Cultura TV

22/12/2020 | domtotal.com

O melhor e o pior do ano na TV

Entre surpresas e decepções, o melhor e o pior de filmes, séries e programas na TV e no streaming

Com as pessoas tendo de ficar em casa, talvez 2020 tenha sido o ano que mais assistimos TV
Com as pessoas tendo de ficar em casa, talvez 2020 tenha sido o ano que mais assistimos TV (Unsplash/Jeshoots.com)

Alexis Parrot*

Provavelmente, este foi o ano em que mais assistimos televisão, desde o seu advento. Sem cinema e com a produção da TV aberta afetada drasticamente pelo lockdown, os serviços de streaming nadaram de braçada. E dá-lhe séries, telefilmes e lives. E reprises.

Abaixo, uma seleção do melhor e do pior de 2020. Para aqueles programas e séries aos quais eu já havia dedicado uma crítica, segue o link para a coluna previamente publicada.   

Surpresas

  • Novelas: A Globo acertou na mosca ao reapresentar antigas novelas. Enquanto no canal aberto ganharam espaço produções mais recentes, no Globoplay as estrelas foram clássicos como Vale tudo, Brega e chique, Kubanakan, Tieta, Laços de familia, O clone e Terra nostra.
  • Séries mais antigas, porém inéditas no Brasil: a exemplo do Globoplay, que em 2019 disponibilizou Halt and catch fire, este ano os destaques ficam com o Amazon prime – por The hollow crown, adaptação épica produzida pela BBC das peças históricas de Shakespeare – e com a Netflix – por Borgen, mostrando os bastidores da política dinamarquesa a partir do ponto de vista de uma primeira ministra.

Decepções

  • Masterchef (Band): o novo formato, adaptado para cumprir exigências de distanciamento social contra o coronavírus, talvez tenha sido o maior equívoco do ano. Com novos participantes a cada semana, ninguém se lembra mais quem venceu ou perdeu no último episódio – reality sem torcida não é reality que se preza. Uma opção melhor teria sido o modelo usado no Masterchef profissionais da Inglaterra, onde os competidores são divididos em chaves (como um campeonato de clubes de futebol). Quem não é eliminado segue na competição e retorna de tempos em tempos para enfrentar combates de oitavas, quartas e semifinais, até o derradeiro programa e com apenas um campeão na final.     
  • Space force (Netflix): Steve Carell (de The office) erra a mão e provoca no máximo risos amarelos com esta comédia confusa sobre astronautas, foguetes e militares.
  • Hunters (Amazon Prime): a esperada estreia de Al Pacino na TV foi um sonho que durou pouco. Judeus fazem justiça com as próprias mãos e saem matando nazistas que conspiram por um renascimento do Reich. Com uma estética que mistura Tarantino e história em quadrinhos, a série transforma o holocausto em piada de mau gosto ao se apoiar em um perigoso elogio da vingança.   

Telefilmes

  • O pior: A festa de formatura (Netflix)
    Ao adaptar o show da Broadway, Ryan Murphy comete verdadeiro crime, criando um musical em que os protagonistas fingem que dançam. Persiste ainda um problema que já era da versão teatral: todas as músicas (letra, melodia e arranjos) têm gosto de déjà vu. A mensagem é importante, mas o resultado final não empolga – além de trazer a interpretação mais no piloto automático de toda a carreira de Nicole Kidman.
  • O melhor: Destacamento blood (Netflix)
    Menções honrosas: The boys in the band e Festival Eurovision da Canção - a saga de Sigrit e Lars (ambos do Netflix)

Piores séries

  • AJ and the queen (Netflix): ficou provado que Ru Paul como ator é um ótimo Ru Paul. Se o artista é uma força da natureza no reality, na ficção a história é outra. 
  • Hollywood e Ratched (Netflix): a onipresença do workaholic Ryan Murphy uma hora ia dar xabu. Se até American horror story já não vem rendendo tanto, imagine controlar uma, duas, três, quatro, cinco novas séries ou novas temporadas por ano. Hollywood, uma bobagem pretensiosa, ainda pode se arvorar do discurso da diversidade (ao imaginar outros caminhos que a meca do cinema poderia ter tomado a partir dos anos 50), mas Ratched nem este viés militante possui. Não passa de uma viagem estética e vazia que nada tem a ver com o clássico Um estranho no ninho, do qual pretende ser uma prequel. Perto de Pose e Feud, outras produções de época do mesmo Murphy, os defeitos de ambas ficam mais evidentes ainda.    
  • The sinner: a segunda temporada já não tinha sido lá essas coisas, mas a terceira leva de episódios conseguiu enlamear de vez a boa impressão que o ano um da série havia deixado. A trama sem pé nem cabeça nos faz sofrer com a interpretação forçada de Matt Bomer e posiciona um cansado Bill Pullman à beira do abismo do constrangimento.
  • The undoing (HBO): Talvez Manhattan nunca tenha sido filmada de forma tão elegante (palmas para a diretora Susane Bier, ótima para criar climas). Mas, além disso e das roupas chiquérrimas da personagem de Nicole Kidman, sobra pouca coisa para elogiar. Uma trama pretensamente de suspense com reviravoltas de Pirro no roteiro e o desfecho mais anticlímax da TV em 2020. 

