Brasil Política

20/12/2020 | domtotal.com

'A pressa da vacina não se justifica', diz Bolsonaro após 186 mil mortes por Covid no Brasil

Em entrevista para o canal de Eduardo Bolsonaro, presidente fez ilações, divulgou fake news e ainda atacou Rodrigo Maia e a imprensa

Sem citar nomes, Bolsonaro disse que também não tem pressa de gastar os recursos.
Sem citar nomes, Bolsonaro disse que também não tem pressa de gastar os recursos. (Marcello Casal Jr/ABr)

"A pressa da vacina não se justifica". A frase foi dita em entrevista gravada pelo presidente Jair Bolsonaro ao seu próprio filho o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Com mais de 186 mil mortes e com número de infecções crescendo, presidente disse ainda que a pandemia da Covid-19 está acabando.

"A pandemia, realmente, está chegando ao fim. Temos uma pequena ascensão agora, que chama de pequeno repique que pode acontecer, mas a pressa da vacina não se justifica, disse Bolsonaro, ao afirmar que há uma apreensão injustificada sobre a doença que já matou mais de 180 mil brasileiros. "Você mexe com a vida das pessoas. Vão inocular algo em você. O seu sistema imunológico pode reagir ainda de forma imprevista", comentou.

Bolsonaro fez ilações ainda sobre "interesses" nos R$ 20 bilhões previstos para comprar as vacinas, sem dar nenhum detalhe. "Tem muita coisa ainda que está em segredo. Não quero externar aqui, porque a imprensa vai usar contra mim. Mas o interesse é muito grande nesses R$ 20 bilhões para comprar essa vacina", declarou ao filho. "Não há guerra ou politização da minha parte. A gente espera uma vacina segura. A própria China... não temos informações de vacinação em massa por lá", afirmou.

Sem citar nomes, mas claramente se referindo ao governador de São Paulo, João Doria, Bolsonaro disse que também não tem pressa de gastar os recursos. "Não tenho pressa de gastar dinheiro não. Nossa pressa é salvar vida, não é gastar não. É muito suspeita essa pressa em gastar R$ 20 bilhões em vacina", disse.

Apesar de não haver como uma vacina ser utilizada no Brasil sem passar pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Bolsonaro disse que é preciso aguardar o aval da agência reguladora. "Você não pode, sem que passe pela Anvisa, sem que tenha certificação da Anvisa, você botar a vacina no mercado. Isso é uma irresponsabilidade. Lógico, tendo uma vacina comprovada, a gente vai comprar e vai distribuir para todo o Brasil e aquele que quiser voluntariamente se vacinar, poderá fazer."

Já tendo chamado o coronavírus de "gripezinha", o presidente afirmou que a "questão da pandemia" foi uma tragédia e que o Brasil teve de conviver com a doença. "Estamos sobrevivendo. Os números têm mostrado que o Brasil em mortes por milhão de habitantes está cada vez mais abaixo do topo do número de mortes", disse, atribuindo a situação ao "tratamento precoce" para combater o vírus. Bolsonaro é defensor da cloroquina para o tratamento da Covid-19, mesmo não havendo comprovação científica sobre a eficiência do remédio para combater o novo vírus.

O Brasil contabilizou na última sexta-feira, 18, a média móvel de 748 mortos pela Covid-19, um aumento de 17,06% em uma semana. Nas últimas 24h, foram 811 novos registros de mortes e 52.385 casos confirmados. Os dados são do consórcio de veículos de imprensa formado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL em parceria com 27 secretarias estaduais de Saúde.

Ataques a Maia

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi alvo de ataques pelo presidente Jair Bolsonaro neste sábado, 19, durante entrevista. Segundo Bolsonaro, Maia é culpado por ter supostamente atrapalhado os planos do governo federal com ações de regularização fundiária na Amazônia, ao ter deixado vencer o prazo de uma Medida Provisória (MP) que o governo havia enviado ao Congresso. Na realidade, a MP 910, que passou a ser conhecida como "MP da grilagem", estava muito longe de qualquer consenso e enfrentava dura resistência no parlamento.

"Fomos atrás da regularização fundiária. Agora, poderia ter potencializado isso se o presidente da Câmara (Rodrigo Maia), que está saindo agora, não tivesse deixado caducar uma MP sobre regularização fundiária. Você ia estar livre do problema de foco de incêndio na Amazônia" disse Bolsonaro.

