Direito Direitos Humanos

17/12/2020 | domtotal.com

Sequestro de duas jovens aumenta a tensão entre yanomamis e garimpeiros ilegais

Conselho de Saúde Yanomami alerta para risco de confronto em Terras Indígena

Os yanomami em posto de saúde na Terra Indígena: pandemia chegou com o garimpo
Os yanomami em posto de saúde na Terra Indígena: pandemia chegou com o garimpo (Nelson Almeida/AFP)

Indígenas yanomami alertaram para a situação de extrema tensão em seu território da Amazônia brasileira, após um incidente que, segundo informes, terminou na morte de dois mineiros ilegais envolvidos no sequestro de duas garotas de uma aldeia. O Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Yekuana (Condisi-YY), de Roraima, pediu às autoridades uma investigação sobre o caso. 

"Solicitamos que seja ajuizada alguma ação, uma vez que a situação se agravou de tal forma que o caos social se instalou, e a atividade criminosa caminha para sair do controle das forças de segurança", afirma um comunicado do Condisi-YY direcionado às autoridades brasileiras. O texto, que também foi encaminhado à Polícia Federal e ao Exército, atuantes nesta região do estado de Roraima, é datado de 10 de dezembro. Foi distribuído aos meios de comunicação somente nesta quinta-feira (17).

O Condisi-YY afirma que os garimpeiros sequestraram duas meninas de 15 e 16 anos em setembro e que seus familiares foram resgatá-las no acampamento para onde haviam sido levadas. "Não é a primeira vez que isso acontece. Eles raptaram as duas meninas e levaram para suas barracas. A família não gostou e foi atrás, mas os garimpeiros disseram que não entregariam as meninas. Então, os yanomami, com suas próprias armas, atiraram nos garimpeiros", afirmou o presidente do Condisi-YY, Junior Hekuari Yanomami, em entrevista ao G1. Dois garimpeiros ilegais morreram, e as meninas foram resgatadas, acrescentou.

O conflito, entre cerca de 50 indígenas e uma dezena de garimpeiros, aconteceu em Surucucu, na Terra Indígena yanomami, a quase 300 quilômetros de Boa Vista, capital de Roraima. O Condisi-YY obteve somente em dezembro a informação do ocorrido na aldeia, localizada no coração da Amazônia e de difícil acesso. "Existem relatos de que, possivelmente, haverá um ataque dos garimpeiros na comunidade acima citada", acrescenta Hekurari Yanomami, que assina o documento.

O batalhão do Exército em Roraima disse não ter jurisdição sobre o caso, enquanto a Polícia Federal de Roraima ainda não respondeu ao pedido de informações sobre o ocorrido na terra yanomami, que abriga cerca de 27 mil indígenas em um área de 96 mil quilômetros quadrados, a maior do país. 

Associações indígenas e ONGs afirmam que há cerca de 20 mil garimpeiros ilegais buscando ouro em terras yanomami, incentivados pelo apoio do presidente Jair Bolsonaro às atividades extrativas e agrícolas dentro da floresta tropical. O governo estima em cerca de 3,5 mil o número de garimpeiros na área. A região tem uma história de décadas de invasões por garimpeiros ilegais, que trazem consequências como doenças, conflitos e danos ambientais. 

No dia em que foi entregue a petição ao Congresso, uma ação projetou desenhos dos xapiri no prédio (Agência Congresso)No dia em que foi entregue a petição ao Congresso, uma ação projetou desenhos dos xapiri no prédio (Agência Congresso)

Em 3 de dezembro, Líderes indígenas entregaram virtualmente ao Congresso uma petição com mais de 400 mil assinaturas exigindo a retirada de garimpeiros ilegais das terras yanomami. Após a entrega desenhos indígenas representando os xapiri (os espíritos ancestrais yanomami) foram projetados no Congresso Nacional  na Amazônia. 

Atualmente, a proximidade dos garimpeiros tem espalhado o novo coronavírus, o que é uma séria ameaça aos povos indígenas, devido à falta de anticorpos desta população contra a Covid-19. 


AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!