Melhores séries

  • Sinta-se em casa (Globoplay): Marcelo Adnet fez o país rir e pensar com suas pílulas diárias durante a quarentena. Transformando a precariedade em estética, lavou nossa alma ao dizer o que todo mundo queria ouvir, sem freios ou rede de proteção. Não só um dos mais interessantes olhares sobre o Brasil face à Covid, mas uma das melhores coisas que a TV brasileira produziu em 2020.
  • Quiz (AMC/ITV): Mais uma incursão televisiva do cineasta Stephen Frears, a minissérie em três capítulos conta a história verdadeira do casal que teria fraudado em 2001 o programa Quem quer ser um milionário? Segundo um dos personagens, uma atração na TV de perguntas e respostas só podia mesmo ser um sucesso, por unir duas instituições britânicas: o quiz de bar e o prazer de estar certo. Baseada na peça de James Graham (que também assina o roteiro), a minissérie traz Michael Sheen em performance impecável como o apresentador do show, além da dupla Matthew Macfadyen (de Orgulho e preconceito) e Sian Clifford (a irmã de Phoebe Waller-Bridge em Fleabag). Trata-se de mais um exercício de dissecamento da cultura e sociedade do Reino Unido que Frears desenvolve há décadas em sua filmografia. Em uma palavra: imperdível.
  • The crown (Netflix): Quanto mais vai se aproximando do tempo atual, mais ainda a série se destaca. O retrato da irredutibilidade política da dama de ferro Margareth Tatcher (Gillian Anderson) e a entrada de lady Diana Spencer na história mexeram com as lembranças de muita gente. Toda a família real é pintada com tintas pouco lisonjeiras, porém, o pior papel sobrou para o príncipe Charles: de inseguro e pobre coitado, se transformou no vilão dessa temporada. A repercussão da série tem sido tão desastrosa para a imagem dos Windsors que o próprio ministro da Cultura britânico chegou a pedir que a Netflix iniciasse os episódios avisando tratar-se de um programa de ficção. A resposta da plataforma de streaming foi um "não, obrigado", apostando no bom senso de seus assinantes, porque ninguém vai achar que está assistindo a um documentário.
  • The great (Amazon Prime/ Starzplay): o roteirista Tony McNamara retorna ao tema da realeza em que ambientou o filme A favorita (Oscar de atriz para Olivia Colman em 2019). Dessa vez o cenário é a Russia czarista do século 18 e a série acompanha a caminhada rumo ao trono da jovem Catarina (Elle Fanning), que passará à história conhecida como "a Grande". Ao contrário da recusa da Netflix em inserir em The crown o aviso solicitado pelo ministro, os créditos iniciais de cada episódio anunciam tratar-se de "uma história ocasionalmente real" – para instalar desde a largada o tom de comédia e farsa que o programa cumpre divinamente. 
  • Todas as mulheres do mundo (Globoplay): um olhar afetuoso e original sobre a obra de Domingos de Oliveira.
  • Shape of pasta (Quibi): a busca por massas artesanais raras confirma a Itália como santuário da gastronomia.
  • I know this much is true (HBO): Mark Ruffalo deixa o Hulk de lado para nos dar (em dose dupla) a melhor interpretação de sua carreira.

Menções honrosas:

  • O gambito da rainha (Netflix): série que acompanha a trajetória da enxadrista genial, órfã e viciada, impecável na reconstituição de época, nos figurinos e no melodrama. Uma história de empoderamento feminino passada nos anos 60, porém, na medida para nossos dias em que ainda persistem inúmeros mecanismos de silenciamento e violência contra a mulher.       
  • A máfia dos tigres (Netflix): o estranhíssimo universo dos zoológicos particulares dos EUA e seus proprietários, com direito até a uma trama de assassinato. De tão absurdo, só poderia mesmo ser um documentário.
  • Drácula (Netflix/BBC): o morto vivo mais famoso da Transilvânia ganha uma nova leitura. Além dos caninos e do charme sedutor, dessa vez o vampiro recebe outro superpoder: a ironia. Dos mesmos autores que modernizaram o Sherlock Holmes vivido por Benedict Cumberbatch, é uma fantasia de épocas que consegue partir do tempo das carruagens até alcançar a era do celular e das redes sociais sem perder o rebolado.   
  • The outsider (HBO): a interpretação contida de Ben Mendelsohn e Cynthia Erivo servem de régua para esta sóbria adaptação de Stephen King. Na pauta de discussão, temas que não saem de moda, como o embate entre essência e aparência, fé e luto.  
  • John Mullaney and the sack lunch bunch (Netflix): Esqueça Garibaldo e o dinossauro Barney. Neste especial, o ex-roteirista do Saturday night live e comediante Mullaney abusa da metalinguagem para desconstruir todos os clichês dos programas infantis. Para assistir junto à criançada.      

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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