Segundo o presidente, o objetivo de Maia seria o de prejudicar o governo. "Faz-se de isso para atacar, atingir o governo", declarou Bolsonaro. "O que nós temos com a regularização é identificar qualquer foco de incêndio no Brasil. Não adianta falar, `temos 3 mil focos de incêndio no Brasil'. E daí? E daí? E daí? Você não sabe, naquele local, quem é o dono daquela terra não tem o CPF. Se tivesse aprovado aquilo, estaríamos combatendo isso daí."

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) provam, cientificamente, mês após mês, que o governo Bolsonaro tem sido o mais incendiário de toda a Amazônia e Pantanal, com índices recordes de queimadas e desmatamentos recordes, nunca atingidos desde o início da série histórica feita pelo Inpe, a partir de 1998.

Bolsonaro aproveitou o vídeo com o filho para criticar, ainda, a preocupação de outros países sobre a questão ambiental no Brasil voltando a dizer que se trata de interesse comercial, interessado em prejudicar o Brasil e o agronegócio nacional.

"Quanto dos territórios deles estão com mata preservada? Ai o cara fala, `um erro não justifica o outro'. Por que eles, em vez de querer reflorestar o Brasil, não reflorestam seus próprios países?", questionou o presidente. "O grande jogo é econômico. Se você conseguir travar o agronegócio, a economia aqui tem um baque. E isso é bom para eles", disse Bolsonaro.

O agronegócio brasileiro, na realidade, está entres os mais preocupados hoje com a imagem do Brasil na área do meio ambiente. Em cartas sucessivas enviadas ao governo nos últimos meses, o agro, junto da indústria e organizações do meio ambiente, critica duramente a política de Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

A última delas foi publicada na semana passada. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento composto por 267 representantes ligados às áreas do meio ambiente, agronegócio, setor financeiro e academia, reagiu mal ao anúncio de novas metas climáticas feito pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Na avaliação das empresas, a proposta do governo Bolsonaro foi marcada pela "ausência de diálogo no processo de revisão". "A sociedade brasileira foi fundamental para que o país apresentasse uma meta ambiciosa na Conferência do Clima (COP) 21 em 2015, que teve como resultado a assinatura do Acordo de Paris. Na revisão, a tradição de diálogo e escuta com a sociedade não foi respeitada", afirmou o grupo.

Bolsonaro deseja um "excelente 2022"

Para que não fique nenhuma dúvida sobre onde estão os pensamentos do presidente da República, Jair Bolsonaro desejou a todos os brasileiros um "excelente 22" neste sábado, 19, ao concluir a entrevista.

"Vamos acreditar, o Brasil é um País maravilhoso. (Ano de) 22, né? Eu não estou dizendo que vou vir candidato, mas vou participar da política de 2022. Se vocês continuarem a acreditar em mim, pode ter certeza nós mudaremos o Brasil pelo voto. Pode ter certeza disso, tá ok?", disse Bolsonaro, para logo em seguida concluir: "um abraço para todo mundo, bom Natal, bom fim de ano e um excelente 22 para todos nós."

Durante a conversa com o filho, Bolsonaro criticou a imprensa e países estrangeiros, defendeu torturadores, disparou contra o Congresso e disse que foi eleito "militância de internet, a tia do zap", que "pode tuitar o que bem entender" sobre sua atuação. "Qual a importância da tia do zap, que está todo dia tuitando, todo dia defendendo o governo? E querem calar essas senhoras ou essas pequenas páginas (de internet)?", questionou.

Para demonstrar seu "poder" de atração de votos, Bolsonaro chegou a expor o próprio filho Eduardo, dizendo que este só teve "um voto" nas eleições, o de si próprio, porque todos os demais foi o pai que lhe deu.

"Como está a vida de deputado, está feliz? Vamos ver se você está ficando inteligente. Você teve quantos votos nas últimas eleições?", questionou Bolsonaro, ao que Eduardo respondeu: "1.843.735 de votos".

Bolsonaro, então disse: "não aprendeu não. Você teve um voto. O resto foi meu, pô."

O pai citou, então, um episódio em que quase dormiu ao volante, durante uma viagem que fazia com o filho, entre o Rio de Janeiro e Ribeirão Preto, em São Paulo. "Não confio em vocês, né. Sou mais eu dormindo do que vocês acordados, disse.


Agência Estado/Dom Total



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