mas não aniversário: ainda que nossas festas de aniversários sejam símbolos importantes para nós, celebrar o Natal do Senhor é ocasião ainda mais significativa. Trata-se, pois, da noite em que se entoa, a viva voz, aquilo que a narrativa evangélica diz que os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens [e mulheres] de boa-vontade!

Fora aquelas pessoas que se dedicam ao estudo da Liturgia, pouco se reflete a respeito do Hino do Glória, momento importante da celebração litúrgica cristã. Católicos e católicas possivelmente já presenciaram o repicar dos sinos no momento em que, na Noite de Natal, entoa-se o Glória. Não é à-toa: é o hino por excelência que celebra a encarnação do Filho de Deus em meio à humanidade, motivo de festa e alegria. O texto oficial é longo, poético e profundamente rico, teologicamente. Entende-se bem, assim, o arrepio provocado em liturgistas, quando versões alheias ao texto oficial são executadas nas celebrações.

Mas o que é a glória de Deus? Biblicamente, o que traduzimos por glória, em hebraico é kabôd, que, literalmente, significa peso. É o peso da presença ou da importância de alguém. Falar da glória de Deus, pois, é falar da força e do peso da sua presença. Em uma palavra, podemos dizer que a glória de Deus é Deus mesmo! No Antigo Testamento, fala-se da glória de Deus que preenchia o Santo dos Santos, no Templo de Jerusalém: era uma maneira de dizer que Deus habitava aquele lugar. A glorificação a Deus, que costumamos considerar como um louvor ao Criador, vocação última de toda criatura, significa reconhecer o que Deus é, e o modo como ele atua salvificamente em nosso favor.

Quando a narrativa evangélica traz que os anjos cantaram glória a Deus, por ocasião no nascimento do menino-Deus-conosco, numa gruta em Belém, fala-se que ali, naquele cocho onde se alimentavam os animais, irrompeu a presença do próprio Deus, em sua glória. E esse é um motivo de paz, a todos os homens e mulheres de boa-vontade. Não aos poderosos, apegados em seu próprio poder a serviço da opressão, pois estes são escravos de si próprios e da injustiça que cometem. Paz na terra aos homens e mulheres de boa-vontade, porque estes, apesar dos pesares da vida, abrem-se à manifestação de Deus.

Louvar a presença salvífica de Deus não é tarefa de quem pretende bajular o Criador, como se Deus fosse um ser vaidoso que se alimenta de elogios. O louvor é o reconhecimento, agradecido, por seu amor para conosco, que o faz chegar ao ponto de enviar seu próprio Filho, para correr os riscos da dramaticidade humana, só para que pudéssemos ser elevados até Ele. A maior glória de Deus é que o ser humano viva, rezavam os Padres da Igreja, nos primeiros séculos do cristianismo. Deus é glorificado quando pessoas se abrem à graça salvífica, permitindo-se, por força do Espírito, conformarem-se à filialidade de Jesus Cristo, que é a plena manifestação da glória do Pai.

Entoar o Hino do Glória é coisa séria, profunda, inspiradora! A glorificação a Deus é nossa adesão à salvação que ele nos oferece por pura graça e amor. Há, pois, um componente ético nesse canto de louvor: ao reconhecer nosso lugar de criaturas, que podem alcançar gratuitamente o caráter de filhos e filhas de Deus, somos chamados a nos comprometer existencialmente com esse Deus que nos assume como Pai. É coisa de gente que tem boa-vontade, para que, em paz ?" aquela paz inquieta, não a dos cemitérios! ?", participe da glória desse Deus que vem até nós, para que possamos ir até Ele. A glória de Deus é o Reino dos Céus acontecendo: é isso que somos chamados a entoar, a plenos pulmões. A depende de nós, há lugar para a glória de Deus em nosso mundo atual?

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Articula a editoria de Religião deste portal. É coautor de "Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras" (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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